22 de mai de 2014

Galera entre letras: Todo mundo tem uma história pra contar

Eu já disse e repito: todo mundo tem uma história pra contar. Mas nem sempre é fácil saber exatamente o que se quer dizer. No segundo artigo para autores iniciantes, vou falar um pouco sobre como encontrar a sua história — e contá-la.


A primeira dica que dou é a seguinte: quando você decidir escrever, escreva sobre coisas que já conhece ou com as quais tem afinidade. Parece bobagem, mas, trabalhando com autores iniciantes, uma das coisas que mais vejo é justamente o autor querer começar a escrever sobre aquilo que não conhece. E, óbvio, com tantas facilidades, como a pesquisa na Internet, dá até pra arriscar a escrever sobre temas que não são do nosso cotidiano — e eu não estou dizendo que não se possa fazer isso —, mas uma história bem contada sempre tem que parecer “verdadeira”, por mais fantástica que seja.

A história é como um mundo paralelo ao mundo real, e não é raro o autor falar dos seus personagens como filhos ou irmãos. E, ao contrário do que muita gente pensa, isso é essencial para a criação. Se o autor não acredita em seus personagens nem gostaria de habitar o mundo criado, quem é que vai acreditar (e quem nunca riu quando ouviu alguém falar de um personagem como se ele fosse real?)???

Por isso é tão importante que a história não só aparente veracidade, como seja coerente. E aí vai uma sugestão: tudo começa com um esquema. Sério. Algo tão simples como isso aqui: História — “Plot” — “Subplots”.

A história é sempre uma sucessão de acontecimentos. Mas alguns acontecimentos são mais importantes do que outros e, em geral, tem UM ACONTECIMENTO que desencadeia todos os outros ou que encerra a cadeia dos acontecimentos — é o seu “plot”.

Pode ser qualquer coisa: a queda de um avião lotado de crianças numa ilha deserta, como em O Senhor das Moscas, ou a chegada de um jovem e rico cavalheiro a um condado inglês, como em Orgulho e Preconceito. A partir do “plot”, vários “subplots” se desenrolam, envolvendo personagens secundários (quem leu Orgulho e Preconceito, sabe da importância que o comportamento da irmã caçula da protagonista, Lydia Bennett, vai ter para a trama, por exemplo).

O importante é que o “plot” e os “subplots” sejam “tramas” coerentes. Nada de sair tirando coelhos da cartola — e isso até tem nome: deus ex machina (ou “deus surgido da máquina”), aqueles recursos que surgem do nada para resolver uma situação. Embora o deus ex machina seja muito usado, pode ser evitado em nome de uma trama “redondinha”. No fim das contas, fica até parecendo preguiça do autor, né?

E essa veracidade também se aplica aos diálogos. Dificilmente, num livro que se passa no Rio de Janeiro, a gente vai deixar de ler coisas como “maneiro” ou mesmo “night” (traduzindo: a “balada” do resto do país). E esse “clima” vai ser importante para o leitor entrar no texto (mesmo que ele não esteja acostumado com os termos).

E pensar no leitor também é importante na hora de criar a história. É como aquela anedota do náufrago que manda uma mensagem numa garrafa através do oceano: ele não sabe quem vai ler a mensagem, nem de onde aquela pessoa é, portanto, tem que dar todas as indicações e deixar tudo bem explicado pra poder ser encontrado. O escritor é como o náufrago que quer ser salvo (lido, nesse caso): se ele não for claro, quem é que vai entender?

E outra coisa que sempre preocupa os autores iniciantes: tem tempo certo pra escrever um livro? A melhor resposta a essa pergunta é uma historinha sobre dois famosos compositores: Leonard Cohen e Bob Dylan.

Pra quem não sabe, Cohen é o autor da música Hallelujah, que ficou bem famosa depois de ser tocada em Shrek. Bob Dylan também é um compositor bastante conhecido e, numa conversa, Cohen perguntou quanto tempo ele tinha levado pra compor a letra de uma de suas músicas mais famosas. Dylan respondeu: “dez minutos, e você? Quanto tempo levou pra compor Hallelujah?” Leonard, meio sem graça, respondeu: “sete anos.”

A verdade é que não tem tempo certo pra escrever um livro. O mais importante é não desistir, escrever todos os dias (mesmo que sejam algumas poucas palavras). E anotar todas as boas ideias que vocês tiverem! J

Na próxima coluna, vou falar um pouco das pessoas envolvidas na transformação de um manuscrito em livro. Vocês sabem o que é leitura crítica? Preparação de originais? Para que serve um agente? O que é um editor de aquisições? Se não sabem, na próxima coluna vou explicar tudo isso!

3 comentários:

Anônimo disse...

Muito legal! Vou esperar pela próxima matéria.

Anônimo disse...

Adorei!! Estou ansiosa pela próxima!

Anônimo disse...

Muito legall