26 de dez de 2013

Galera entre letras: Era uma vez… um conto de Natal


Há 170 anos e, para ser mais precisa, no dia 17 de dezembro, era publicado um dos contos de Natal mais conhecidos de todos os tempos.

A Christmas Carol, de Charles Dickens, já foi traduzido, adaptado, recontado e lido milhares de vezes, e sempre que chega essa época do ano, não dá para deixar de lembrar a história do pão-duro Scrooge e de como os fantasmas do Natal Passado, Presente e Futuro mudam a vida dele e das pessoas que o cercam.

Mas se a história do Scrooge todo mundo já conhece, talvez muita gente não saiba por que Charles Dickens escreveu o conto e por que isso tem a ver com a vida de quem trabalha ou vive de livros (tradutores e autores, por exemplo).

Bom, para começo de conversa, Dickens escreveu A Christmas Carol em apenas seis semanas porque precisava de dinheiro para pagar dívidas da família grande (àquela altura, eram quatro filhos, dois meninos e duas meninas, com um quinto bebê a caminho). Mas Dickens já era um autor importante em 1843 e, no ano anterior, viajara com a esposa para os Estados Unidos a convite dos editores daquele país. Então, por que ele vivia no vermelho (para usar uma expressão conhecida hoje)?

Bom, Dickens sofria do mesmo problema que boa parte de nós ainda sofre: a falta de reconhecimento do trabalho intelectual. E não era só isso: na época, ele optou por receber uma participação nos lucros da venda do conto, na esperança de ganhar mais do que a remuneração que lhe fora oferecida. Embora A Christmas Carol tenha sido um sucesso de público e de crítica e, em maio do ano seguinte já contasse com sete edições, o livro lhe rendeu apenas 230 libras (Dickens esperava ter umas mil libras de lucro com a publicação). E ele ainda teve que lidar com edições pirateadas: o autor processou os editores que roubaram seu texto, mas no fim teve que cobrir os custos do processo, pois os editores alegaram falência e nunca lhe pagaram um centavo do que deviam.

Embora tenha se passado muito tempo de lá para cá, a situação dos autores não mudou muito e dificilmente alguém consegue ser autor nas 24 horas do dia (normalmente, é autor e tradutor ou revisor, e ainda faz apresentações, palestras, ou escreve artigos para blogs, jornais ou revistas...).

No entanto, Dickens não desistiu de faturar com um de seus trabalhos mais bem-sucedidos e dez anos depois da publicação do conto, começou a ler uma versão, adaptada por ele mesmo, para um grande público: a primeira leitura do texto reuniu duas mil pessoas em Birmingham. Na época, nenhum autor que se considerasse digno do título fazia esse tipo de apresentação e muito menos cobrava por isso, o que causou uma onda de críticas a Charles Dickens.

Mas o público não se importava com as polêmicas e “parecia entrar num tipo de transe, como se um sentimento universal de alegria invadisse a todos” durante a leitura. E A Christmas Carol também marcou a última aparição de Dickens em público. Em 15 de março de 1870, ele fez uma apresentação do conto em Londres e faleceu três meses depois.

Pra quem quiser conhecer a versão original do autor inglês, há alguns dias, a Biblioteca Pública de Nova York promoveu a leitura do conto. Ninguém menos que Neil Gaiman, o conhecido autor de literatura fantástica, fez a apresentação — caracterizado COMO Charles Dickens —, e vocês podem ouvi-lo aqui!


Mas que ninguém pense que Dickens não se importava com seus escritos ou que ele fazia isso apenas pelo dinheiro... Enquanto escrevia A Christmas Carol, o próprio autor relata que “ria, chorava e voltava a rir”, e não eram raras longas caminhadas noturnas (entre 20 e 30 quilômetros!), depois de escrever algumas páginas. Ao terminar o livro, Dickens mais parecia um louco, prestes a surtar, de tão apegado que estava aos personagens.

O Sonho de Dickens, pintado por Robert William Buss, 1875
E se A Christmas Carol é considerado por muitos o texto fundador da concepção moderna de Natal, e Scrooge é tomado por muita gente como um exemplo de que podemos, sim, mudar, Dickens pode muito bem ser considerado um tipo de “padroeiro” dos atuais profissionais do livro e uma inspiração a nunca desistir.

Boas leituras!
E como diria o Pequeno Tim, personagem de A Christmas Carol: “Que Deus nos abençoe, a todos!

Minibio:

Ana Resende trabalha como preparadora de originais e tradutora, e é colaboradora da Galera Record, entre outras editoras. Workaholic assumida, adora contos de Natal, mas sua leitura favorita ainda são os contos de fadas. Já escreveu sua cartinha para o Papai Noel e aguarda, ansiosa, a resposta.


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