7 de jun de 2013

Papos de Sexta : Livro bom, por Frini Georgakopoulos

Finalmente me acomodo. Ao meu redor, pessoas guardam volumes de todos os tamanhos, trocam de lugar e falam freneticamente ao celular antes de serem obrigadas — muito contra vontade — a terem que desligá—los. Mas meu foco é um : terminar as páginas que me esperam. 



Então, sem aguardar a frasepreparar para a partida”, abro o livro e...


— É bom? — ouço a pergunta do meu lado e solto umnão acredito” mentalmente.

Vagarosamente, marco a página com o dedo e olho para a pessoa sentada à janela, ao meu lado: um jovem executivo com sotaque diferente do meu. Pensei em responder um singelosim” e rezar para ele entender a mensagem, mas ao olhar para o item em suas mãos, mudo de ideia e solto um sorriso zombeteiro, de quem quer instigar um debate.

— Defina “bom” —, respondo e o executivo abre um sorriso. Em segundos, o item que segurava é mostrado para mim com louvor, como se fosse um filho querido: um livro gigantesco que integra uma saga.

— Pra mim, esse é bom ele responde, querendo comparar a leitura.

— Pra você — afirmo e volto para o meu livro, olhando-o de rabo de olho. Vejo que seus olhos claros estão confusos por trás dos óculos de armação fina.

Não entendi  — ele responde  — Você não acha esse livro bom?

Volto-me para ele novamente, cruzando as mãos sobre o meu livro.

— Acho que você acha que sim. Mas o que é bom pra você pode não ser para mim — digo e ao ver o ponto de interrogação quase que tatuado na testa do homem, resolvo ajudá-lo a desvendar o mistério.

Por exemplo, sei que você gosta do livro que está lendo por ele ser repleto de batalhas ricamente descritas, personagens incríveis e muita, mas muita ação e sangue  — falo de supetão e vejo suas sobrancelhas subirem em espanto e afirmação.

— Sei disso porque homens são visuais e se a história for boa, prender a atenção e for descritiva o suficiente, é mais provável que vocês gostem —, e mais uma vez, ele faz que sim com a cabeça — E, claro, ele é muito bem escrito. Mas isso não é regra — continuo — por exemplo, mulheres são mais sensitivas e gostam de saber os sentimentos, o que os personagens estão vivenciando e pensando. Isso para nós é mais importante do que a descrição de locais e ações. Mas eu não gosto quando fica “mulherzinha” demais, como acredito que existam homens que também não aguentam descrições em excesso.

— Interessante. — Ele finalmente encontra sua voz para responder. — Mas então o que faz um livro ser bom?

Nossa, eu adoro esse. leram? — responde uma adolescente que estava ouvindo a conversa do assento ao lado do nosso, do outro lado do corredor. Ela vira a capa pra mim, e eu reprimo uma vontade de revirar os olhos: se para mim o que ele lia era bom, o que ela estava lendo era uma perda de tempo. Pra mim.

Minha namorada está lendo o segundo e eu... bom eu estou gostando que ela está lendo — responde o jovem executivo, com um olhar safado adorável. A adolescente solta uma risada gostosa, e eu rio junto.

Nossa, você está gostando desse livro? Eu tentei começar a ler, mas morro de medo dessas coisas — diz a aeromoça ao passar por nós e apontar para o livro em minhas mãos.

Para você, o que é um livro bom? — pergunto a ela.

O avião começa a taxiar e a tripulante precisa ocupar o seu lugar. Mas ela para perto de nós, pensa por uns dois segundos, fixa seus olhos castanhos e maquiados nos meus e responde com um sorriso no rosto:

— Pra mim, um livro bom precisa me fazer viajar sem sair do lugar — responde ela, e toma seu assento.

Enquanto o avião pega velocidade para decolar, não abrimos nossos respectivos livros para ler, nem falamos. Refletimos sobre as poucas palavras trocadas e, de rabo de olho, noto os sorrisos tímidos querendo aparecer nos lábios de meus companheiros leitores. Esse sorriso é exatamente igual ao meu.

 Assim que o avião nivela e os letreiros de atar cintos se apagam, a adolescente se vira para nós para continuar o papo, mas, sem aviso, na poltrona da minha frente, um garotinho aparece.

Oi. Você tá lendo o quê? — pergunta, sem rodeios. Eu, a menina e o rapaz mostramos as capas dos nossos livros para ele, que passa seus olhinhos pretos por cada um e desaparece de novoEm segundos, ele retorna com um livro enorme de capa amarela e que traz um dinossauro estampado — Tô lendo esse.

Nossa, que legal. E é bom?  — pergunto, e ele faz que sim com a cabeça  — Por que você gosta dele?

Porque os animais falam. Gosto quando eles falam. Queria que falassem de verdade — responde ele, e volta a sentar do lado da mãe, que o ajuda na leitura e está se divertindo com a conversa e a interação do filhote.

 —Eu li um livro em que animais falavam. MEGA chato. — A adolescente fala baixinho pra gente, e eu sabia que livro era esse. Envolvia uma bruxa e um guarda-roupa, e eu também não era muito .

Mas e pra você. O que faz um livro ser bom? — Ela pergunta pra mim, e me sinto fuzilada pelos olhares dela e do executivo, que estava com seu tijolo aberto na página que parou.

— Pra mim — respondi  — um bom livro é o que me faz pensar, sonhar e querer agir, tudo entre a primeira e a última página.

Precisa me fazer suspirar e querer cada vez maiscompleta a menina.

Precisa me distrair e ser muito bem escrito. — O jovem executivo responde.

E pra você?

7 comentários:

Raffafust disse...

Frini

Essa história só poderia ser contada por vc! Adorei isso e ACHO que o livro do jovem executivo era "Guerra dos Tronos", acertei?
O da menina nem imagino :(
E respondendo sua pergunta, para mim livro bom não tem receita, pode ser de terror, romance ou ação mas tem que me prender, tem que me fazer dar vontade de virar a página
eu tenho que não querer parar a leitura!
Ufa..acho que é isso

ótima coluna

beijos

Lucas disse...

Muito legal essa crônica

Jaqueline disse...

Pra mim um bom livro e aquele que eu começo a ler e nem vejo o tempo passando que prende do começo ao fim, que mas rir do nada, me faz chorar as vezes no meio da leitura ate falo sozinha. pelo menos pra mim isso e que faz um bom livro :)

rscarone disse...

Muito boa a coluna! É complicado eu definir um bom livro já que sou MUITO disperso para ler ;) Mas tenho gostado muito do caminho trilhado por Joe Hill. E pela primeira vez estou lendo Dan Brown (Inferno) e estou gostando.

ps: Aquele garotinho nunca poderia ser filho do Ferreira :P

Ricardo Araujo de Sousa disse...

Um bom livro é tudo isso! Um bom livro é uma forma de fazer você esquecer por uns momentos, os problemas mundanos. Um bom livro, faz você sonhar com aventuras, emoção e romance, Um bom livro é mágica em páginas e palavras. Quando você termina um livro, e fica pensando nos destinos dos personagens e no que eles vão fazer daqui para frente, você com certeza leu um bom livro. Pelo menos eu penso assim

Tita Mirra disse...

Uau! Realmente, é uma boa pergunta...

Eu costumo me apaixonar pelos personagens e não pela premissa ou trama. Então um bom livro, na minha opinião, deve ter personagens cativantes!

É claro que a narrativa precisa ser envolvente, mas se o personagem me conquistar, vou querer passar o tempo em sua companhia :)

Bjs!

Frini Georgakopoulos disse...

Gente, amei todas as respostas! Acho que definir um bom livro depende de cada leitor, não? Adorei!

E não, Rafael, o garotinho não poderia ser o filho do Ferreira nunca! HAAHAHAH!

beijos!