19 de fev de 2014

Galera Pop: Robocop

José Padilha já entrou em campo com o jogo perdido. Dá até para ouvir mentalmente o capitão Nascimento, com sua famosa voz em off: “é barra, parceiro.” José Padilha foi mexer logo em RoboCop, o pequeno clássico de 1987, dirigido por Paul Verhoeven. Não que a pequena obra-prima cyberpunk de Verhoeven já não tivesse sofrido todo tipo de violação – sequências, telefilmes e desenhos animados que, de tão ruins, só enterraram o personagem cada vez mais fundo na lama. Porém, o longa-metragem original sempre esteve lá, intocado, até Hollywood resolver cometer mais uma de suas refilmagens, “reimaginações” ou algo do gênero – e justo pelas mãos do nosso José Padilha. Justiça seja feita, que bom que Padilha não fez o mesmo filme que Verhoeven. E que pena que Padilha não fez o mesmo filme que Verhoeven.

Antes de mais nada, vale dizer que RoboCop de José Padilha é cheio de boas ideias para se distanciar de um mero pastiche do original. O filme de Verhoeven é personalíssimo, único e tão oitentista que é datado – datado daquela forma simpática e inovadora que só os grandes filmes dos 1980s conseguem ser. Para fugir dessa armadilha, a nova versão se vale da polêmica do uso de drones pelas forças armadas americanas e entra num viés que o original não trilhou: o dilema da manipulação mental do protagonista, da dicotomia homem X máquina dentro do ciborgue. Esse traço frankensteineano não foi abordado pelo RoboCop de Verhoeven e é uma boa sacada da trama, especialmente por contar com Gary Oldman como o gênio responsável pela criação do ciborgue.

A história é basicamente a mesma: o policial honesto Alex Murphy (Joel Kinnaman) é abatido por criminosos, e seu corpo é usado pela corporação Omnicorp (liderada por Michael Keaton) para se transformar em seu novo produto, o policial robótico RoboCop. Em dado momento, o ciborgue rompe com sua programação e, intrigado com o passado e com o próprio crime de que foi vítima, vai contra a gangue que o atacou e termina por descobrir que a corporação que o criou também não é lá flor que se cheire.


Fiel a seus princípios, José Padilha faz aqui uma sequência velada à duologia Tropa de Elite. Seus temas preferidos estão lá, como a corrupção policial e as conexões escusas do crime com a lei, com os políticos, a mídia e empresas. Tire a grife do personagem e o viés futurista, e temos basicamente meio Tropa de Elite; a outra metade é um conto moderno de Frankenstein. Palmas para o diretor por levar a história por outros caminhos. Porém, José Padilha é essencialmente um documentarista e, como tal, sabe retratar muito bem os temas de hoje. Assim, o novo RocoCop é uma ficção científica que já nasce velha, o que é um pecado. Enquanto isso, Paul Verhoeven é um visionário. Em 1987, falava de um empreendimento de sanitização e gentrificação de Detroit para transformá-la na fictícia Delta City. É só olharmos o Porto Maravilha, o engodo tramado pelo prefeito do Rio em conluio com grandes empreiteiros e outras máfias, para vermos ali a nossa (trágica) Delta City. O RocoCop original é ao mesmo tempo assustadoramente futurista e atual.

O que incomoda no novo RoboCop é que, apesar dos novos rumos da trama, o filme segue a cartilha de um filme de ação genérico e vai perdendo a força assim que a novidade se esgota. Não há uma sequência memorável, um vilão inesquecível, nem nada de impactante. A violência é de videogame para adolescentes: brutal, sim, mas acelerada demais e limpinha. Em determinado ponto, o filme se torna intercambiável com qualquer outra produção recente do gênero. Perde identidade e perde presença. A opção por expor demais o rosto de Alex Murphy deixa claro que Joel Kinnaman não sustenta o personagem (a opção original era Michael Fassbender, um ator em outro nível bem acima), e o design do capacete que revela a face é bem duvidoso: ele parece que está com a cara num buraco da parede, prestes a fazer uma careta divertida. Se a intenção era fazer um paralelo com Frankenstein, o design original do rosto que se fundia a conexões cibernéticas era bem mais eficiente. Do meio para o fim, o RoboCop de José Padilha trilha o caminho daqueles antigos telefilmes dos anos 1990 sobre o personagem. Tira essa armadura que tu não é RoboCop, tu é um moleque.

O trailer e outras informações estão no site oficial.

Um comentário:

Renata Pereira disse...

Gosto muito do Robocop clássico e menos de suas sequências, desenhos, séries e afins...ainda assim gosto do Robocop clássico e revi por esses dias como um aquecimento para ver o filme novo, que vou cheia de expectativas. Apesar de muito bem escrita achei essa crítica muito parcial, até um pouco preconceituosa com relação ao filme novo x antigo. O antigo diretor é realmente f***, mas pretendo dar um voto de confiança ao diretor brasileiro. Acho que a maioria dos filmes de ação tem sequências que me cansam as vezes, talvez esse não seja diferente... Também me pergunto o porquê desses "remakes", o filme é clássico, deixa ele lá, pois nem sempre dá para fazer melhor... mas as vezes só querem mesmo fazer diferente. Quero muito ver!
Grande beijo!