14 de nov de 2013

Galera entre letras: Amadas vilãs

Ela sempre teve as melhores falas. Esguia e de porte altivo, sua presença nunca passou despercebida na tela. E ontem não se falou de outra coisa, senão de sua atual “encarnação”. Sabem de quem estou falando?!

Pois é, ninguém que tenha navegado na Internet ou acessado as redes sociais pôde deixar de notar a agitação em torno do primeiro trailer do filme da Malévola, produzido pela Disney, com a atriz Angelina Jolie no papel principal.



O filme se propõe a contar as origens da vilã mais amada da Disney (título que lhe foi conferido depois de uma pesquisa entre o público) e mostrar Malévola, como diz a atriz que a interpreta, “como uma mulher épica (de um modo diferente).” No fim das contas, a vilã é “capaz de fazer muitas coisas e o fato de se proteger e ser agressiva não significa que ela não tenha outras qualidades [mais ternas]. É preciso solucionar o grande enigma que ela é.”

Mas vocês sabiam que o personagem da Malévola não existia nas muitas versões clássicas da história? Para entender a criação desta vilã, vou contar um pouquinho sobre as primeiras versões de A Bela Adormecida.

A primeira versão do conto de fadas, na verdade, nem tem esse título e foi escrita num dos muitos dialetos da Itália (para ser mais precisa, em napolitano), no século XVII. Chama-se Sol, Lua e Tália, e conta a história da jovem Tália, de seus dois bebês (sim, Tália, enquanto dorme, concebe gêmeos), de um cozinheiro muito generoso e de uma rainha muito, mas muito má e ciumenta, que, como toda rainha cruel, se dá mal no fim da história.

(Aqui tem uma tradução do italiano para esse curioso relato que, no entanto, não é uma história para crianças, mas para adultos).

A versão mais próxima da história que conhecemos é justamente a do francês Charles Perrault, escrita também no século XVII, e que aparece em Histórias ou Contos de Tempos Passados, livro que tem o subtítulo de Contos de Mamãe Gansa, pelo qual ele é mais conhecido hoje. Nele, temos a história A Bela Adormecida do Bosque, onde já encontramos alguns dos elementos presentes nas versões modernas do conto: a roca de fiar e uma fada muito velha e vingativa, que lança o feitiço na princesinha no dia de seu batizado. A fada má aqui ainda é vista como uma personagem caricata e, de certa maneira, ela está muito mais próxima da Rainha Má da Branca de Neve do que da Malévola.

O curioso, nesta versão, é que, após acordar do sono de cem anos, se casar com o príncipe e ter dois filhos, Aurora e Dia, a bela princesa passa a ser perseguida pela sogra que, na verdade, é uma rainha ogra e pretende devorar a princesa e suas crianças, não sem antes exilá-la na floresta (daí o bosque do título). Esta versão é bem rocambolesca, tem vilões demais e o papel da fada má é diminuto.

A versão mais famosa é a dos Irmãos Grimm, que data do início do século XIX e tem como título A Pequena Rosa, nome dado à princesa. Nesta versão, que termina com o casamento do príncipe com Rosa e um “felizes para sempre”, as fadas são substituídas por 13 mulheres sábias do reino.

Bom, e como é que nós chegamos à Malévola?, vocês devem estar se perguntando.

A Bela Adormecida é um desenho lançado em 1959, o terceiro desenho baseado em contos de fadas, após o lançamento de Branca de Neve, de 1937, e de Cinderela, em 1950. Como já mencionei antes, a exemplo da Rainha Má, a Madrasta de Cinderela e suas meias-irmãs são também personagens caricatos, que dificilmente despertariam a simpatia de alguém.

A Bela Adormecida é lançado em plena “segunda onda do feminismo”: sobretudo, pelo advento das duas guerras, as mulheres entraram no mercado de trabalho, ganharam o direito de votar e, no contexto internacional, vive-se a Guerra Fria, onde o papel dos mocinhos e dos bandidos parece bem determinado. E o que isso tem a ver com um desenho animado? Muita coisa.


A Malévola foi a primeira das personagens malvadas dos três desenhos a ser retratada de forma não caricatural. Apesar da pele cinza-esverdeada, ela tem um porte que não fica a dever a nenhuma modelo de passarela. E... uma curiosidade... apesar do modelo para a Malévola ser a atriz Eleanor Audley, não seria difícil imaginar uma top-model (ainda que, na época, não se usasse o termo) como Carmen dell’Orefice, com seus traços exóticos e rosto anguloso, além do corpo esguio, como referência para a vilã.

Eleanor Audley

Carmen dell'Orefice

Carmen dell'Orefice

Além disso, Malévola é a primeira vilã que rivaliza com a mocinha da história (e não é à toa que muita gente torceu para que ela desse cabo de vez da Aurora no desenho, rs): ela tem as melhores falas, é irônica e inteligente, e, de certa forma, coloca em alto e bom tom tudo aquilo que gostaríamos de dizer quando nos sentimos prejudicados ou rejeitados pelos outros. Uma das minhas falas preferidas é justamente a chegada de Malévola na apresentação da princesa Aurora ao restante do reino:

Ah, mas que aglomeração brilhante, rei Estevão: realeza, nobreza, cortesãos e... ha ha ha... que graça... até a ralé. Eu realmente, com tristeza, estranhei não ter sido convidada [ao que uma das fadas, Primavera, retruca: Não é bem-vinda!]... Não sou. Oh, Deus, que terrível situação... julguei que tivesse sido apenas um descuido. Bem, sendo assim, é melhor que eu me vá...  

E tem mais: Malévola tem poder. Poder de verdade. Em vez da maldade da Rainha Má da Branca de Neve, cujo preço é a perda da beleza e o envelhecimento, ou a implicância vil da Madrasta e das irmãs da Cinderela, Malévola realmente é poderosa. Ela faz o príncipe de refém, comanda um exército de goblins e ainda se transforma em um imenso dragão negro, símbolo incontestável do poder maligno (ao contrário da Rainha Má, que apenas consegue se transformar numa velha encarquilhada e corcunda e que, nessa transformação, ainda perde poder...).



Por essas e por outras, Malévola acabou se tornando uma vilã tão admirada e, não sem motivo, o filme da Disney que estreia no ano que vem causou um furor tão grande: conhecer as origens e as motivações desta personagem tão complexa certamente vai ser fascinante. E, como ressaltou uma amiga, especialista em contos de fadas e professora da Universidade de Boston, o fato de o trailer se concentrar no diálogo entre duas mulheres (Aurora e Malévola) já é, por si só, um acontecimento.

O trailer oficial está aqui

Divirtam-se!

Minibio:
Ana Resende trabalha como preparadora de originais e tradutora, e é colaboradora da Galera Record, entre outras editoras. Workaholic assumida, sua leitura favorita são os contos de fadas. Acredita em fadas e dragões, mas acha que o príncipe encantado não passa de uma lenda.
Twitter: @hoelterlein

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