23 de out de 2015

Papos de Sexta: Espelho, espelho meu...



“Objetos refletidos no espelho estão mais próximos do que aparentam”. Essa frase – às vezes em inglês – aparece estampada no espelho retrovisor de carros, mas sempre soou mais profunda do que isso pra mim. Faz mais de um ano que eu estou pensando em abordá-la por aqui, mas não me sentia pronta para fazer isso. Até agora.

Usamos espelhos para ver se não estamos saindo na rua com a maquiagem borrada, ou com aquela espinha alienígena na curvinha do nariz, ou com roupa que marca o que deveria esconder, ou... mas será que é só o espelho que mostra para nós o que somos? E será que somos resumidos a somente o que ele mostra?

“Espelho, espelho meu. Existe alguém mais bela do que eu?”, perguntava a Rainha Má para o espelho no conto de fadas. Quando cresci é que entendi o simbolismo dela questionar o espelho. Minha mãe sempre me disse para não perder muito tempo olhando para o espelho, quando o que está além dele é muito mais importante. Aí vi Harry Potter e pensei “Meu Deus! Minha mãe é o Dumbledore!”(Potterheads entenderão!).

Já a minha avó tinha a mania de cobrir os espelhos quando alguém próximo falecia. Ela dizia que a alma poderia ficar presa neles e não conseguir seguir seu caminho. Mas será que isso só acontece quando a gente morre? Porque eu já vi muitas almas presas ao próprio reflexo e a galera ainda esbanjava saúde!

Incrível como o espelho pode aparentar ser um instrumento tão simples e esconder um significado tão profundo.

Ao meu ver, hoje em dia, o espelho não é somente o objeto preso na parede. Ele é o nosso perfil nas redes sociais. E, assim como o objeto físico na parede, ele não é o reflexo perfeito de quem somos.

Hoje em dia, a Rainha Má perguntaria para o Espelho quem tem o perfil mais acessado no YouTube ou o maior número de curtidas no Facebook. E, assim como no conto de fadas, ele faria a intriga que a leva a cometer atos terríveis. O Espelho adora uma intriga, minha gente!



Hoje em dia, queremos personalizar nossos perfis nas redes sociais em busca de seguidores, de admiradores. Postamos fotos dos pratos que comemos quando deveríamos estar saboreando a refeição e aproveitando a companhia. Olhamos o mundo pela tela do celular para compartilhar cada momento, pois, ao postar no snapchat, no instagram, provamos que estivemos lá, que fizemos isso ou que compramos aquilo. E juntando tudo é como se criássemos o reflexo de quem somos.

Mas não compartilhamos nossos momentos de dúvida, de desespero, de fragilidade. Não. Só nos interessa mostrar o palco e não os bastidores e é exatamente isso que quebra esse reflexo. Não somos só o que o espelho mostra, nem o que os perfis nas redes mostram. Isso é só uma casca.  

Disse no início da coluna que fazia tempo que estava me preparando para escrever esse post e agora explico a razão. Fiz aniversário recentemente e recebi muitos parabéns e fiquei muito feliz! Mas algumas mensagens vieram com “você tem muita sorte” e “quero que a minha vida seja igual a sua”. E por mais que tivesse me sentido extremamente lisonjeada pelo carinho demonstrado, me assustou o fato de pessoas acharem que tenho a vida perfeita. Aí, quando falo no Clube do Livro Saraiva que já tive surto de Burn Out por causa de trabalho e que estou sempre me questionando, procurando ir além e a me aprimorar, sou recebida com olhares arregalados e “nossa, nem parece”.

Sorte? Sorte sim para quem está preparada e trabalhando quando ela chega, queridinha!!

Eu não sou apenas o que está nas redes sociais. Eu não leio só o que posto no blog. Eu sou eu assim como você é você. E isso tem facetas e nuances e níveis diferentes e agradeço muito não poder ser definida por um perfil no Facebook!

Nos dias de hoje, virou esporte olímpico julgar o outro e falar pelas costas sobre pessoas que nem conhecemos. É como se, ao passar no perfil de alguém, já pudéssemos formar opinião sobre seu caráter. Pelo amor de Deus! Sem nunca ter trocado uma palavra? Como assim? Mas pior do que isso é que, ao postar algumas coisas, nós acabamos incentivando isso! Ou vai dizer que você nunca postou uma foto pensando “Toma! Agora diz que é melhor do que eu!”? Todo mundo já fez isso e tudo bem. Mas continuar com isso é tomar veneno e esperar que o outro morra. Frustra, envenena e machuca a gente!

Não deixar que a alma seja aprisionada no espelho que é a rede social é uma luta constante e diária. Mas é muito válida! Estamos juntos nessa, certo?

Espelho, espelho meu, tem alguém mais... ah, quem liga! Vou comer sorvete! #PartiuSerFeliz


3 comentários:

Priscila Queiroz disse...

Excelente o texto. É um dos motivos de eu ter passado a usar menos redes sociais, e optado por grupos fechados com os amigos mais próximos.

Porque na rede social todo mundo é perfeito, tem uma vida ótima, é engraçado, engajado em causas sociais, etc. Não vejo reflexões, questionamentos, debates. Rola uma preguiça.

Daniel Luis Pereira Ladislau disse...

Ótimo texto. Concordo plenamente.

Tita Mirra disse...

Mais um texto perfeito, Frini! Perfeito e necessário :)