20 de set de 2013

Papos de sexta: Passo a passo e passatempo

Além da leitura, cultivo outros dois hábitos desde pequena: escrever e desenhar. Lembro que eu descia para o playground do prédio, munida de um caderno e lápis, e passava horas rabiscando na companhia das amigas. Escrevíamos histórias, poesias, letras de música, e depois ilustrávamos. Era o meu passatempo favorito.
Meus pais não encanavam com isso. Sempre fui boa aluna e, desde que não prejudicasse minhas notas, eu podia passar o tempo como quisesse. Eu nunca reprovei na escola e fiquei em recuperação apenas uma vez, mas não via utilidade em aprender todas aquelas fórmulas quando o meu dom era com letras e traços. Até os professores reconheciam isso, me chamando para ler as redações na frente da turma - e me matando de vergonha - ou me deixando encarregada, nos trabalhos em grupo, de qualquer coisa que exigisse habilidade artística.
Sobrevivi ao ensino médio e cheguei ao vestibular certa de que queria cursar comunicação social, assim não precisaria optar entre texto e imagem, e ainda leria bastante. Me formei, mas faltava alguma coisa, então cursei artes gráficas. Estagiei no marketing de um jornal, trabalhei como redatora em agências de propaganda, e depois como designer de interfaces em empresas de TI. Fui sócia de uma marca de camisetas que era sucesso em uma feira de moda do Rio de Janeiro, mas continuava faltando algo na minha vida. 
Foi quando me dei conta de que, com a correria do dia-a-dia, eu havia deixado os meus hobbies de lado. Eu me entregava apenas às leituras da minha área, e quando escrevia ou desenhava, era por obrigação e não prazer.
Comecei um blog literário para me reaproximar das minhas paixões. Era novamente um passatempo, mas o destino se encarregou do resto. Conheci o pessoal da editora em um evento literário, mais precisamente no lançamento de “Cidade dos Ossos”, e como tantos outros blogueiros, me tornei parceira. Fui convidada a apresentar eventos dos lançamentos da Cassandra Clare e L.J. Smith. Por indicação de outra blogueira, a Lívia do Leiturinhas, passei a escrever pareceres dos manuscritos e a sugerir alguns títulos para publicação. E agora cuido das redes sociais de um dos selos do grupo.
O que era um passatempo virou uma maneira de ganhar a vida. Reparem que não usei a palavra dinheiro, porque não acredito em fazer as coisas apenas com esse propósito. O trabalho ideal é aquele que paga as contas sim, mas que ao mesmo tempo nos deixa com um sorriso no rosto. “Faça o que ama e não trabalhará nem um dia em sua vida”, já dizia Confúcio.
Escolhi esse tema para o Papos de Sexta porque reencontrei alguns amigos na Bienal que abandonaram suas paixões por conta da escola, faculdade ou emprego, e gostaria de compartilhar a minha história com eles. Lembrem-se: vocês podem recomeçar quantas vezes for preciso.
Movida por curiosidade, eu passei por diversas áreas e aprendi muito em cada uma delas. E por mais que eu sentisse na época que estava andando em círculos, hoje vejo que cada passo me levava na direção certa. Não tenham medo das mudanças, pois elas nos colocam em movimento - e ninguém merece ficar estagnado -, mas deem importância aos seus passatempos. As atividades realizadas por vontade própria, e não por imposição, são o passo a passo para a realização pessoal e profissional.
Termino com um trecho do manifesto Work is not a job, das designers Sophie Pester e Catharina Bruns (vale a pena conhecer o trabalho dessas duas):
“Siga seu coração ou ele vai para sempre lembrá-lo de que algo está faltando.”

3 comentários:

Deia disse...

Me fez pensar, e muito, nas minhas escolhas, e no que tenho feito ultimamente. Acho que esse sentimento de "andar em círculos" ou "peregrinar no deserto" tem me atormentado um bom tempo. As vezes a gente até sabe o que o coração quer, porém a "pressão" ao nosso redor fala mais alto, e somos obrigados a por as contas em primeiro lugar.

Tita Mirra disse...

Deia, isso acontece. O importante é não achar que tudo está perdido, que é tarde demais para mudar. A vida nos apresenta bifurcações, retornos e encruzilhadas, e mesmo quando escolhemos um determinado caminho, não precisamos permanecer nele por toda vida. Tudo na vida são escolhas, e elas dependem do nosso momento, mas se permita sonhar um pouco :) Bjs!

Érika disse...

Adorei! Esse texto me deixou inspirada a procurar mais o que me faz feliz, ando meio perdida na minha faculdade e que caminho escolher, entretanto vou me arriscar mais agora com as minhas escolhas e ver o que vai acontecer. Beijos

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