12 de dez de 2013

Galera entre letras: Gente como a gente

Na última coluna, eu tratei de alguns termos ou características da literatura fantástica que incluíam a “fantasia de travessia” e a “fantasia arturiana”, entre outros.

Hoje vou tratar de mais três termos: a “fantasia urbana”, o “realismo mágico” e o “gótico”.

1) A fantasia urbana

Em linhas gerais, a “fantasia urbana” é uma história que se passa numa cidade numa época diferente da medieval ou da vitoriana. Mas a cidade da fantasia urbana costuma ficar no planeta Terra mesmo, sem a existência de um “mundo secundário”. E o tamanho da cidade também não importa. Pode ser uma metrópole como Londres ou Nova York, ou ainda uma cidadezinha menor; o importante é que os protagonistas vivam numa sociedade em que vampiros, feiticeiras ou seres dotados com algum poder sobrenatural convivem com pessoas “normais”. Por descrever situações e locais familiares, a “fantasia urbana” faz bastante sucesso com os leitores. Duas das séries mais legais da Galera Record são justamente de “fantasia urbana”: Diários do Vampiro, da L. J. Smith, e Instrumentos Mortais, da Cassandra Clare.


2) O Realismo mágico

O “realismo mágico” é uma história que narra a vida cotidiana com um toque de sobrenatural. Ele não descreve “mundos secundários” nem outros elementos fantásticos, tais como estamos acostumados a ver. Também não há vampiros, feiticeiras nem outras criaturas sobrenaturais interagindo com os seres humanos. Pra mim, um dos melhores exemplos de “realismo mágico” é o livro Todo Dia, do David Levithan, que também é uma história de amor entre A e Rhiannon, e poderia ser compreendida apenas dessa maneira, se A não fosse desprovido de corpo. Quem leu, deve ter percebido isso: se não fosse o fato de trocar de corpo todos os dias, A e Rhiannon seriam mais um casal a viver um romance fofo nas páginas de um livro.


3) O gótico

O “gótico” é um dos termos mais duradouros na ficção fantástica. O primeiro livro propriamente “gótico” tinha como título The Castle of Otranto (O Castelo de Otranto) e foi escrito por Horace Walpole em 1764. O livro de Walpole incluía um castelo semidestruído, paisagens desoladas e muitas maldições, profecias e segredos ocultos, e inaugurou um tipo de ficção que foi muito popular durante o fim do século XVIII e tornou-se uma verdadeira febre não só na Inglaterra, país natal do sr. Walpole, mas em toda a Europa e nos Estados Unidos. No entanto, a febre do gótico perde força já na segunda década dos anos de 1800 e até uma autora como Jane Austen vai fazer a sua crítica ao gênero, que apresenta personagens fragilizados, à beira de um ataque de nervos.

Mas a fantasia gótica sobreviveu renovada e chegou ao século XX. Embora já não tenha elementos como castelos em ruínas, ela continua a apostar na sensação de medo dos personagens e no risco de que tenham sucumbido à loucura. Umas das características da fantasia gótica é justamente a incapacidade do leitor de chegar a uma conclusão definitiva sobre a saúde mental dos personagens da história ou sobre os acontecimentos narrados.

Um dos meus contos góticos favoritos é The Monkey’s Paw (A Pata do Macaco), de W. W. Jacobs. Ele é tão famoso nos Estados Unidos que até foi usado como inspiração para um dos episódios de Halloween de Os Simpsons, Treehouse of Horror II. Aqui tem um trechinho bem engraçado do episódio: http://www.youtube.com/watch?v=Vo8qbkTAts4

Outra fantasia gótica bem conhecida é We Have Always Lived in the Castle (Sempre Vivemos no Castelo), da Shirley Jackson, uma das minhas autoras favoritas.

O livro não foi traduzido aqui no Brasil, mas há uma edição portuguesa disponível para quem se interessar pela história, narrada por Mary Katherine “Merricat”. Merricat, de 18 anos, é considerada uma das melhores protagonistas femininas da literatura norte-americana e, no livro, ela conta a história da própria família, os três Blackwood restantes, que vivem numa casa imensa e isolada, sem contato com os moradores da aldeia próxima, e mostra como esse isolamento afetou a percepção que eles têm de si mesmos e do mundo.

Só pra atiçar a curiosidade em relação à obra da Shirley Jackson, vocês sabiam que um dos contos dela, intitulado The Lottery (A Loteria), serviu de inspiração para a série de livros sobre os Jogos Vorazes?

O conto narra um evento conhecido como “a loteria” numa pequena aldeia. Num dia ensolarado e fresco de julho, cerca de 300 aldeões se reúnem na pracinha da aldeia e torcem para que “a loteria” acabe logo e eles ainda possam almoçar antes do meio-dia... O que seria um conto sobre os costumes de uma aldeia pequena acaba se transformando numa das narrativas mais assustadoras da literatura norte-americana, na qual a causa do medo são as pessoas ditas “normais” e a vida cotidiana.


Minibio:

Ana Resende trabalha como preparadora de originais e tradutora, e é colaboradora da Galera Record, entre outras editoras. Workaholic assumida, está gostando mais de videogames e sua leitura favorita são os contos de fadas. Acredita que o príncipe encantado existe, só que se perdeu sem um GPS.


Twitter: @hoelterlein

Um comentário:

Silvana Sartori disse...

Eu simplesmente adorei a postagem e eu pretendo ler depois a minha série dos Instrumentos Mortais e Peças Infernais. Tenho toda coleçao, mas ainda preciso comprar o Princesa Mecânica pra completar. E o Diário de um vampiro, por esses dias, fiquei bem interessada em ver a série para ver se gosto e depois comprar os livros.
Eu comecei assim com Pretty Little Liars e li 6 livros seguidos. Vou acabar fazendo o mesmo (risos)

Já o livro TODO DIA, estava doida por causa dele, eu recebi de presente de amigo secreto de uma amiga, mas pretendo ler ele só ano que vem, já que agora estou com minhas leituras agendadas. Enfim...Adorei as novidades da Record. Admiro mto todas as obras e gostaria de fazer um dia parte dessa editora, principalmente dos lançamentos maravilhosos que vem pela frente =]

PARABENS !!!!

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