Um dia, na semana passada, lá estava eu, comendo e lendo (uma obra jovem adulta escrita por um amigo meu, diga-se de passagem), quando uma pessoa conhecida sentou ao meu lado e se entortou toda para ver a capa do meu livro.
– Qué isso? – perguntou a “fofa”.
Confesso que minha vontade foi responder “Um livro. Para você, deve ser algo muito raro de se ver. Quer tocar?”. Mas fui fina e apenas virei a capa para que ela visse. Me arrependi.
– Pô, tu num tá velha demais pra ler isso não?
– Qual livro você está lendo? – respondi diretamente, tentando controlar todas as outras respostas sarcásticas que me vieram à cabeça. Afinal, ela não entenderia e isso me deixaria ainda mais irritada.
Sabe qual foi a resposta da criatura? Um título de autoajuda! Quando soltei o nome da categoria do livro, ela ficou zangada e disse que não lia só autoajuda. Adorava livros psicografados também.
Quase explodi em fogos de artifício bem ali, no meio do restaurante! Eu sou velha demais para ler romances juvenis, mas não ter autoestima ou me amarrar em ouvir contos do além não tem problema, né? O ódio era muito, mas lembrei que sou fina (mesmo querendo esquecer) e apenas consenti. Em seguida, voltei ao que estava fazendo e continuei a leitura e o almoço, só que agora mais rápido para evitar que ela puxasse o assunto novamente.
Depois, em casa, enquanto terminava o livro, pensei sobre o que aconteceu e fiquei com mais raiva ainda. Ela não tinha o direito de me julgar pelo livro que eu estava lendo, mas eu também não tinha o direito de fazer o mesmo com ela. Lembrei de quando li “O Segredo” e “Violetas na Janela”. O primeiro veio em tempos que estava, sim, me sentindo para baixo. Já o segundo, li imediatamente após o falecimento da minha avó paterna. Em ambos os casos, esses livros me ajudaram demais e, por mais que não procure mais obras desses gêneros, me foram úteis quando precisei. O mesmo acontece com a literatura jovem adulta: pra mim, esses livros são como uma visita à minha adolescência, que eu amei (e que já comentei por aqui). Também amo romances sobrenaturais, porque juntm essa nostalgia com um toque sombrio que eu também adoro. E a lista continua ...
Todo livro que leio é uma escolha consciente minha, feita para amparar o momento que estou vivendo. Às vezes quero sentir frio na barriga com um romance meloso entre um vampiro e uma menina mortal; em outro momento, quero voar nas costas de um hipogrifo e acreditar que a amizade e a lealdade salvam o mundo; em outros, ainda, quero esquecer dos apuros da vida real e pular de susto ao ler sobre criaturas que esperam o anoitecer para assombrar os vivos.
Leio um pouco de tudo não só por ser culta, porque está na moda, porque quero, porque preciso, porque é o certo a fazer, mas por todas essas razões juntas e muitas outras. E não quero ser julgada ou definida por nenhuma delas. Julgar o que eu leio é o mesmo do que julgar um livro pela capa: você não sabe o que tem dentro, o que o fará virar as páginas, ou não. Quem nunca comprou um livro – ou pensou em comprar – apenas pela capa? Se você está pensando “Eu fiz isso”, não está sozinha. Mas você já descartou um livro pelo mesmo motivo? E uma pessoa? Acho que temos que prestar mais atenção às sinopses e arriscar mais, mesmo quando o exterior não aparente ser tão convidativo. Nossa ... chega! Tô parecendo livro de autoajuda. J