26 de fev. de 2016

Papos de Sexta: O Meu Indicado do Oscar



Lembro bem como foi. Era horário de almoço, vários problemas esperando solução no trabalho, e eu resolvi sair uns 10 minutos antes para almoçar. 2012, mas não lembro o mês exato. Passando pela famosa Cinelândia — centro do Rio — rolava a feirinha de livros que acontece ali de tempos em tempos. Parei na minha barraca preferida, onde conhecia todos: a da Record. Entre centenas de livros superbaratos — coisa de 5 a 10 reais — eu o vi, peguei, li a sinopse e uma senhora do meu lado disse para eu levar que eu iria amar. Foi o que fiz. Na volta para casa naquele mesmo dia, o metrô demorando, a plataforma cheia, sentei no banco para aguardar um trem mais vazio, e então, com o livro ali, eu o abri. Comecei a ler e acho que cheguei pelo menos na página 50, quando me dei conta de que o trem não estava mais cheio e de que eu poderia ter embarcado. Na verdade, minha viagem tinha iniciado fora do vagão, Emma Donaghue, uma até então desconhecida autora me tocou na primeira página, eu precisar terminar aquele livro, o que de fato era o tal do Quarto? O que era a vida de Jack e de sua mãe?

Terminei o livro horas depois, de madrugada, postei em todas as redes sociais o quanto estava encantada, como uma criança protagonista de uma história, ao mesmo tempo tão forte e tão ingênua, tanto da parte da mãe quanto da do menino, me ganhara. Sempre que podia, recomendava o livro, mas poucas pessoas o tinham lido, pelo menos as que eu conhecia. Optei por conversar com pessoas no blog e com outros que tinham feito a resenha no Skoob, e vi o quanto o livro e as palavras da autora nos deixavam desconcertados.

Em 2013 ela veio ao Brasil, para Bienal do livro do Rio, na mesma hora que ela estaria autografando eu apresentaria um evento, um único dia, e eu não conseguiria vê-la. Pedi ao marido de uma amiga para pegar meu autógrafo, pelo menos assim ficaria menos triste. No final do evento que eu apresentei corri para o estande do Grupo Editorial Record e vi os cabelos ruivos de Emma lá em cima. Com a ajuda dos lindos da editora, eu a vi, falei com ela, agradeci pela história e lhe dei um abraço. Simpática, ela me agradeceu.

Esse ano, quando o filme O Quarto de Jack foi lançado nos cinemas, eu corri para ver, e já assisti duas vezes, assim como reli o livro outras três. Para mim foi maravihoso ver que tudo que imaginei virou filme; o ator que faz Jack é perfeito, parece de verdade o menino de apenas 5 anos que narra o filme. E a  mãe? Aposto que ganha o Oscar, isso porque também concorre como Melhor filme, já pensaram se ele ganha a estatueta?

O fato de ter virado filme me deixou feliz porque permitiu que mais pessoas tenham interesse pela história que eu sempre amei, mas que poucos conheciam quando eu falava. Somente esse mês mais de 20 pessoas me procuraram para falar que viram  o filme e lembraram de mim, isso não é mágico? Minha boca de urna funcionou!

Para completar, a resenha do livro em meu blog bateu todas as visualizações do mês! Fiquei extremamente satisfeita de ver como o filme angariou interesse para o livro, e em saber os detalhes sensacionais de uma história que tinha tudo para ser triste, mas, com o talento da autora, virou algo lindo e sensível, uma paixão e a demonstração de como é intenso o amor ‘entre mãe e filho.

Por favor, leiam <3 p="">

19 de fev. de 2016

Papos de Sexta: Meta literária para 2016

No dia 1º de janeiro de 2016, ocorreu o seguinte diálogo:

Pessoa aleatória que não deve ser nomeada (PAQNDSN): “E aí, qual foi o último livro que você leu em 2015?”

Eu: “Não lembro”.

PAQNDSN: “Como assim não lembra?”

Eu, franzindo a sobrancelha pelo tom usado pela kiridinha: “Não lembro, ué. Ainda estou lendo o mesmo”.

PAQNDSN: “Você virou o ano lendo o mesmo livro? Como assim? Pensei que gostasse de ler!”

Eu, não acreditando nos argumentos mucho doidos usados pelo “amoreco”: “Eu adoro ler, mas tenho uma vida além das páginas. Eu curto ler. Curto, do verbo ‘gosto por ser prazeroso’”.

E a pessoa iluminada (para não falar outra coisa) continuou achando um absurdo eu não ter tudo anotado.



Gente, sério mesmo? Tipo, desde quando precisamos prestar contas por algo que a gente ama fazer? Tipo, vocês marcaram quantos beijos deram em 2015? E não estou falando dos marcantes, estou falando de TO-DOS! Fizeram contabilidade de quantas gargalhadas soltaram? E quantos seriados e filmes assistiram?

Entendo que tem muita gente que se organiza com redes como o Skoob, por exemplo, para não se perder nos livros que tem e nas séries literárias que acompanha. Show, bacana, louvável. Mas eu não sou assim e viva a diferença, né?

É que eu não consigo entender essa “matematização” do prazer, essa “gameficação” da vida. Na minha concepção, fazer o que a gente ama é uma delícia, um escape, um momento que nos faz sentir bem. Pode ser fazer compras (aí entra contabilidade de valor gasto, mas, por exemplo, não sei quantos pares de sapato comprei esse ano!), tomar sorvete (você sabe quantos tomou em 12 meses?), sair com os amigos (se for contabilizar chopes, danou-se, né?) ou ler livros.



Entendo também que ler é um hábito e que, para ser iniciado, algumas pessoas colocam metas. Por exemplo, vou ler um livro por semana e, no final de um ano, vou verificar se a meta foi batida. Mas depois do hábito instalado, qual a razão de manter a conta? Ou pior, qual a necessidade de comparar números?

Eu leio MUITO, mas não faço ideia de quantos livros li em 2015. Para falar a verdade, tem livros que li e que nem lembrava que tinha lido, tamanha foi a pressa para acabar e falar dele no Clube. Claro que me preparei para abordá-lo no evento e tal, mas não foi uma leitura tão prazerosa e proveitosa como poderia ter sido. Ele foi só um número e não uma leitura que me impactou. E isso não é bacana. Cadê a qualidade da leitura?

Eu leio muito, mas será que não poderia estar lendo melhor? E não digo a qualidade do livro, mas do meu envolvimento com ele. Deu para eu notar as críticas colocadas nas entrelinhas pelo autor? Na correria de terminar mais um, deu para notar a mudança de ritmo na narrativa? E a razão para essa mudança?



Minha razão para essa coluna é refletir sobre a qualidade da leitura. Vi que na lista dos livros mais lidos em 2015 pelos brasileiros reinaram os de colorir e alguns sobre depressão e ansiedade. Acho que todos esses estão intimamente ligados e parte da razão de estarmos tão ansiosos é a necessidade que sentimos de estarmos constantemente competindo uns com os outros. Mas quem ganha? Quem leu mais ou quem curtiu mais cada página? Quem leu mais rápido, mais livros ou quem foi tocado pela mensagem de cada história? Na vida, quem vence: aquele que tem mais dinheiro ou que aproveita melhor o tempo? Quem tirou mais fotos da viagem ou quem curtiu mais cada lugar? Pra quê competir? Eu ainda não entendo.



Em 2016, eu não tenho uma meta de leitura. Meu objetivo é ler melhor, prestar mais atenção nos elementos de estilo ou na falta deles, entender mais as mensagens na história, a caracterização dos personagens. Quero ser uma leitora melhor.

E você? Quais seus objetivos literários para 2016? E se eles forem numéricos, tudo bem, vai. Não vou julgar. Mas só espero que você não deixe que números te definam. Você é algo além das páginas, além dos números. Não perca visão disso, ok?


12 de fev. de 2016

Papos de sexta: Saindo das sombras


Todo mundo sabe que sou fã da autora Cassandra Clare e do universo Shadowhunter criado por ela. Seus livros estão entre os meus favoritos, e Jace sempre será um dos meus amores literários.

Nem preciso dizer que estava ansiosa para assistir a série na TV, certo? Era um misto de excitação e apreensão pelo que estava por vir. Não me considero uma fã hardcore, do tipo que não tolera alterações na trama ou nos personagens (afinal, uma adaptação — tanto cinematográfica quanto televisiva — pressupõe a adequação da obra ao meio), mas torcia para que a série não tivesse o mesmo destino do filme (e ainda torço por isso).

Pois é, o episódio piloto não me impressionou. As atuações, os diálogos, os efeitos, os cortes, tudo estava off. Eu não manifestei o meu descontentamento nas redes sociais, apenas fiz um comentário ou outro nos posts de amigos, mas sempre mantendo o otimismo.

O segundo episódio também foi fraco e pensei em abandonar após o terceiro (que episódio foi aquele?!), mas eis que o quarto e o quinto episódios renovaram minha esperança na série e me inspiraram a escrever esse post.

Antes de mais nada, permitam-me posicionar quanto às reclamações dos fãs: não me incomoda o fato dos protagonistas serem mais velhos e Hodge ser mais jovem (e gato! rs), do Instituto ser high-tech e os demônios virarem papel picado incandescente, de Maureen apresentar as características de Maia e Dot substituir Madame Dorothea, de Camille ser asiática e Luke um policial. O que mais me preocupa é o tom e o ritmo da série.

A maior vantagem de uma adaptação para TV é ter mais tempo para desenvolver os personagens e a trama, mas o diretor McG e o roteirista Ed Decter parecem ter pressa para contar a história, como se precisassem cobrir logo os pontos-chave da obra de Cassandra Clare para então partir em vôo solo.

Quando o material original é de qualidade, como é o caso, ele merece ser bem aproveitado, não apenas para agradar o fandom, mas também para facilitar a vida de quem não leu os livros e quer acompanhar a série. De nada adianta correr até a melhor parte da história. O que faz essa parte ser tão boa é justamente o longo e tortuoso caminho até lá. #ficaadica

O quarto e o quinto episódios tiveram mais acertos do que erros: diálogos tirados dos livros, a introdução de Malec, menção a uma personagem querida, Jace treinando sem camisa, a invocação de um demônio maior, uma prévia de Sizzy etc. Talvez a produção tenha finalmente se dado conta do potencial que tem nas mãos, e em vez de mudar a mitologia, tenha decidido expandir o mundo das sombras.

Os atores também parecem mais à vontade do que nos primeiros episódios. Não tenho o que reclamar dos irmãos Lightwood — tanto Matthew Daddario, o Hottie com H maiúsculo que interpreta Alec, quanto Emeraude Toubi, a igualmente gata que interpreta Isabelle, estão bem nos papéis —, e Alberto Rosende é um Simon e tanto! Os demais atores podem melhorar, inclusive o núcleo adulto da série.

Eu também gostei do tom mais leve dos episódios. Harry Shum Jr, que interpreta Magnus Bane, trouxe humor para a série e, pelo Anjo, como ela estava precisando! Essa é uma série jovem do canal Freeform e não uma minissérie da HBO. Shadowhunters pode repetir o sucesso de Buffy, Supernatural, Teen Wolf, Vampire Diaries etc, basta não se levar tão a sério. #ficaoutradica

Por último, tenho que mencionar Malec. Já deu para perceber que Harry e Matthew têm mais química do que Dominic Sherwood e Katherine McNamara (mesmo que a interação entre Jace e Clary tenha melhorado nos últimos episódios) e não será surpresa se roubarem a cena do casal principal. Precisa de outro motivo para assistir a série?! rs


Na minha opinião, o maior desafio de McG e cia é tornar a série tão divertida quanto os livros. Eu não sei se é possível, mas acredito que estamos progredindo — e isso é o suficiente para dar outra chance :)

4 de fev. de 2016

Galera entre Letras: Sobre Maus Mocinhos

Acho que agora já deu tempo de todo mundo ver O Despertar da Força, né? E aí o que acharam?

Eu gostei bastante do filme --- mesmo vendo alguns problemas na segunda parte ---, curti muito os personagens jovens (tem como não se apaixonar pela Rey e pelo Finn?!) e senti a mesma emoção que tive ao ver a trilogia original (os episódios IV, V e VI).

Ah! E foi a primeira vez que eu fui ao cinema pra ver Star Wars!

Mas um dos meus personagens preferidos foi também um dos mais criticados e “polêmicos”.

Já sabem de quem eu estou falando? Exatamente! Do Kylo Ren!

Muita gente reclamou que Kylo é um vilão caricatural, mimado e que não faz jus a uma série como Star Wars, que nos legou, talvez, um dos vilões mais brilhantes do cinema: Darth Vader. Bom, eu concordo com o elogio ao Vader e, pra mim, O Retorno de Jedi é um dos melhores filmes que já vi na vida justamente pelo “embate” entre Luke e Vader. No filme é que conhecemos Vader realmente em toda a sua complexidade de vilão.

Mas nós já conhecemos Vader como vilão (posteriormente como Anakin, mas eu nunca assisti aos primeiros episódios! rs e não vou comentar sobre o que não sei) ao passo que conhecemos Kylo em processo de formação rumo à vilania.

Kylo é o filho de Leia e Han, que se rebela contra o tio, Luke Skywalker, e decide, à revelia da família, abraçar a mesma causa do avô, a quem, óbvio, ele nunca conheceu.

Fica evidente, nos gestos e nos ataques de raiva de Kylo, que ele está muito longe do autocontrole e do controle da Força – ele e Rey, que também tem a Força, mas não tem treinamento algum, estão no mesmo nível de formação, por assim dizer.

Nos próximos filmes, acho que veremos Kylo dominar a Força e se dominar, se ele quer mesmo seguir os passos de seu avô. Mas o vilão Vader tinha motivos concretos para se juntar ao lado negro da Força (a vontade de Poder nele era grande…). Ao contrário de Kylo.

Essa, talvez, seja a grande sacada do filme.

Os motivos de Kylo parecem ser os mais pueris: além de idealizar um parente que nunca conheceu, quais seriam as motivações reais de Ren, o filho (único?) de Han e Leia?

Na última conversa com Han Solo, ele diz que se envergonha do pai… Mas isso não é motivo pra vilania, certo?

Kylo é um vilão humano, demasiado humano, por assim dizer, mesmo tentando imitar o avô “mecanizado” (se Vader deixou de ser humano ao introduzir em seu corpo dispositivos mecânicos que o ajudavam a sobreviver, Kylo imita a voz mecanizada e o gestual rígido sem sucesso; é evidente o desconforto do garoto ao caminhar, e a máscara --- bem como seu sabre --- são bem toscos). De certa forma, Kylo é, sim, um vilão ridículo… porque, talvez, não seja um vilão.

Muito já se falou e especulou. A verdade é que ninguém sabe muito bem qual vai ser o futuro de Kylo. Mas eu aposto que, um pouco à maneira do que aconteceu com Darth Vader, a gente acabe torcendo um pouquinho pro lado negro da Força.


29 de jan. de 2016

Papos de sexta: O melhor trabalho do mundo!



Outro dia me espantou ver — diga-se de passagem, mais uma vez — uma blogueira no Facebook se explicando que ter blog não é só ganhar livros. O que me arrepia só de pensar é que em pleno 2016 ainda tenham pessoas que não entendam que nem todo mundo ganha grana como algumas YouTubers ou Book Tubers e nem tudo na vida só tem que ser feito quando remunerado.

Quando coloquei meu blog no ar em 2010, jamais pensei que um dia eu escreveria uma coluna para Galera Record, que apresentaria eventos lotados em livrarias entrevistando autores que admiro muito, que metade do meu Facebook fosse de blogueiros, leitores e pessoas do mercado literário, que eu tivesse tanta alegria pelo “ simples” motivo de colocar o blog no ar. Não, não é fácil mantê-lo com a correria do dia a dia. Quantas vezes pensei em desistir? Nenhuma! Eu nunca coloquei o blog no ar pensando em ganhar algo, eu o coloquei porque amo livros e filmes e queria conversar com muitas pessoas que tem essa mesma paixão. Afinal, quantas vezes me vi irritada na escola, faculdade ou no trabalho falando o nome de um escritor ou ator e todo mundo dizendo que nunca ouviram falar? O blog me fez ter amizades incríveis, interagir com pessoas que amam o que eu amo, ter contato com escritores que jamais sonhei conhecer...e isso, desculpem, não tem preço.

O que paga minhas contas é o que faço de segunda a sexta — ok, as vezes alguns sábados — e o faço com amor, porque foi a profissão que escolhi. Mas nada se compara ao que sinto quando tenho contato com livros em uma Bienal, quando apresento ou vou a eventos literários ou tardes de autógrafos. É hobby? Sim! Mas é o hobby mais incrível que eu poderia ter. Por essa razão, claro que quando a crise bateu na porta eu lamentei não ganhar grana com o blog como alguns ganham... mas jamais imaginei descontar minha frustração com o cenário do país no que sempre me fez feliz.

Se você é blogueiro — ou tem vlogueiro! — certamente está pensando: “Ih, a Raffa está floreando o mundo, não é tão maravilhoso assim!”. Mas o que na vida é 100 por cento só sorrisos? Das vezes que fiquei triste com o blog passou tão rápido que digo que mal existiram. Foi quando não fui aprovada para parceria com uma editora que queria muito — acreditem, TODOS passam por isso! —– ou quando recebi uma crítica supernegativa sobre algo que postei. O blog requer tempo, eu canso de ir dormir muito mais tarde do que devo para acordar pro trabalho dia seguinte, eu canso de abdicar de um dia inteiro com o marido saindo para terminar uma leitura ou aquela postagem superimportante. Isso quando não chegamos exaustos de alguma lugar e ele só pelo olhar já sabe que não tem cara feia... é dia de gravar vídeo pro Canal.

Meu blog me faz feliz, os amigos que tenho por causa dele nem preciso citar — aliás, já o fiz em alguma coluna no passado — mas definitivamente não o mantenho para “ganhar livros”. Claro que amo as parcerias e que fico muito feliz quando recebo livros em casa delas e/ou kits especiais que nem estão à venda! Mas meu cartão sabe que nunca parei de comprar meus livros, continuo comprando muito, continuo sangrando grana do meu “trabalho real” para continuar com os eventos do blog, e o faço com a única intenção de falarmos de livros. Não há nada melhor do que um final de semana que eu saiba que tem evento do blog. Portanto, para quem ainda acha que blogueiro só ganha livros, crie um blog, veja o como cada seguidor é uma vitória, como remunerado ou não fazemos com o mesmo afinco para ficar tudo em dia nele.


Tenho orgulho de ser blogueira, e de fazer parte dessa blogosfera literária linda que me rodeia há mais de 5 anos ;) 

28 de jan. de 2016

Galera entre letras: O que você gosta de ler?

Para a coluna de hoje, eu resolvi fazer algo diferente (e torço pra que logo, logo vire uma tradição da Galera entre Letras). Pedi ao Pedro, que tem 14 anos e sempre lê a coluna  além de ser um leitor voraz de livros de terror e de ficção histórica do Bernard Cornwell , que falasse um pouco das leituras dele nas férias e do que ele gosta de ler.

O Pedro então me mandou um pequeno texto falando sobre dois livros (e dois autores) muito importantes no gênero do terror e, em particular, do terror “cósmico” e universal: O Caso de Charles Dexter Ward e o Rei de Amarelo, escritos, respectivamente, em 1927 e 1895! (Ambos os autores estão traduzidos em várias edições diferentes.)

Vamos ver o que o Pedro tem a dizer sobre os livros?




Em 1926, ocorreu um surto no qual poetas e artistas tiveram devaneios muito similares, entre os dias 26 de março e 2 de abril.
***
Massachusetts, ano de 1928: duas famílias e um grupo de policiais desaparecem do vilarejo de Dunwich.
***
Esses são os cenários de alguns dos contos de Lovecraft. Bem-vindos ao terror moderno.

O que assombra na obra de escritores como Lovecraft ou Robert W. Chambers não é apenas a forma como flertam com o desconhecido e evocam o nosso medo por ele, mas também é a utilização de um realismo inteligente e sardônico que nos faz duvidar do que poderia ou não ser ficção.

Em O Caso de Charles Dexter Ward, podemos destacar uma citação de Borellus: “Os saes essenciais das Bestas podem ser preparados e preservados de Maneyra que seja facultado a hum Homem de Engenho conter toda a Arca de Noe […].” E, no Rei de Amarelo, o contexto decadente da época, junto com a alusão que a própria cor fazia a este dão um realismo assombroso à obra.

Quanto à engenhosidade do terror criado por esses autores, é um terror que não necessita de sanguinolência ou morte para gelar os ossos. Trata-se de um confronto com o proibido e uma reflexão do quão pequenos e frágeis somos, num universo criado bilhões de anos antes de nós, e do que poderia nos espreitar na escuridão, dentro e fora dele.

Assim, o legado deixado por esses e outros autores é a recordação de nossos temores mais humanos e instintivos. Eis aqui o verdadeiro medo.

E está lançando o desafio!

Se você tem por volta de 15 anos, está na escola, gosta de ler, que tal mandar pra mim um texto pequeno, falando dos seus autores ou das leituras preferidas?

A cada dois meses, eu vou publicar o SEU texto aqui. Pra mandar, é só me adicionar no Facebook ou eu vou dar um jeito de achar você (incluam aqui a risada maléfica).

Até e boas leituras!

22 de jan. de 2016

Papos de Sexta: Para sempre

A notícia veio sem rodeios: Alan Rickman morreu.


Sou fã dele há muitos e muitos anos e, pela nossa diferença de idade, sempre imaginei como reagiria quando a fatal notícia chegasse. Imaginei que fosse chorar e sentir meus joelhos tremerem e, em seguida, encontraria o chão em meio a lágrimas. Mas não foi isso que aconteceu.

Ao ouvir a notícia, fiz o que qualquer jornalista faria: chequei as fontes. Busquei mais veículos para verificar, afinal, nem tudo que está na internet é verdade. Mas essa infelizmente era. Era fato: a voz de Alan Rickman havia se silenciado para sempre.

Escolhi falar sobre essa perda aqui no blog porque, bem, porque ela é relacionada à força do amor que temos por personagens. Não vou ficar listando todos os personagens interpretados por Alan aqui, pois foram muitos e foram muito diferentes. Vou focar em Severo Snape porque nossa história é a que quero contar.

Eu sabia sobre Harry Potter, mas não tinha lido os livros ainda. Descobri a magia das páginas durante o hiato entre o gancho de “Cálice de Fogo” e a expectativa por “A Ordem da Fênix”. Mas o que me fez mergulhar nas páginas foi a explosão de sentimentos que o primeiro filme me proporcionou. Eu nunca fui fã de fantasia e apenas admirava o trabalho autoral desse gênero. Mas depois de assistir a “Harry Potter e a Pedra Filosofal”, precisava saber mais sobre aqueles personagens. E principalmente sobre o misterioso e rabugento Mestre de Poções, interpretado por Alan “voz de veludo” Rickman.

Como fã do ator, me apaixonei ainda mais pelo personagem e mergulhei no fandom potteriano de cabeça. Harry Potter me trouxe uma lista de “primeiras vezes”: a primeira saga literária que acompanhei; o primeiro evento literário que apresentei (e me colocou nessa vida); o primeiro fórum e lista de discussão que integrei; as primeiras fanfictions que escrevi. Isso sem contar nos amigos que fiz e nas aventuras que vivi!

Mas será que se o personagem fosse interpretado por outro ator teria me despertado a curiosidade? Talvez não. Talvez chegasse a Potter mais tarde. A única certeza que tenho é que foi a interpretação de Alan Rickman que me levou às páginas.

Engraçado como isso acontece, né? Como os atores fazem esse link entre o nosso mundo, de carne e osso, e o Mundo das Ideias, onde vivem os personagens. Eles são como médiuns, que interpretam o que está na página e dão vida ao intangível.

Quando li a morte de Snape no livro, chorei muito. Sabia que ele não sobreviveria ao final da saga e, a cada livro, suspirava e pensava “Ufa! Desse ele passou!”. Mas sabia que viria a sofrer com a morte dele como os fãs de Sirius sofreram sua perda e tantas outras que Rowling nos fez passar. E as lágrimas vieram com intensidade e meu coração se quebrou e eu queria abraçar o personagem enquanto seus últimos suspiros deixavam seu corpo. E eu quis abraçar Alan Rickman porque, ao ver a cena no cinema, as lágrimas e o sentimento de perda voltaram.

Mas com a notícia fria nos jornais, as lágrimas não vieram. A perda estava lá e a tristeza também, mas não chorei. Não o conhecia pessoalmente, não integrava sua família ou seu círculo de amizades então como poderia sentir falta dele dessa forma? Isso faz de mim uma fã de meia tigela? Não. Entendi que a minha ligação era com a ideia que Rickman tornava real e não com ele em si.

A perda de Alan Rickman quebrou meu coração, sim, mas ele me deixou uma legião de amigos que, ao receberem a notícia, me mandaram mensagens de apoio, abraços reais e virtuais e vários “você tá bem?”. E esse é o legado imortal que ele deixou para mim e para todos que foram tocados por sua arte. O sentimento que acordou em nós nos uniu. Não importa a Casa de Hogwarts ou se concordávamos ou não com o que Snape fez na série: estamos juntos nessa perda como estávamos quando cada personagem nos deixou.

Prova disso está nas fotos abaixo. Os fãs que estavam no parque Islands of Adventure, em Orlando, no dia do falecimento, fizeram uma homenagem a Alan Rickman, erguendo suas varinhas em direção ao castelo de Hogwarts (mesmo gesto que os alunos fazem após o falecimento de Dumbledore). E, no brinquedo, alguns fãs também deixaram flores na porta de Snape e uma dessas flores era um lírio (quem leu HP sabe do que estou falando). E foi aqui que eu chorei.



Crédito: Buzzfeed

Em um momento de virada na saga, Harry pergunta para Dumbledore, “Isso é real ou está acontecendo dentro da minha cabeça?”. E o sábio bruxo responde algo como “Claro que está acontecendo dentro da sua cabeça, Harry. Mas isso não significa que não seja real”.

Podia ser a descrição de tudo que sentimos ao ler um livro, ao sofrer com ele, ao nos apaixonar por um personagem. Acontece na nossa cabeça, no nosso coração e, se sentimos, é real. Para sempre.




21 de jan. de 2016

Tons da Galera: Award Season

Parece que foi ontem que falamos disso, mas mais uma vez a temporada de premiações em Hollywood está aí e as escolhas das estrelas na hora de se vestir estão tendo, como sempre, destaque pelo mundo nos dias seguintes aos eventos. Quase uma confirmação da temporada passada e um preview da próxima, que começa no final deste mês em Paris, os stylists das estrelas esse ano não foram muito ousados e criativos, o que não quer dizer que faltou beleza e bom gosto.

Vimos muitas repetições, mas feitas de maneiras diferentes. A começar pelos recortes, vistos em Jennifer Lawrence de Dior, Julianne Moore de Tom Ford e Brie Larson de Calvin Klein no Globo de Ouro.


Recortes inusitados em lugares inesperados

Outro destaque foram as capas, curtas ou compridas, desde a apresentadora do canal E! Giulianna Rancic, Taraji P. Henson num tomara que caia branco, Cate Blanchett e Jennifer Lopez de amarelo no Globo de Ouro, parece que é a vez das super heroínas no tapete vermelho.


Mulheres Maravilhosas e suas capas

Fendas vertiginosas também apareceram aos montes, como no vestido de Olivia Wilde, Kirsten Dunst e Rosie Huntington-Whitely de Dior preto (cor muito vista também) no Critics Choice Awards.


Fendas e pretinhos nada básicos para todos os gostos em Liv Tyler, Kirsten Dunst, Rosie Huntington-Whiteley e Bryce Dallas Howard


Em breve teremos mais looks do Screen Actors Guild, Directors Guild e do aguardadíssimo Academy Awards. Vamos esperar mais surpresas boas (alô tio Oscar, já está na hora do Leonardo di Caprio ganhar uma estátua dourada para chamar de sua, não é não?) dentro e fora dos tapetes vermelhos!

14 de jan. de 2016

Design et cetera: Diferentona



Esses dias eu morri de rir com os memes da Diferentona:

“Só eu que já conhecia esse livro antes de todo mundo?”

Só você.
Única.
Pioneira.
Floco de Neve.
Etc.

O meme é engraçado porque na maioria das vezes, ninguém é tão original, inédito e descobridor quanto pensa, né. Bem, quase ninguém, porque talvez a Editora Record seja uma exceção. Não importa quantos anos você tem e nem qual seu estilo literário favorito. Se você existe, se você tá vivo e se você é brasileiro, os livros da Record fizeram parte da sua história e da sua memória afetiva.

Com mais de 70 anos no mercado editorial, a Record foi a primeira grande editora brasileira dedicada aos best-sellers de entretenimento para a massa. Se foi hit, se foi blockbuster, a gente publicou. E temos as capas mais retro-horrorosas para provar, quer ver?





Eu cresci com essa coleção infantil. A pequena vendedora de fósforos foi o primeiro livro que “mudou minha vida”. Eu tinha 3 anos e ficava inconsolável quando a vendedora de fósforos morria no final (oops, spoiler). Chorava por horas com pena da menina. Não dormia. Pedia para minha mãe reler a história e ela, coitada, mudava o final para ver se eu me consolava.

Outro clássico que habitou minha infância foi Tintin. Eu nem lembrava que as edições brasileiras eram da Record. Olha que tesouro!


TINTIN S2



STAR WARS S2

A LONG LONG TIME AGO

A gente já publicava antes de vocês.

Diferentona
Colonizadora
Pré-histórica 
Bandeirante 
Avant-garde
Descobridora 
Pioneira 
Única 


 TUBARÃO
O filme não é da minha época, mas muito antes de eu ter medo de encontrar um tubarão na piscina e morrer amputada, a Record já disseminava esse medo nas gerações passadas. Isso que é tradição.


EBOLA

E falando em medo, muito antes desse último surto de Ebola, a gente já aproveitava o gancho do surgimento da epidemia nos anos 70 para lançar esse documentário. Eu, como boa hipocondríaca obcecada por doenças letais, já estou querendo ler e já estou sentindo a manifestação dos primeiros sintomas do Ebola. Socorro.


A ESCOLHA DE SOFIA

Como não lembrar desse clássico que nos desidratou de tanto chorar?  Mais trágica que a história da Sofia, no entanto, é esse layout. Mas a gente perdoa, afinal, ser histórico é abraçar o brega.


SILÊNCIO DOS INOCENTES

Esse livro, gente. Não tenho nem palavras, estou tipo essa moça com a mariposa na boca: incapaz de falar. Eu li quando era adolescente e ficava tão aterrorizada de noite que escondia o livro na gaveta da cabeceira. Mesmo assim, inexplicavelmente, sempre tive um crush enorme no Hannibal Lecter. Meu sonho era ser comida por ele, literalmente.

E vocês? Qual livro jurássico e diferentão da Record marcou sua vida?


7 de jan. de 2016

Galera entre letras: Desafios Literários!



A primeira coluna de 2016 não poderia vir num dia mais propício, afinal, hoje é o dia do leitor!

FELIZ DIA DO LEITOR PRA TODOS NÓS!

Eu fiquei pensando durante a semana sobre o que gostaria de escrever num dia tão especial (e assunto é o que não falta pra gente na Galera entre Letras! rs) e resolvi que a melhor maneira de comemorar o dia de hoje é… lendo mais ainda em 2016! rs

E que tal se essa leitura for feita com outras pessoas e você puder discutir, trocar ideias ou mesmo reler com outros olhos as histórias que já leu?

Mas calma que eu já conto como tudo começou…

Uma amiga me chamou pra participar de um desafio literário bem legal — 12 meses de Poe. A proposta é ler todo mês um conto de Edgar Allan Poe e trocar ideias sobre os contos lidos. Eu adorei a ideia e estou acompanhando o desafio, que tem até página no Facebook.

Claro que o desafio não precisa se limitar aos contos do Poe, e também não precisa ser coletivo nem precisa de página nas redes sociais. Você pode convidar um colega, vizinho, irmão, pai, mãe ou pode seguir o desafio sozinho mesmo. E também não precisa seguir à risca a lista de textos (quem nunca mudou de ideia, não é?!). O importante é tirar um tempinho pra você reler algo de que gosta ou, quem sabe, um autor ou texto que nunca tenha lido.

E tudo bem se a sua biblioteca pessoal não é assim tão grande ou se você não tem uma biblioteca pública por perto (tem muitas espalhadas pelo Brasil e todas elas costumam ter salas de leitura ou emprestam os livros pra você levar pra casa por um prazo determinado — só não esqueça de devolver!). Tem algumas bibliotecas virtuais que permitem que você faça downloads LEGAIS de livros (porque livro pirateado não vale, né?).

Em geral, costumam ser obras clássicas, de autores em domínio público. Se você não lembra ou ainda não sabe o que são “obras em domínio público”, dá uma lida na matemática dos autores aqui.

Uma boa biblioteca de obras em domínio público (em português, inglês e espanhol) é o Portal Domínio Público. Dá pra baixar várias obras, inclusive, as de Edgar Allan Poe (infelizmente não tem nada em português, mas tem os textos originais em inglês e traduções para o espanhol). E aqui vocês encontram a tradução do Machado de Assis para um dos poemas mais conhecidos do Poe — O Corvo.

E no Project Gutenberg também tem uma “prateleira” com livros em português.

Uma biblioteca pouco conhecida de textos em língua inglesa, mas que eu adoro, é a eBooks@Adelaide.

E já que eu falava de “obras em domínio público”... na Austrália as obras caem em domínio público 50 anos após a morte do autor (ao contrário da maioria dos países, inclusive do Brasil, onde esse período é de 70 anos), então, dá pra ler muita coisa nas bibliotecas virtuais australianas que ainda não estão disponíveis nas outras — dá pra baixar também, mas você não pode publicar porque aí estaria infringindo o copyright (o direito autoral). Eu sei que é complicadinho, então, melhor só ler mesmo rs

Aqui tem o link do Project Gutenberg Australia.

Ufa! Leitura é que não vai faltar em 2016!

O meu desafio literário pessoal vai ser reler alguns contos do Conan Doyle (já deu pra perceber que um dos meus personagens favoritos é Sherlock Holmes, né? Já até falei da série nova aqui.

O conto do mês de janeiro é um dos meus preferidos, nem sei quantas vezes já li: A Scandal in Bohemia [Um Escândalo na Boêmia]. Depois falo mais sobre o desafio sherlockiano!

Espero que vocês se divirtam com o desafio literário. E quem quiser pode postar como será o seu desafio pra 2016!

Boas leituras e até!






4 de jan. de 2016

Tons da Galera: Tudo novo — ou quase.

Ano Novo, armário novo! Ou não. Em tempos de crise, pelo menos ainda podemos sonhar. Nas últimas semanas, os principais sites e especialistas em moda como The Zoe Report e Who What Wear fizeram apanhados do que promete entrar no seu armário ou ao menos na listinha de objetos do desejo de 2016.

O clima anos 1970 e 1990 (não juntos) continua imperando. Do  jeans de cintura alta e flare, abrindo na barra (guarde o boyfriend por enquanto), aos óculos retrô enormes (aposente os espelhados), os anos 1970 continuam presentes, mas um pouco menos onipresentes. Depois da enxurrada de camurça e caramelo (e camurça caramelo) que andamos vendo, esse ano trará um perfume mais Disco 70s do que pós-Woodstock 70s.

Migrando desse 70s show para os anos 1990, as estampas psicodélicas dão lugar a metalizados nas roupas e esmaltes, vestidos camisola acetinados e echarpes finas, amarradas como Gigi Hadid e Lily Rose, filha de Johnny Depp, costumam usar. As bochechas são bem coradas de blush (chega de excessos de contouring!), o delineado pode ser azul turquesa, e os lábios continuam mattes em tons amarronzados, à la Kylie Jenner, com uma participação especial do bom e velho vermelho-tomate.

Previsões do oráculo Rachel Zoe: Jeans alto flare, vestidos camisola, metálicos, óculos gigantes, bolsas brancas e maxi brincos.

As bolsas são de tamanho médio e brancas (deixe as color block descansado um tempo no armário), e os brincos continuam enooooormes, passando dos ombros. Nos pés: Tênis tênis tênis. O sneaker, ou bom e velho tênis, continua sendo a estrela da vez, geralmente branco, e muito, muito confortável. Porque sofrer pela moda é coisa do passado, e o ano é novo!


Queridinhos da vez — tênis, batom da Kylie Jenner (esgotado em horas), unhas metalizadas e Lily Rose e sua echarpes fininhas.

25 de dez. de 2015

Papos de Sexta: Toda Forma de Amor é Linda



A gente sempre diz que não tem preconceito. Mas assumo que durante muito tempo o tive e o carreguei comigo por não entender, por achar que era errado. Mas quem mesmo diz o que é certo? Nossos pais? A religião em que somos criados? Sou de uma época onde a internet não era algo tão comum na adolescência; sim, ela já existia, mas não fazia parte da vida de todos nós.  Sendo assim, a gente sabia o que vivia, o que lia na revista, o que via na TV... e tudo que se falava de homossexuais parecia errado, o mundo não aceitava (e sei que muitos ainda torcem o nariz até hoje).

Em casa também não tínhamos o hábito de discutir sobre isso, então toda vez que alguém vinha com o assunto eu pensava que não era a favor, mas não abria a boca. Gente, mas do que eu tinha que ser a favor? É isso que eu não entendia e que as pessoas não entendem...até onde a opção sexual de alguém interfere na sua vida? Não devo me meter. Sei disso hoje, mas demorei um certo tempo para descobrir.

Não vou citar nomes, mas foi quando ouvi da boca de uma amiga, que amo muito, que ela gostava de meninas que acordei para o tema. À primeira vista, pensei que ela estava brincando, depois vi que era verdade quando me apresentou à namorada. E foi exatamente o convívio com ela que me fez perceber o quão pouca informação eu tinha a respeito e o quão preconceituosa eu era. E não se enganem,  o preconceito não é somente o que você coloca para fora em palavras e gestos...ele mora em você; e, por comodismo ou outro motivo, você não se interessa em saber porque ele existe.

É tão estranho pensar na pessoa que fui e na que sou hoje em dia. Eu pude ver no rosto da minha amiga a felicidade de poder dizer a todos de quem ela gostava... o parar de se esconder foi libertador e a aceitação de quem ela amava – e isso me incluía – foi fundamental nessa fase.

Não lembro quantos anos tem isso, exatamente, mas de lá para cá as vitórias foram muitas nesse assunto. Claro que ainda há diversas batalhas a serem vencidas, mas o número de amigos e amigas que gostam do mesmo sexo só aumentou, e isso só me faz ver o quanto isso sempre existiu, mas a vida não deixava eles serem quem são.

Por abraçar o tema, e compreendê-lo e não aceitar de nenhuma forma que meus amigos se magoem com pessoas que acham que tem o direito de interferir em suas vidas, eu me encantei com os livros de David Levithan. Já tinha lido Nick & Norah e amado, mas aqui entre nós, os livros dele com a temática LGBT são sensacionais. Sempre recomendo a todos, aos que já entenderam que vencer o preconceito depende de nós. Quem ama de verdade quer ver o outro feliz, seja ele da sua família ou seu amigo.

Se você se sente como eu me sentia antes da minha amiga revelar “seu segredo”, acorde, nunca é tarde demais para mudar de lado, e os do bem, aqueles que aceitam os outros como eles são, sempre têm lugar para mais um.


Leia Will & Will, suspire com Garoto encontra Garoto, mergulhe de cabeça em Dois garotos se beijando...o resultado com certeza vai ser único. Não tem como não amar Levithan, muito menos como entrar 2016 sendo tão 1916 ;) 

18 de dez. de 2015

Papos de Sexta: 365 dias e milhares de páginas

Essa é a minha última coluna do ano e escolher o tema foi difícil.

Pensei em escrever sobre o aniversário de Jane Austen e como ela influenciou tantos autores de gerações futuras e continua a fazer isso até hoje. Mas deixei para uma próxima vez.



Pensei, em seguida, em abordar Guerra nas Estrelas e como estamos prontos para assistir a um novo filme, rezando para que ele resgate o arrepio que a trilogia clássica nos trouxe e ignore a tristeza de foi a trilogia mais nova. Mas achei melhor viver a experiência antes de escrever sobre ela.

Aí fui para o lado polêmica e pensei em fazer mais uma coluna sobre comportamento (ou a falta do mesmo) em redes sociais, tema que curto debater, inclusive por aqui. Mas achei melhor esperar para uma data menos simbólica.

E aí fiquei sem tema...  E essa falta de tema me fez pensar no ano inteirinho e como ele foi repleto de altos e baixos para todos nós.

Como brasileiros, nossa paciência com corrupção e injustiça está no fim. Buscamos justiça, mas parece que o mar de lama nos engole a cada braçada.

Por falar em lama, ela clamou vidas esse ano e a revolta fica ainda maior ao notarmos que, tentar corrigir um dos piores desastres ambientais do país parece não ser prioridade para quem o causou.

Em 2015, vimos pessoas utilizarem a beleza da fé para tentar justificar massacres.

Em 2015, vimos muita coisa ruim e revoltante nos noticiários, mas também vimos – dentro e fora da mídia – compaixão, felicidade, amor.

Como todos os anos, 2015 foi um ano complexo, de uma forma ou de outra, para todos nós. E o interessante é que, em todos esses dias, fossem eles bons ou não tão bons, tivemos uma constante: os livros.

O dia estava ruim? É só a gente se perder nas páginas do novo volume dos diários de uma certa princesa e pronto! Sorriso garantido.

O dia estava bom? Então podemos compartilhar esse sentimento com aventuras vividas em mundos fantasiosos onde o trono é de vidro e a situação é mais tensa.

Frustração, tristeza, contentamento, felicidade, angústia, e tantos outros sentimentos que nos faz humanos podem ser compartilhados entre nós e elas, as páginas.  

Então, na minha última coluna de 2015, agradeço aos autores por nos manter firmes em nossas jornadas individuais. Vocês podem estar apenas contando uma história, mas para nós, vocês fazem muito mais. Mesmo sem saber, vocês nos mantém fortes e corajosos; sensíveis e apaixonados; completos.



Que à meia-noite de 31 de dezembro de 2015, quando as doze badaladas anunciarem o novo ano, possamos olhar para trás com a certeza de que fizemos o nosso melhor. E que tenhamos a certeza em nosso coração de que os próximos 365 dias serão ainda mais incríveis. Obrigada pela leitura durante esse ano e que venha mais um!

Feliz Natal e um 2016 repleto de páginas para todos nós!

  

17 de dez. de 2015

Galera entre letras: O presente dos Magos

Na coluna de Natal do ano passado [aqui], eu já tinha citado “O Presente dos Magos” como um dos contos mais importantes que têm como tema o Natal. Hoje resolvi arriscar uma tradução e postá-la aqui, junto com meus votos de boas festas e um 2016 com muitas leituras pra todos nós! A.R.

O Presente dos Magos, de O. Henry*

Um dólar e 87 centavos. Era tudo. Sessenta moedinhas de um centavo. Moedinhas economizadas de duas em duas, às vezes, ao intimidar o dono da mercearia, o verdureiro e o açougueiro até as bochechas de um deles arderem com a acusação de parcimônia que tal negócio íntimo implicava. Três vezes Della contou. Um dólar e 87 centavos. E o Natal era no dia seguinte.

Era evidente que nada se podia fazer, além de desabar no pequeno sofá velho e chorar. E foi o que Della fez. O que provoca a reflexão moral de que a vida é feita de soluços, fungadas e sorrisos, com o predomínio de fungadas.

Enquanto a dona da casa está, aos poucos, passando do primeiro para o segundo estágio, deem uma olhada na casa. Um apartamento mobiliado a oito dólares por semana. Não é que faltassem palavras para descrevê-lo, mas certamente a palavra falta se destacava na observação para o esquadrão da pobreza.

No vestíbulo abaixo, havia uma caixa de correio na qual carta alguma entrava, e um botão elétrico, do qual nenhum dedo mortal poderia obter um som. Além disso, próximo a ela via-se um cartão com o nome “Sr. James Dilingham Young”.

O “Dilingham” fora lançado à brisa durante uma época anterior de prosperidade, quando o nomeado recebia trinta dólares semanais. Agora que a receita encolhera para vinte dólares, eles pensavam seriamente em abreviá-lo para um modesto e despretensioso D. Mas sempre que o Sr. James Dillingham Young voltava para casa e pisava em seu apartamento no andar de cima, era chamado “Jim”, e recebia um grande abraço da sra. James Dillingham Young, já apresentada a vocês como Della. O que é muito bom.

Della parou de chorar e cobriu suas bochechas com o pó facial. Ela estava parada perto da janela e fitava, indiferente, um gato cinzento que caminhava sobre uma cerca cinzenta num quintal cinzento. Amanhã era dia de Natal, e ela tinha apenas um dólar e 87 centavos para comprar um presente para Jim. Andara economizando cada centavo que podia durante meses, e este era o resultado. Vinte dólares por semana não davam para muita coisa. As despesas foram maiores do que ela havia calculado. Sempre são. Somente um dólar e 87 centavos para comprar um presente para Jim. Ela havia passado muitas horas felizes planejando comprar alguma coisa bonita. Algo belo, raro e de boa qualidade ― alguma coisa só um pouquinho digna da honra de pertencer a Jim.

Havia um imenso espelho decorado entre as janelas do cômodo. Talvez você tivesse visto um espelho desses num apartamento de oito dólares. Uma pessoa muito magra e ágil, ao observar o reflexo numa rápida sequência de faixas longitudinais, obtinha uma visão bastante precisa de sua aparência. Della, por ser esguia, tinha dominado a arte.

Subitamente ela girou e se afastou da janela, postando-se diante do espelho. Seus olhos brilhavam, mas o rosto perdeu a cor vinte segundos depois. Rapidamente ela soltou o cabelo e o deixou cair em todo seu comprimento.

Dois eram os bens do casal James Dillingham Young dos quais ambos se orgulhavam tremendamente. Um era o relógio de ouro de Jim, que havia pertencido ao pai e ao avô. O outro eram os cabelos de Della. Se a rainha de Sabá vivesse no apartamento do outro lado do duto de ventilação, Della botaria cabelos para fora da janela para secar apenas para humilhar as joias e presentes de Sua Majestade. Se o rei Salomão fosse o zelador, com todos os seus tesouros empilhados no sótão, sempre que Jim passasse por ele sacaria o relógio, apenas para ver o outro cofiar a barba com inveja.

Então agora os lindos cabelos de Della desciam como cascatas, onduladas e reluzentes, de águas castanhas. O cabelo alcançava até debaixo de seu joelho e quase se tornava uma peça de roupa para ela. Em seguida, ela o prendeu de novo, rápida e nervosamente. Ela hesitou por um instante e ficou parada enquanto uma lágrima e outra pingavam no tapete vermelho surrado.

Ela vestiu o velho casaco marrom; botou na cabeça o velho chapéu marrom. Com um giro das saias e a centelha brilhante nos olhos, passou rapidamente pela porta e desceu os degraus que davam para a rua.

Parou onde a placa dizia: “Mme. Sofronie. Cabelos de Todos os Tipos”. Della subiu correndo um degrau e se recompôs enquanto arfava. Madame, gorda, muito branca, antipática, nem parecia a “Sofronie”**.

― A senhora quer comprar o meu cabelo? ― perguntou Della.

― Eu compro cabelo ― respondeu Madame. ― Tire seu chapéu e vamos dar uma olhada nele.

A cascata castanha desceu em ondas.

― Vinte dólares ― falou Madame, erguendo a massa com mão treinada.

― Me dê rápido então ― retrucou Della.

Ah, e as duas horas seguintes voaram em asas cor-de-rosa. Esqueçam a metáfora confusa. Della estava revirando as lojas atrás do presente de Jim.

E finalmente ela encontrou. Sem dúvida, tinha sido feito para Jim e mais ninguém. Não havia outro presente como este em loja alguma, e ela tinha revirado todas. Era uma corrente de platina para relógio de bolso com um desenho simples e austero, que de modo adequado somente proclamava seu valor pela substância e não pela ornamentação vulgar ― como todas as coisas boas deveriam fazer. Era digna até do Relógio. Assim que a viu, soube que deveria pertencer a Jim. Era como ele. Austeridade e valor ― a descrição se aplicava aos dois. Tiraram dela 21 dólares, e ela se apressou para casa com 87 centavos. Com aquela corrente no relógio Jim poderia parecer adequadamente preocupado com as horas junto a qualquer companhia. Por mais grandioso que o relógio fosse, algumas vezes Jim olhava para ele disfarçadamente por causa da tira de couro velha que usava no lugar de uma corrente.

Quando Della chegou em casa, a agitação deu lugar à prudência e à razão. Ela pegou o ferro de cachear, acendeu o gás e se pôs a trabalhar para reparar a destruição feita pela generosidade somada ao amor. O que sempre é uma tarefa tremenda, caros amigos ― uma tarefa gigantesca. 

Quarenta minutos depois, sua cabeça estava coberta com cachos minúsculos, bem rentes à cabeça, que faziam com que ela se parecesse graciosamente com um garotinho preguiçoso. Ela fitou longa, cuidadosa e criticamente o reflexo no espelho.

― Se Jim não me matar ― falou para si mesma ― antes que olhe para mim uma segunda vez, ele vai dizer que pareço com uma corista de Coney Island. Mas o que eu poderia ― Oh! O que eu poderia fazer com um dólar e 87 centavos?

Às sete horas, o café fora passado e a caçarola estava no fundo do fogão quente, pronta para preparar os bifes.

Jim nunca se atrasava. Della dobrou a corrente na mão e se sentou no canto da mesa perto da porta pela qual ele sempre entrava. Então ela ouviu seus passos no degrau do primeiro lance, e empalideceu por apenas um momento. Ela tinha o hábito de rezar uma oração curta e silenciosa sobre as coisas simples do dia a dia e agora murmurou:

― Por favor, meu Deus, fazei com que ele ainda me ache bonita.

A porta se abriu e Jim entrou e a fechou. Ele aparentava magreza e muita seriedade. Coitado, apenas 22 anos e o fardo de uma família! Precisava de um sobretudo novo e não calçava luvas. 
Jim parou no lado de dentro da porta, tão imóvel quanto um cão de caça ao sentir o cheiro da codorna. Seus olhos se fixaram em Della; neles via-se uma expressão que ela não podia interpretar, e isso a apavorou. Não era raiva, não era surpresa nem desaprovação, também não era horror ou qualquer sentimento para o qual ela estivesse preparada. Ele simplesmente a encarou com aquela expressão peculiar no rosto. 

Della circundou a mesa e foi até o marido.

― Jim, querido ― gritou ela ―, não me olhe assim! Eu cortei e vendi meu cabelo porque não podia passar o Natal sem lhe dar um presente. Vai crescer de novo... Você não vai se importar, não é? Eu simplesmente tinha que fazer isso. Meu cabelo cresce ridiculamente rápido. Diga “Feliz Natal!”, Jim, e vamos ficar contentes. Você não sabe que adorável… que belo e adorável presente eu comprei para você.

― Você cortou seu cabelo? ― indagou Jim, com dificuldade, como se não ainda tivesse assimilado o fato evidente apesar do tremendo esforço mental.

― Cortei e vendi ― falou Della. ― Mas você gosta de mim do mesmo jeito, não é? Ainda sou eu sem o cabelo, não sou?

Jim olhou ao redor do cômodo com curiosidade.

― Você está dizendo que seu cabelo se foi? ― falou, com um ar de idiotia.

― Você não precisa procurar ― falou Della. ― Eu vendi, já disse… vendi e ele se foi também. É véspera de Natal, homem. Seja bonzinho comigo porque ele se foi por sua causa. Talvez os fios na minha cabeça tenham sido contados ― emendou ela com uma doçura subitamente séria ―, mas ninguém já contou meu amor por você. Será que eu devo servir os bifes, Jim?

Saindo do transe, Jim pareceu acordar rapidamente. E abraçou Della. Durante dez segundos, vamos examinar com discreta observação algum objeto sem importância em outra direção. Oito dólares por semana ou um milhão por ano… Qual é a diferença? Um matemático ou um sábio responderiam incorretamente. Os magos trouxeram presentes valiosos, mas isso não estava entre eles. Essa observação sombria será iluminada adiante.

Jim tirou um pacote do bolso do sobretudo e jogou-o sobre a mesa.

― Não se engane, Dell ― falou ele ― a meu respeito. Não acho que haja alguma coisa, seja um corte de cabelo, raspar a cabeça ou um xampu, que pudessem me fazer gostar menos de você. Mas se você abrir o pacote pode ver, para começo de conversa, por que fiquei fora algum tempo. 

Dedos brancos e ágeis rasgaram o cordão e o papel. Ouviu-se um grito extasiado de alegria; e então, que infelicidade! uma rápida mudança para lágrimas e gemidos histéricos, que necessitavam imediatamente de todos os poderes do homem da casa para acalmá-los.

Pois lá estavam Os Pentes ― o conjunto de pentes para a lateral e a parte de trás, que Della havia adorado muito tempo numa vitrine da Broadway. Belos pentes de puro casco de tartaruga, com beiradas de joia ― da exata cor para usar no belo cabelo que se foi.

Mas ela os abraçou junto ao peito, e finalmente foi capaz de erguer o olhar com olhos sombrios e um sorriso, e falou:

― Meu cabelo cresce muito rápido, Jim! 

E então Della deu um pulo feito um gatinho escaldado e gritou:

― Oh, oh!

Jim não tinha visto ainda seu belo presente. Ela o estendeu ansiosamente para o marido na palma da mão aberta.

― Não é elegante, Jim? Eu revirei toda a cidade para encontrar. Você vai ter que ver as horas cem vezes por dia agora. Me dê seu relógio. Quero ver como fica.

Em vez de obedecer, Jim desabou no sofá e pôs as mãos embaixo da nuca, sorrindo.

― Dell ― falou ele ― vamos guardar os presentes por algum tempo. Eles são bonitos demais para usarmos no momento. Eu vendi o relógio para ter dinheiro para comprar os pentes. E agora que tal você servir os bifes?

Os magos, como vocês sabem, eram homens sábios ― homens maravilhosamente sábios ― que trouxeram presentes para o bebê na manjedoura. Eles inventaram a arte de dar presentes de Natal. Por serem sábios, sem dúvida, seus presentes eram sábios, e provavelmente tinham o privilégio de serem trocados caso fossem duplicados. E aqui eu contei com certo tédio a vocês a crônica sem graça de duas crianças bobas num apartamento, que de modo nada prudente sacrificaram uma pela outra os maiores tesouros da casa. Mas numa última palavra aos sábios desses dias, que seja dito que de todos que dão presentes esses dois foram os mais sábios. De todos os que dão e recebem presentes, tais são os mais sábios. Em toda parte, eles são os mais sábios. Eles são os magos.

* Publicado em 1905, o conto é um dos mais famosos do escritor O. Henry, que não poucas vezes foi comparado a Charles Dickens
**O nome da mulher remete, em grego, à ideia de prudência e virtude.


Versão cinematográfica do conto (1952)