27 de jun de 2013

Galera entre letras: TRADUTTORI TRADITORI

Desde que comecei a trabalhar como tradutora, não é raro ouvir alguém citar a (nada boa e) velha expressão traduttori traditori ao se referir ao ofício de tradutor. Não sei muito bem onde essa história começou: alguns dizem que os italianos ficaram irritados com a qualidade das traduções francesas de Dante (aquele mesmo, do inferno) e passaram a xingar todos os tradutores de traidores; outros contam que foram os romanos (sempre eles!) que a criaram.

No fim das contas, não faz a menor diferença quem inventou esse ditado (seria, tipo, a gente querer discutir “quem veio primeiro: o ovo ou a galinha?”), mas vale muito a pena tentar entender qual é o papel do tradutor nessa história toda.

E adivinhem só?! Esse é o tema da coluna de hoje! :)



Bom, pra começo de conversa, o tradutor é um pouco como o mordomo dos filmes policiais: quando está tudo bem, ninguém se lembra dele, mas, quando tem algum problema, ele é sempre o primeiro suspeito, e isso, é claro, tem a ver com o fato de o nome dele estar na folha de rosto do livro.

Na coluna do mês passado, eu falei da preparação de originais e mostrei que depois que a tradução fica pronta, tem outras etapas na produção, ou seja, muita água vai rolar até o livro chegar às livrarias.

Ainda assim, o tradutor tem uma responsabilidade ENORME nesse processo porque é ele quem vai passar o texto de um idioma ao outro, procurando recriar em português para os leitores brasileiros – a mesma SENSAÇÃO que o livro provoca no leitor do texto original.

E é justamente aí que mora a polêmica em relação às traduções: NÃO se traduz PALAVRA A PALAVRA. O que se traduz são as IMAGENS MENTAIS e as SENSAÇÕES; por isso, nenhuma tradução é realmente LITERAL!!! o_O (Eu sei, a essa altura, já deve ter um monte de leitores – inclusive, tradutores – arrancando os cabelos, mas keep calm e me acompanhem.)Vou mostrar isso com um exemplo.

Imaginem o protagonista de uma história de terror que tem que percorrer um corredor muito comprido e escuro. No fim desse corredor tem uma porta, mas o nosso protagonista não sabe onde ela vai dar... e ele já enfrentou um monte de obstáculos para chegar até ali e começa a duvidar de que aquela porta seja a sua salvação. Então, o que é que ele faz? Ele diz a seguinte frase:

My gut twisted.

Numa tradução palavra a palavra, eu poderia dizer: “Meu estômago se revirou.” ou “Minhas entranhas se contorceram.” Porque, no fim das contas, foi isso mesmo que aconteceu. O único problema é que quando eu ouço esse tipo de coisa, penso logo que o protagonista está enjoado ou com dor de barriga, e não que está com medo ou que sente que aquela porta pode levá-lo a um lugar perigoso.

A pergunta, então, é: qual expressão vai criar a sensação de medo e insegurança no nosso protagonista que, afinal, fala português como a gente?

Bom, há várias maneiras de dizer isso.

Se eu quiser manter a referência a uma parte do corpo (gut, no caso) e lembrar que aquele medo também se expressa fisicamente, eu tenho algumas opções. O nosso protagonista pode dizer: “Senti um frio na barriga.”, “Senti um frio no estômago.” ou até “Senti um frio na espinha.” (A gente diz isso em português, não diz?!) Por outro lado, eu posso não querer remeter ao sentido de entranhas, mas sim ao de intuição (todo mundo acessando http://www.thefreedictionary.com/gut em 3... 2... 1... para ver todas as acepções em inglês), e fazer o protagonista dizer: “Meu sexto sentido me alertou.” ou “Minha intuição me disse que havia algo errado.”

O que vai determinar o uso de uma ou de outra expressão é, muitas vezes, o fato de que tradutores têm suas palavras preferidas. Tem aqueles que gostam de ESCARCÉU quando descrevem uma tremenda GRITARIA; tem outros que preferem descer por uma RAVINA em vez de um BARRANCO, e que sempre, sempre, se escondem em TORREÕES para LANÇAR UM OLHAR aos inimigos que tentam invadir o castelo... Mas isso pode não ser apenas uma questão de gosto, e sim algo que recebe o nome de REPERTÓRIO VOCABULAR (eu sei, o nome é pomposo, mas a ideia é muito legal, e voltaremos a tratar disso...).

Bom, hoje eu falei sobre um aspecto técnico do trabalho de tradutor, mas a tradução também tem um lado afetivo, e não há nada mais legal que traduzir um livro de um autor que se admira ou com personagens dos quais se gosta (mas isso é papo pra outra coluna).

E aproveitando que o mês foi cheio de manifestações e protestos, decidi lançar a

CVT (CAMPANHA DE VALORIZAÇÃO DO TRADUTOR)
para que ele não vire um
TA (TRADUTOR ANÔNIMO)!!!

Peguem o seu livro YA preferido e deem uma olhada na folha de rosto. Se vocês quiserem compartilhar nos comentários o nome do(a) tradutor(a), vou adorar saber quem é!


E se quiserem compartilhar pelo Twitter (@hoelterlein) ou pelo Facebook (https://www.facebook.com/hoelterlein), fiquem à vontade! O importante é homenagear esses lindos que tornam a nossa vida muito mais literária! :)


Minibio:
Ana Resende trabalha como preparadora de originais e tradutora, e é colaboradora da Galera Record, entre outras editoras. Workaholic assumida, não gosta de videogames e sua leitura favorita são os contos de fadas. Acredita que o príncipe encantado existe, só que se perdeu sem um GPS.

Twitter: @hoelterlein

12 comentários:

Rachel Amajones disse...

Jorge Candeias

Lucas Souza disse...

Ótimo texto.
Traduzir é pegar mesmo o sentido, não palavra por palavra. Se pegarmos por exemplo: Dont hold your breath, temos Não prenda sua respiração, em palavra por palavra. Mas claro que isso é usado lá fora pra falar aquele ditado que a gente conhece: Espera sentado.
Muito bom o post. Li um livro em inglês e vi o primeiro cap dele em portugues, até que a tradução está bem fiel. Parabéns, Galera :D

Carla Jeanine disse...

Só queria que vocês soubessem o quanto adorei essa matéria. Vou começar a cursar letras, já escrevo a um tempo, mas quero trabalhar mesmo com tradução ou edição.
Valorizo muito a profissão :)

Carla Jeanine disse...

Gostei demais da matéria, vou começar a cursar o curso de letras, eu já escrevo a algum tempo, mas quero me especializar mesmo em tradução e edição. Valorizo muito a profissão :)

disse...

Estou lendo - Chama Negra (Os Imortais), traduzido pela BRILHANTE Flávia Souto Maior!!!

Adoro as traduções dela!!!

disse...

Estou lendo Chama Negra (os imortais) belamente traduzido por FLÁVIA SOUTO MAIOR!

Ricardo Herdy disse...

Muito esclarecedor! Gostei de saber que a arte da tradução é muito mais "livre" do que eu imaginava.
Bom artigo!

Bruna Miranda disse...

É, nós sempre somos o primeiros a sofrer quando tem 'algo' de errado.. uehaheuhae estou no meu segundo ano estudando Tradução, amando e entendo completamente muito do que você disse!
É um ramo difícil, quase invisível, mas indispensável. Traduzir palavra por palavra é quase sempre impossível; concordo que o nosso trabalho não é copiar e colar em outra língua e sim adaptar para que os leitores da língua de chegada se sintam como os da língua de partida :)

beijos!
Bruna

http://www.umpoucodissoeaquilo.com.br

Izabela Fernandes disse...

Meu sonho é ser tradutora! E sou muito crítica em relação às traduções dos livros que leio. Já peguei mais de um livro com erros de tradução. E é muito bom saber como é a realidade dos tradutores. Mais um coisa: o mercado editorial está aberto para novas cabeças?

Anônimo disse...

Nelson Rodrigues

Anônimo disse...

Ana, sinto livro... como? objeto? sujeito? sempre um amigo. Um amigo constante, com a firmeza de suas palavras. Um amigo de palavra! Há que se respeitar o autor passando "(...) a mesma sensação que o livro provoca no leitor do texto original (...)" Preservando a intenção desse autor quando ele vai "falar" em língua portuguesa, e com a psicologia brasileira! Já a subjetividade do leitor, ela é ainda criativa a cada vez. Que tarefa é a do tradutor! Parabéns. Perpétua.

Anônimo disse...

Acabei de ler O presente da vovó Sara de Ghazi Abdel-Qadir e estou começando "As aventuras do caça-feitiço O SACRIFÍCIO de Joseph Delaney. Amo livros e estou lendo com muito carinho esta coluna.Angelica.