29 de out de 2015

Galera entre letras: O monstro conhecido

Ainda estamos no clima do Halloween e hoje, como eu tinha prometido, vou continuar falando do medo e de coisas que dão medo. E como terminei com o medo gótico em Poe, hoje começo com Poe também (deu pra perceber o quanto eu gosto dele, né?).

Se Poe foi um dos mais importantes autores do medo gótico, ele também serviu de inspiração para um tipo de medo que, a meu ver, é muito contemporâneo: o medo do que nos é conhecido e familiar.
É muito fácil quando aquilo que nos ameaça e dá medo é um zumbi de pele cinzenta, uma serpente de dois metros ou mesmo um ser qualquer com quatro patas e duas cabeças! É fácil identificar a ameaça e, com sorte, evitá-la. Mas quando aquilo que nos ameaça tem uma aparência normal é que são elas! E este é um medo real e muito atual. E é tão importante que até um pensador como Freud gastou tinta e papel para escrever sobre isso.

Eu acho que é o fato de que isso possa realmente acontecer com a gente que torna esse tipo de história (sobre coisas familiares que, por algum motivo, passam a nos ameaçar) tão interessante. Confesso que tenho mais medo dessas histórias do que de qualquer criatura gigante e com duas cabeças!

E, como eu disse antes, Poe também foi pioneiro desse tema. Ele escreveu um pequeno conto chamado “O homem da multidão” que trata justamente de como uma pessoa em uma metrópole como Londres (e já no século XIX Londres era uma das mais importantes capitais do mundo!) pode se sentir ameaçada por seus habitantes e pelas atitudes mais triviais. Eu não vou contar a história pra vocês porque tem várias traduções disponíveis, além do conto original, na Internet. Leiam!

Imagino que vocês estejam pensando que numa cidade grande ou numa metrópole as pessoas ou as coisas podem parecer ameaçadoras até para os espíritos mais fortes!

Mas… e se fosse uma cidadezinha pequena? Daquelas em que todos se conhecem? Será que dá pra sentir medo num lugar assim?

A resposta é: dá pra sentir medo. Muito medo.

Uma das minhas autoras preferidas de histórias de medo é Shirley Jackson (numa semana em que se falou tanto sobre as mulheres eu não podia deixar de mencionar uma, né?), mas ela não é do tipo que fala de metrópoles ou gigantes vingativos. Suas histórias sempre se passam em locais pequenos: uma aldeia, uma casa, que, sobretudo por serem pequenos, do tipo onde todos se conhecem, se torna claustrofóbica e muito assustadora.

E tanto pelo tema como pela maneira de envolver o leitor, a Shirley Jackson é uma legítima herdeira de Poe e dos contos góticos, a tal ponto que chamam o tipo de histórias que ela escreve de “gótico do sul dos Estados Unidos”.

O conto do qual eu quero falar pra vocês hoje se chama “A loteria” e até hoje é considerado um dos contos mais polêmicos já publicados nos Estados Unidos! Teve até protesto por causa da publicação. (Imaginem uma época pre-Facebook em que, para protestar, as pessoas escreviam cartas ou telefonavam!)

E o conto é tão marcante pra literatura norte-americana que inspirou autores e autoras nas décadas seguintes, incluindo a Suzanne Collins, autora de “Hunger Games”, que lá nos Estados Unidos é editada por ninguém menos que o David Levithan!

Mas o que é que o conto tinha de tão polêmico para gerar toda essa comoção? Bom, um dos motivos era justamente o fato de começar de maneira trivial. Os leitores se assustaram ao perceber — lá pelo meio do conto — o que realmente significava a loteria.

Para eles, um conto que começava falando de uma manhã límpida e ensolarada não poderia terminar da maneira que termina. Pra aguçar a curiosidade de vocês, eis o primeiro parágrafo:

“A manhã de 27 de junho estava límpida e ensolarada, com o calor refrescante de um dia em pleno verão; as flores desabrochavam em profusão, e a grama era de um verde vivo. Os habitantes do vilarejo começaram a se reunir na praça, entre os correios e o banco, por volta de dez da manhã; em algumas cidades, havia tantas pessoas que a loteria durava dois dias e tinha que começar em 26 de junho. Neste vilarejo, porém, no qual havia apenas cerca de 300 pessoas, a loteria inteira durava menos de duas horas, por isso, podia começar às dez da manhã e ainda acabar a tempo de permitir que seus habitantes voltassem a casa para fazer a refeição do meio-dia.”

E pra quem ficou curioso… Ano passado eu traduzi “A loteria” para a “(n.t.) revista de tradução”. A revista completa está neste link. É só baixar, ler e tirar suas próprias conclusões: será que o que nos é mais próximo pode ser o mais ameaçador, e que sob um céu ensolarado se escondem as verdades mais obscuras do ser humano?

Espero que vocês gostem da leitura!


Por trás da aparência professoral, se escondia uma grande conhecedora da alma humana.

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