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7 de jan. de 2016

Galera entre letras: Desafios Literários!



A primeira coluna de 2016 não poderia vir num dia mais propício, afinal, hoje é o dia do leitor!

FELIZ DIA DO LEITOR PRA TODOS NÓS!

Eu fiquei pensando durante a semana sobre o que gostaria de escrever num dia tão especial (e assunto é o que não falta pra gente na Galera entre Letras! rs) e resolvi que a melhor maneira de comemorar o dia de hoje é… lendo mais ainda em 2016! rs

E que tal se essa leitura for feita com outras pessoas e você puder discutir, trocar ideias ou mesmo reler com outros olhos as histórias que já leu?

Mas calma que eu já conto como tudo começou…

Uma amiga me chamou pra participar de um desafio literário bem legal — 12 meses de Poe. A proposta é ler todo mês um conto de Edgar Allan Poe e trocar ideias sobre os contos lidos. Eu adorei a ideia e estou acompanhando o desafio, que tem até página no Facebook.

Claro que o desafio não precisa se limitar aos contos do Poe, e também não precisa ser coletivo nem precisa de página nas redes sociais. Você pode convidar um colega, vizinho, irmão, pai, mãe ou pode seguir o desafio sozinho mesmo. E também não precisa seguir à risca a lista de textos (quem nunca mudou de ideia, não é?!). O importante é tirar um tempinho pra você reler algo de que gosta ou, quem sabe, um autor ou texto que nunca tenha lido.

E tudo bem se a sua biblioteca pessoal não é assim tão grande ou se você não tem uma biblioteca pública por perto (tem muitas espalhadas pelo Brasil e todas elas costumam ter salas de leitura ou emprestam os livros pra você levar pra casa por um prazo determinado — só não esqueça de devolver!). Tem algumas bibliotecas virtuais que permitem que você faça downloads LEGAIS de livros (porque livro pirateado não vale, né?).

Em geral, costumam ser obras clássicas, de autores em domínio público. Se você não lembra ou ainda não sabe o que são “obras em domínio público”, dá uma lida na matemática dos autores aqui.

Uma boa biblioteca de obras em domínio público (em português, inglês e espanhol) é o Portal Domínio Público. Dá pra baixar várias obras, inclusive, as de Edgar Allan Poe (infelizmente não tem nada em português, mas tem os textos originais em inglês e traduções para o espanhol). E aqui vocês encontram a tradução do Machado de Assis para um dos poemas mais conhecidos do Poe — O Corvo.

E no Project Gutenberg também tem uma “prateleira” com livros em português.

Uma biblioteca pouco conhecida de textos em língua inglesa, mas que eu adoro, é a eBooks@Adelaide.

E já que eu falava de “obras em domínio público”... na Austrália as obras caem em domínio público 50 anos após a morte do autor (ao contrário da maioria dos países, inclusive do Brasil, onde esse período é de 70 anos), então, dá pra ler muita coisa nas bibliotecas virtuais australianas que ainda não estão disponíveis nas outras — dá pra baixar também, mas você não pode publicar porque aí estaria infringindo o copyright (o direito autoral). Eu sei que é complicadinho, então, melhor só ler mesmo rs

Aqui tem o link do Project Gutenberg Australia.

Ufa! Leitura é que não vai faltar em 2016!

O meu desafio literário pessoal vai ser reler alguns contos do Conan Doyle (já deu pra perceber que um dos meus personagens favoritos é Sherlock Holmes, né? Já até falei da série nova aqui.

O conto do mês de janeiro é um dos meus preferidos, nem sei quantas vezes já li: A Scandal in Bohemia [Um Escândalo na Boêmia]. Depois falo mais sobre o desafio sherlockiano!

Espero que vocês se divirtam com o desafio literário. E quem quiser pode postar como será o seu desafio pra 2016!

Boas leituras e até!






29 de out. de 2015

Galera entre letras: O monstro conhecido

Ainda estamos no clima do Halloween e hoje, como eu tinha prometido, vou continuar falando do medo e de coisas que dão medo. E como terminei com o medo gótico em Poe, hoje começo com Poe também (deu pra perceber o quanto eu gosto dele, né?).

Se Poe foi um dos mais importantes autores do medo gótico, ele também serviu de inspiração para um tipo de medo que, a meu ver, é muito contemporâneo: o medo do que nos é conhecido e familiar.
É muito fácil quando aquilo que nos ameaça e dá medo é um zumbi de pele cinzenta, uma serpente de dois metros ou mesmo um ser qualquer com quatro patas e duas cabeças! É fácil identificar a ameaça e, com sorte, evitá-la. Mas quando aquilo que nos ameaça tem uma aparência normal é que são elas! E este é um medo real e muito atual. E é tão importante que até um pensador como Freud gastou tinta e papel para escrever sobre isso.

Eu acho que é o fato de que isso possa realmente acontecer com a gente que torna esse tipo de história (sobre coisas familiares que, por algum motivo, passam a nos ameaçar) tão interessante. Confesso que tenho mais medo dessas histórias do que de qualquer criatura gigante e com duas cabeças!

E, como eu disse antes, Poe também foi pioneiro desse tema. Ele escreveu um pequeno conto chamado “O homem da multidão” que trata justamente de como uma pessoa em uma metrópole como Londres (e já no século XIX Londres era uma das mais importantes capitais do mundo!) pode se sentir ameaçada por seus habitantes e pelas atitudes mais triviais. Eu não vou contar a história pra vocês porque tem várias traduções disponíveis, além do conto original, na Internet. Leiam!

Imagino que vocês estejam pensando que numa cidade grande ou numa metrópole as pessoas ou as coisas podem parecer ameaçadoras até para os espíritos mais fortes!

Mas… e se fosse uma cidadezinha pequena? Daquelas em que todos se conhecem? Será que dá pra sentir medo num lugar assim?

A resposta é: dá pra sentir medo. Muito medo.

Uma das minhas autoras preferidas de histórias de medo é Shirley Jackson (numa semana em que se falou tanto sobre as mulheres eu não podia deixar de mencionar uma, né?), mas ela não é do tipo que fala de metrópoles ou gigantes vingativos. Suas histórias sempre se passam em locais pequenos: uma aldeia, uma casa, que, sobretudo por serem pequenos, do tipo onde todos se conhecem, se torna claustrofóbica e muito assustadora.

E tanto pelo tema como pela maneira de envolver o leitor, a Shirley Jackson é uma legítima herdeira de Poe e dos contos góticos, a tal ponto que chamam o tipo de histórias que ela escreve de “gótico do sul dos Estados Unidos”.

O conto do qual eu quero falar pra vocês hoje se chama “A loteria” e até hoje é considerado um dos contos mais polêmicos já publicados nos Estados Unidos! Teve até protesto por causa da publicação. (Imaginem uma época pre-Facebook em que, para protestar, as pessoas escreviam cartas ou telefonavam!)

E o conto é tão marcante pra literatura norte-americana que inspirou autores e autoras nas décadas seguintes, incluindo a Suzanne Collins, autora de “Hunger Games”, que lá nos Estados Unidos é editada por ninguém menos que o David Levithan!

Mas o que é que o conto tinha de tão polêmico para gerar toda essa comoção? Bom, um dos motivos era justamente o fato de começar de maneira trivial. Os leitores se assustaram ao perceber — lá pelo meio do conto — o que realmente significava a loteria.

Para eles, um conto que começava falando de uma manhã límpida e ensolarada não poderia terminar da maneira que termina. Pra aguçar a curiosidade de vocês, eis o primeiro parágrafo:

“A manhã de 27 de junho estava límpida e ensolarada, com o calor refrescante de um dia em pleno verão; as flores desabrochavam em profusão, e a grama era de um verde vivo. Os habitantes do vilarejo começaram a se reunir na praça, entre os correios e o banco, por volta de dez da manhã; em algumas cidades, havia tantas pessoas que a loteria durava dois dias e tinha que começar em 26 de junho. Neste vilarejo, porém, no qual havia apenas cerca de 300 pessoas, a loteria inteira durava menos de duas horas, por isso, podia começar às dez da manhã e ainda acabar a tempo de permitir que seus habitantes voltassem a casa para fazer a refeição do meio-dia.”

E pra quem ficou curioso… Ano passado eu traduzi “A loteria” para a “(n.t.) revista de tradução”. A revista completa está neste link. É só baixar, ler e tirar suas próprias conclusões: será que o que nos é mais próximo pode ser o mais ameaçador, e que sob um céu ensolarado se escondem as verdades mais obscuras do ser humano?

Espero que vocês gostem da leitura!


Por trás da aparência professoral, se escondia uma grande conhecedora da alma humana.

8 de out. de 2015

Galera entre Letras: Você tem medo de quê?

O mês de outubro é o meu preferido (e nem é pelo dia das crianças, que eu não comemoro mais rs). Eu gosto dele por causa do Halloween e do aniversário de morte de um dos meus autores favoritos: Edgar Allan Poe.

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(Eu tinha que compartilhar este gif com vocês.)

Dificilmente alguém que gosta de ler já não cruzou com um texto dele ou um filme baseado em sua obra. E dificilmente alguém abriu uma antologia de contos norte-americanos sem se deparar com um de seus contos mais famosos: “O coração denunciador”, “O gato preto”, “A carta roubada” ou “Os assassinatos na rua Morgue”.

Por isso, pensando em Poe e no Halloween, resolvi dedicar as duas colunas do mês ao medo. Sim. A esse sentimento ao mesmo tempo estranho e prazeroso.

Bom, eu não vou dar uma aula sobre o medo aqui, mas vamos tentar entender o que é o medo e por que tanta gente gosta de ler (ou ver) algo e sentir medo?

Em primeiro lugar, é bom lembrar que a gente SENTE o medo. Quer dizer, quando a gente tem medo, nosso corpo sofre alterações físicas, sabem? O coração dispara, nós começamos a suar, a respiração encurta. Dá até pra medir os impulsos cerebrais ligados ao medo! O que significa, claro, que ele é REAL. Quem já sentiu medo uma vez na vida, sempre reconhece a sensação.

E o medo também tem uma função importante: a de (auto)preservação. Se você tem medo, se arrisca menos e consequentemente tem mais chance de sobreviver. Engraçado, né?, que o medo possa ser importante pra sobrevivência da espécie. Mas é fato que ele também serve pra isso.

E também é fato que essa função de preservação dos indivíduos foi logo percebida. E sabem o que aconteceu? Passou-se a contar histórias que, de alguma forma, despertassem medo ou um sentimento parecido com o medo. Essas histórias tinham a função de educar e assumiam formas que a gente conhece muito bem. Já pensaram nos contos de fadas? Muitos deles tinham como tarefa evitar que as pessoas cometessem atos considerados errados na época em que viviam (por isso, os garotinhos desobedientes se deparavam com feiticeiras malvadas no meio da floresta; se alguém mentisse, o nariz crescia e por aí vai…). Claro que essa função “controladora” do medo não se limitou aos contos de fadas nem se restringiu a mostrar que a mentira é uma coisa feia.

Mas vamos em frente na nossa brevíssima história do medo.

Uma das curiosidades a respeito do medo é que ele pode ser provocado por algo externo ou por nós mesmos. Explico: eu tenho medo de barata. Sempre que vejo uma barata, eu tenho todos aqueles sintomas que descrevi antes. MAS: eu posso estar num lugar no qual eu ache provável uma barata aparecer e, mesmo sem ter visto uma delas, vou ter medo. Isso prova que nós conseguimos criar o medo apenas com nossa mente. Algumas vezes, essa sensação é chamada de angústia, isto é, a antecipação de algo ou de um acontecimento que causa medo.

Pra mim essa é a característica mais importante do medo: o fato de que ele não precisa de algo externo pra ser acionado. E por isso mesmo ele é uma sensação tão importante para a literatura e foi um tema tão constante, afinal, nós temos uma literatura de terror, né?

Quem mais explorou o medo como tema e como um meio de despertar o interesse do leitor foram os escritores e escritoras góticos. Se você já leu um livro que tem uma mocinha ou um mocinho frágil e debilitada(o), que desmaia à toa, mas que gosta de perambular por corredores escuros e lugares ermos tarde da noite, e no qual é normal que portas batam sem que esteja ventando, e que pratos ou outros utensílios se quebrem sem motivo aparente, então, você já leu um romance gótico. E provavelmente seu coração disparou enquanto você passava páginas e mais páginas que descreviam meticulosamente um determinado lugar. Quase como se você estivesse dentro do livro e pudesse sentir aquela “atmosfera”.

A “atmosfera” gótica tem tudo a ver com o medo. É praticamente impossível a gente não se identificar com a fragilidade dos personagens!

O gênero gótico fez tanto sucesso na literatura que até hoje nós temos autores que exploram essas sensações — são os chamados neogóticos. E alguns criaram essa ”atmosfera” inspirados pelo próprio local em que moravam: os góticos sulistas, por exemplo, que são os autores que moravam no sul dos Estados Unidos.

Mas… e o Poe? Bem, Edgar Allan Poe, pra mim, é um dos mais importantes representantes da ficção gótica nos Estados Unidos, embora não tenha se limitado a escrever histórias góticas. Vocês sabiam que ele foi o inventor do romance policial, tal como a gente conhece hoje?

Ele sabia como ninguém criar essa “atmosfera de medo” e soube como ninguém explorar a angústia e o medo em suas histórias. E também criou histórias em que o medo era causado por coisas bobas e rotineiras. Ou mesmo por pessoas conhecidas.

E nisso ele inspirou um bocado de autores depois dele.

Na próxima coluna, eu vou falar do medo causado por coisas (ou pessoas) conhecidas e desconhecidas, e por que a gente insiste em ler histórias que nos dão medo. Preparem-se! Vai ser de arrepiar!