17 de jul de 2014

Galera entre letras: Entrevista com André Gordirro, tradutor da trilogia “Leviatã”, de Scott Westerfeld

Imaginem uma recriação da Primeira Guerra Mundial que mistura figuras históricas importantes e personagens fictícios com uma roupagem steampunk. E imaginem um conflito dominado por máquinas poderosas e animais gigantescos. Pois é, aí está o cenário criado por Scott Westerfeld para a trilogia Leviatã que, em breve, se encerra com a publicação de Golias: A Revelação (aqui tem um link com o primeiro capítulo do livro). 

Eu sempre fiquei muito curiosa com o processo de tradução da trilogia que, além de citar fatos históricos, isto é, eventos que realmente aconteceram e sobre os quais há uma infinidade de informações, cria seres fantásticos e diversos aparatos mecânicos que jamais existiram. Foi por essa razão que, para celebrar o centenário da Grande Guerra e o lançamento do último volume da trilogia Leviatã, eu entrevistei por e-mail ninguém menos que o tradutor da série: André Gordirro, que me contou como foi traduzir a série e como é o dia a dia dele quando está trabalhando.

Ana Resende: André, você poderia falar um pouco como foi o processo de tradução dos livros da trilogia Leviatã, e como é o seu processo de tradução em geral?
André Gordirro: Eu não fugi muito à regra geral de como encaro uma tradução. Basicamente, se não houver urgência, eu encaro dez páginas por dia, não importam a dificuldade ou a massa de texto. Obviamente, se o livro tiver pouco texto na página ou estiver fluindo bem (muitos diálogos, pouca pesquisa de termos específicos), acabo passando das dez, porque nunca se sabe o dia em que o tradutor estará gripado, de ressaca, com problema na pia da cozinha ou precisando levar os gatos ao veterinário. Já conhecendo o texto do Scott Westerfeld, eu sabia que tudo fluiria em diálogos naturalistas e que eu teria que exercitar a imaginação na adaptação de termos inventados por ele, o que sempre é um desafio legal.

A.R.: A trilogia Leviatã é ambientada na Primeira Guerra Mundial. Pra traduzir os livros, você chegou a pesquisar sobre o assunto? Ou já se interessava por ele?
A.G.: Minha mãe é professora de História e eu sempre me orgulhei em ter sido aluno nota 10 na matéria, então, eu tinha a Primeira Guerra Mundial na cabeça. Cheguei a visitá-la e pegar um livro didático com ela só para reler os capítulos e me recordar dos nomes em português das figuras históricas, mas, felizmente, tudo ainda estava na memória mesmo. Eu me interesso por todas as guerras, sou um general de sofá e soldado de mouse. 



Fatos históricos e ficção se misturam para criar uma versão alternativa da Primeira Guerra Mundial. Nas imagens acima, o carro do arquiduque Francisco Ferdinando e sua farda ensanguentada. O assassinato do arquiduque foi um dos acontecimentos que desencadeou a Primeira Guerra.

A.R.: Você traduziu autores como Cory Doctorow, Scott Westerfeld, e a Galera Record já anunciou a publicação de Brilhantes (Brilliance), do Markus Sakey, que vai virar filme em breve, e que foi traduzido por você. Você costuma escolher os livros que traduz? Ou pede pra traduzir um gênero específico, do qual gosta ou com o qual se sente mais à vontade?
A.G.: Eu não chego a escolher, mas tenho dado a sorte de receber livros que parecem ter sido escolhidos por mim mesmo. Acho que a responsável é a sintonia que a Galera Record sempre teve comigo, pois o pessoal sabe que curto ação/aventura, fantasia e ficção científica – e tudo o que se encaixe aí nas brechas dos rótulos. 

Tradutor e autor, juntos, no lançamento de Leviatã no Rio de Janeiro.

A.R.: Você tem vontade de traduzir algum livro ou algum autor que ainda não foi traduzido para o português? Poderia dizer quem é e por que gostaria de traduzi-lo?
A.G.: O Michael Moorcock e a série do Elric de Melniboné. Há uma edição antiga apenas do último capítulo da saga (não sei por que alguém lançaria, por exemplo, O Retorno do Rei [de J. R. R. Tolkien, A.R.] sem ter publicado A Sociedade do Anel e As Duas Torres, mas...), e até hoje o leitor brasileiro nunca teve o contato que merece com o personagem, além de ocasionais gibis traduzidos. Outro autor seria o Fritz Leiber e a saga de Lankhmar, estrelada pelos dois bufões, Fafhrd e Gray Mouser. Tanto o Leiber quanto o Moorcock são minhas inspirações como futuro escritor, e seria uma honra traduzi-los (até porque alguns livros eu sei de cabeça).

A.R.: Pra terminar, você costuma ler no seu tempo livre? Qual foi o último livro que você leu?
A.G.: O tempo livre, cada vez menor, já foi ocupado por mais leitura. Hoje acabo lendo mesmo os livros que traduzo. Vem aí um bacana, de não ficção, do qual não posso relevar o nome. E ainda luto contra o mais recente volume de As Crônicas de Gelo e Fogo, A Dança dos Dragões, porque, odeio admitir, está bem chato. Espero traduzir a continuação de Brilhantes, A Better World, porque foi uma das melhores leituras recentes (alô, Galera Record!). Viu, tem vezes que eu peço para traduzir um determinado livro. :) 

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