19 de set de 2013

A PRIMEIRA IMPRESSÃO É A QUE FICA?

Eu não sei vocês, mas eu sou obcecada com os parágrafos iniciais dos livros. Já faz um bom tempo que coleciono o primeiro parágrafo de livros clássicos e, de uns tempos pra cá, ando anotando as frases iniciais que mais me chamam atenção nas histórias que leio. 
Até então, eu achava que era só mania minha, mas há algum tempo, li um artigo do Stephen King que falava das semanas (às vezes, anos) que ele leva para escrever a primeira frase de um livro, e de como vai reescrevendo sem parar até encontrar as palavras certas. 
Claro que ninguém deixa de ler um livro se as primeiras frases forem ruins, mas eu me lembro de já ter lido livros ruins por causa de uma frase inicial boa (e de um título bom também, outra das minhas obsessões).
Pra mim, os primeiros parágrafos ideais são aqueles que me ajudam a compor mentalmente o local e o tempo em que a história se passa. E se começar com uma frase épica do tipo “há muito tempo, numa galáxia muito, muito distante...” (ok, esta frase não vem de um livro, mas tem o nível de epicidade perfeito pra vocês entenderem do que estou falando...), bom, já me ganhou! 
E tudo bem se as primeiras linhas me põem diante de um drama realista e das consequências de um evento trágico: eu também adoro derramar lágrimas pelos personagens!
Outra coisa que me atrai é quando percebo que as primeiras linhas me remetem a histórias clássicas que eu já li, assim fica parecendo que eu e o autor compartilhamos um segredo. Um dos meus livros favoritos é Pequeno Irmão, do Cory Doctorow. Não tem como não simpatizar com o Marcus Yallow, um dos caras mais vigiados do mundo, e que, antes de a história começar, era conhecido como “w1n5t0n” (e nada de achar que se pronuncia “dáblio-um-ene-cinco-tê-zero-ene”!). É Winston mesmo, tal como o protagonista do livro 1984. Deu pra entender?!
E essas frases iniciais podem ser tão marcantes que transformam o seu modo de encarar a realidade. “O céu de início de verão tinha cor de vômito de gato.” Nunca mais consegui olhar para o céu sem lembrar disso. Não sei se vocês sabem, mas esta frase de Feios, do Scott Westerfeld, é uma homenagem a Neuromancer, de William Gibson, que inicia assim (uso aqui a tradução de Fábio Fernandes para a editora Aleph): “O céu sobre o porto tinha a cor de uma televisão sintonizada num canal fora do ar.” 
Legal, né? O Westerfeld não só cria uma das frases mais incríveis para a abertura de um livro como ainda homenageia um mestre da ficção especulativa! Tem que ser muito gênio pra fazer isso!
E aproveitando que no dia 30 de setembro se comemora o dia do tradutor, resolvi homenagear o trabalho dos colegas citando os primeiros parágrafos de quatro traduções que eu amo. Tem de tudo aqui: drama, epicidade, conspirações e... vômito de gato!!!
Divirtam-se e boas leituras até o mês que vem! 
A Companhia Negra, de Glen Cook. Record, 2012. Tradução de Edmo Suassuna.
Houve prodígios e maravilhas suficientes, é o que o Caolho diz. Temos de culpar a nós mesmos por interpretá-los mal. A deficiência do Caolho não prejudica nem um pouco sua admirável capacidade de olhar para trás.
Relâmpagos num céu limpo atingiram a Colina Necropolitana. Um dos raios acertou a placa de bronze que selava a tumba dos forvalakas, obliterando metade do feitiço de confinamento. Choveu pedras. Estátuas sangraram. Sacerdotes de vários templos relataram vítimas de sacrifício sem corações ou fígados. Uma dessas vítimas escapou depois de ter as tripas abertas, e não foi recapturada. Na Caserna da Forquilha, onde as Coortes Urbanas estavam aquarteladas, a imagem de Teux se virou completamente para trás. Por nove noites seguidas, dez abutres negros circularam o Bastião. Então um deles expulsou a águia que vivia no topo da Torre de Papel.
Feios, de Scott Westerfeld. Galera Record, 2010. Tradução de Rodrigo Chia.
O céu de início de verão tinha cor de vômito de gato. Obviamente, Tally pensava, quando a dieta do seu gato se resume por um bom tempo à ração sabor salmão. Movendo-se rapidamente, as nuvens até lembravam peixes, desfeitas em escamas pelos ventos das altitudes elevadas. À medida que a claridade se ia, lacunas azuis da cor do mar apareciam, como um oceano de cabeça para baixo, frio e infinito. Num verão qualquer, um pôr do sol como esse teria sido lindo. Mas nada era lindo desde que Peris havia se tornado perfeito. Perder seu melhor amigo é uma droga, mesmo que apenas por três meses e dois dias.
Métrica, de Colleen Hoover. Galera Record, 2013. Tradução de Priscila Catão.
Kel e eu guardamos as duas últimas caixas no caminhão de mudança da U-haul. Puxo a porta para baixo e tranco o ferrolho, fechando lá dentro 18 anos de lembranças, incluindo todas as relacionadas com meu pai.
Ele morreu há seis meses, tempo suficiente para que meu irmão de 9 anos, Kel, não chore mais toda vez que falamos nele. Mas ainda é pouco tempo para aceitarmos as consequências financeiras de se passar a ter um lar com apenas um chefe de família. Um lar incapaz de arcar com os custos de ficar no Texas, na única casa que já conheci.
Pequeno Irmão, de Cory Doctorow. Galera Record, 2011. Tradução de André Gordirro.
Sou aluno do último ano do Colégio Cesar Chavez de São Francisco, localizado no ensolarado bairro de Mission, o que me torna uma das pessoas mais vigiadas do mundo. Meu nome é Marcus Yallow, porém, quando esta história começou, eu me chamava w1n5t0n. Se pronuncia “Winston”.
Não se pronuncia “dáblio-um-ene-cinco-tê-zero-ene”, a não ser que a pessoa seja um inspetor sem noção, daquele tipo que está tão por fora que ainda chama a internet de “a supervia da informação”.
Quem quiser deixar seus primeiros parágrafos preferidos nos comentários pode fazer isso também!
Essa ilustração incrível é do Tom Gauld. Dá pra conhecer mais sobre o trabalho dele aqui: http://www.flickr.com/photos/tomgauld/

Um comentário:

Aline T.K.M. disse...

Pequeno Irmão me interessou tão logo você mencionou o nome do personagem, Winston. Não conhecia esse livro, mas como li recentemente 1984, fiquei viciada em tudo o que faça referências a essa história genial.
Acho que as frases iniciais de um livro têm aquele poderzinho de nos pegar, de chamar nossa atenção e dizer um pouco a quê veio. Assim como os primeiros segundos de um comercial de TV. Se fosse escolher um primeiro parágrafo do qual gostei bastante, seria o do livro O Grande Gatsby.

Um beijo, Livro Lab