11 de set de 2014

Galera entre letras: Medo. Muito medo.

Nas últimas colunas eu tenho falado um pouco da relação entre a literatura e as adaptações cinematográficas e, inspirada pela entrevista do mês passado com o Kevin Thompson (e por gostar muito do Guillermo del Toro, com quem o Kevin tem colaborado bastante), hoje eu vou falar sobre uma adaptação cinematográfica muito famosa, mas que (ainda) não foi realizada: a adaptação do livro Nas montanhas da loucura, de H. P. Lovecraft.

Lovecraft é bem conhecido por ser um dos pais da weird fiction (um gênero literário que mistura histórias sobrenaturais e horror psicológico, e que foi popularizado por revistas de baixo custo, sobretudo, nos Estados Unidos) e por ter tido uma vida muito curiosa também. Ele conheceu praticamente todas as pessoas interessantes no mundinho literário da época – apesar de ser famoso por sua reclusão –, além de artistas como Harry Houdini, e deixou uma correspondência bastante importante.

Alguns filmes inspirados em sua obra foram feitos, mas já tem um tempo que todos falam do projeto do Guillermo del Toro de adaptar o livro Nas montanhas da loucura. E quando eu digo que “já tem um tempo” me refiro a “mais de 20 anos”!

E qual seria a dificuldade de se adaptar um autor weird, popular e em domínio público (ou seja, sua obra pode ser traduzida, adaptada etc. sem que se paguem os direitos autorais – Lovecraft morreu há mais de 70 anos) para o cinema?

Nas montanhas da loucura é uma narrativa em primeira pessoa (isto é, é contada a partir da perspectiva ou ponto de vista – o famoso POV – do narrador) e conta o que aconteceu durante uma expedição à Antártica. Bom, já dá pra imaginar pelo título que a viagem não foi exatamente um mar de rosas. E envolveu uma civilização muito antiga, cachorros, murais hieroglíficos e muita morte e loucura! Eu não vou recontar a história aqui, pois, além das traduções disponíveis, é fácil encontrar o texto original (aqui tem a versão eletrônica).

Além da mudança de ponto de vista (o equivalente no cinema à narrativa em primeira pessoa seria a câmera subjetiva, mas um filme comercial todo filmado desse POV ficaria cansativo e, a meu ver, seria quase impossível) para a terceira pessoa, o filme implicaria a criação de cenários muito elaborados (o que é facilitado pelo uso de cenários em computação gráfica) e a criação de personagens muitas vezes pouco desenvolvidos na história (Nas montanhas da loucura remete não apenas a outras obras de Lovecraft, como a obras de outros autores, sobretudo, Edgar Allan Poe). Bom, mas isso também não seria um problema.

Então, qual seria a verdadeira dificuldade? Além do final em nada parecido com o padrão hollywoodiano (caso a adaptação seguisse a história original), Antártica, deuses antigos, civilizações antigas e desconhecidas etc. já foram temas de outros filmes, inclusive o recente Prometheus, que vai ganhar uma sequência. Embora a história de Lovecraft seja original, mais um filme sobre os mistérios de civilizações perdidas talvez fosse considerado “mais do mesmo”.

Isso não significa, porém, que seja impossível filmar o famoso livro, e outras adaptações já foram feitas. Essa animação, por exemplo, é sensacional.

E só para diversão, mas sem fugir muito do nosso assunto, Lovecraft também inspirou a música eletrônica do Adam Beyer e da Ida Engberg.

Boas leituras e até!

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