- Lendo o que, minha filha?
Olho para o lado e respondo: "Com louvor". Ela continua:
- Livro novo do padre? Nem sabia que tinham lançado... Ai, adoro o padre! Acabei de ganhar um de Natal mas tinha ele na capa, não tinha essa moça bonita.
Explico pacientemente que não é do padre, mas depois de tanta conversa chega na minha estação e mal consegui ler o tanto que queria.
No segundo dia foi na hora do almoço. Levei meu livro para terminar de ler uma parte que eu estava interessadíssima. É quando a Shipley se entende com o Tom. Lembro até a página: 101. Tive que gravar, porque foi começar a ler que alguém sentou na minha frente. Era uma conhecida que não via há pelo menos 5 anos.
- Daniela! Nossa, nunca mais te vi, sempre com um livro na mão! Como você arruma tempo? Séculos que não leio um livro!
- Er... Rafaella, é... Amo ler nas poucas horas vagas (tentando ver se ela se tocava. Eu já estava irritada por ela ter errado meu nome, né...)
Bem, conversa vai, conversa vem, ela passou meia hora falando e eu ali, querendo saber da vida da Shipley... Pronto: tinha acabado meu horário de almoço.
No terceiro dia pensei: Vou ler em casa! Chegando lá, deitei na minha cama e peguei o livro. Já estava na página 147, envolvida com a cena em que o bebê da Rosen ia parar de chorar, ansiosa para saber se rolaria ou não alguma coisa entre Shipley e Adam... Quando meu pai entra no quarto para saber como foi meu dia. Coloquei meu marcador, contei um pouco do dia e continuei lendo. Mas ele queria conversar...
- Sinto falta de quando era eu quem lia para você! Lembra, filha? Do Bolinha? Você amava o Bolinha. Ele se escondia o livro todo, eu lia o que acontecia e você ria tentanto advinhar onde ele estava!
- Lembro sim, pai! Mas depois conversamos melhor porque esse livro aqui está ótimo!
- Claro (ele faz que vai embora mas volta). Mas você ainda tem o livro do Bolinha?
- (respiro fundo!) Não, pai. Minha mãe deve ter dado.
- Ah não! Sua mãe não pode ter feito isso. Logo o livro do Bolinha?
Gente, meu pai desesperado com o sumiço do Bolinha e eu nem lembro se ele era um garotinho ou um cãozinho !
No quarto dia, depois de ter passado a madrugada lendo, faltavam poucas páginas. Pensei: Vou terminar no metrô. Dessa vez, esperando na plataforma e já no capítulo 19, estava empolgadíssima com o aparecimento do Patrick, com a dúvida de Shipley em escolher entre Adam ou Tom... Quando fui cutucada por uma casal:
- Bom dia, sabe como devemos fazer para chegar ao Corcovado?
Expliquei tudinho, eles me agradeceram e o metrô chegou. Eu estava devorando o livro, chegando na página 287, quando o tal casal para na minha frente (metrô lotado e aquela dificuldade básica de me equilibrar e virar a página) e começa a perguntar se o livro é bom, se eu sou mesmo do Rio de Janeiro, me agradecem de novo...
Cheguei atrasada no trabalho. Não peguei o elevador enquanto não cheguei na página 313 (a última!). Várias pessoas me deram bom dia. Ou pelo menos eu achei que era para mim, mas não respondi. Estava ali tão envolvida com Shipley, Tragedy, Patrick, Adam, Nick, Eliza. Desculpem se pareço doida, mas quando leio e gosto da história eu fico em um mundo só meu. Meu e dos personagens. E ai de quem me interromper! Se me encontrarem lendo... Já sabem! rs