5 de jul de 2013

Papos de Sexta: Não fique parado


O som do recreio era convidativo, mas ela não se mexeu. Quatro andares baixo, seus amigos e namorado estavam batendo papo, comendo e combinando o final de semana. O som era de “falta pouco para o dia acabar” e a atmosfera era de possibilidade, de tanta possibilidade. Mas ela continuou na última mesa da biblioteca, lá atrás, quase coberta por estantes de livros de referência e teatro antigo. Nesse horário, o lugar era quase deserto e ela sentia-se em casa. Ela não tinha problemas com amigos ou com a família, mas o que a inquietava era muito pior. E ela não sabia, não conseguia lidar com isso.

- Sabia que a encontraria aqui – ele disse ao avistá-la. Só pelo tom da voz ela sabia quem era e sorriu, mesmo com vontade de chorar. Ele sentou ao seu lado e colocou a mão sobre a manga de seu casaco.
- Você não está bem. Conta pra mim o que foi? – ele pediu e os olhos castanhos dela encararam os azuis dele, por trás de óculos de armação fina, e se embaçaram.

- Eu não sei o que fazer – ela disse baixinho, pois a bibliotecária era de personalidade difícil. 

- Querida, na sua idade, são poucos os que sabem – ele disse sorrindo, mas sem brincar com a seriedade da questão – Quando em dúvida ....
- Siga seu coração, mas mantenha os pés no chão e não tenha vergonha ...
- De rir de si mesmo – ele completou.
 Os dois sorriram e ficaram em silêncio.
- Nada precisa ser decidido agora. Você tem a vida inteira pela frente e nenhum curso é único. Escolha agora, mude mais para frente, volte, tente de novo. Só não fique parada – ele disse, apertou o braço dela de leve e se levantou.
- E espero o ensaio sobre Hamlet na minha mesa amanhã, mocinha. Sem desculpas – ele chamou do final do corredor.
- Sem desculpas – ela respondeu baixinho, sorrindo e enxugando as lágrimas que caíram.
Ela então se levantou e foi encontrar sua turma no recreio. O coração ainda estava apertado e, de certo modo, sempre estaria, mas agora no peito também reinava a coragem, a ideia plantada e nutrida que ela poderia escolher e poderia mudar de ideia. E tudo bem se mudasse.

Não fique parada. Não crie desculpas. Viva em voz alta e ria de si mesmo.

Já escrevi aqui sobre um professor de literatura que foi meu guru na escola e essa é mais uma coluna dedicada a ele. Não somente a ele, mas ao que ele representou para mim e para a minha escolha de profissão.

Quando jovem, tinha medo do futuro, de não fazer a escolha profissional certa. O futuro virou presente e o medo do que vem por aí continua, claro. Às vezes acho que sinto demais, que vejo demais, que leio demais as entrelinhas e isso frustra. Mas é o que me faz ser eu e tenho que lidar com isso. É exatamente essa característica que me fez escolher o jornalismo como profissão. A angústia constante, a indignação perante a injustiça, a busca incessante por todos os ângulos ... tudo isso faz de mim uma jornalista e, por mais que tenha enfrentado situações de dúvidas e de medo na minha jornada até agora, sei que foi a escolha certa para mim. 

Nos últimos dias, vi colegas de profissão passar por situações complicadas que não é o caso discutir aqui. O que cabe dizer é que, cada um – independente da profissão que escolheu seguir – deve a si mesmo e aos outros fazer o seu melhor. Às vezes sentimos que o nosso melhor não é o bastante e a angústia que vem com a pergunta “será que estou no caminho certo?” volta com força. Mesmo tendo certeza, ela volta e tudo bem. Essa dúvida é um convite a tentar mais uma vez, a se esforçar mais, a corrigir erros, aprender e seguir em frente.  

A razão para essa coluna é simples: quer se tornar um escritor? Quer se tornar um jornalista? Quer montar um blog? Quer ser o próximo líder do país? Quer ser Miss? Quer lutar pelos seus direitos? Quer apenas ser ouvido? Então não fique parado. Não arrume desculpas. O medo existe porque se têm algo precioso a se perder. Mas também temos muito mais tesouros a ganhar. Calcule o risco, se jogue, volte, se cure, tente mais vezes. Mas não pare. Faça o seu melhor todos os dias. Viva em voz alta e seja feliz. Ponto.  

8 comentários:

Raffafust disse...

Querida amiga

Não é a primeira vez que vou dizer isso e certamente não é a última, amo o jeito que escreve <3!
Gostei muito do que disse, não importa o que vc seja, no que vc se transformou, importa é não desistir, quem fica parado e não corre atrás do que quer fica literalmente para trás efrustrado com a certeza de que poderia ter tentado!
Amei o que disse!

beijos imensos

Musa do Verão disse...

Oláá,

Eu raramente comento em posts, apesar de ler muitos deles (blogueiros me perdoem), mas não consegui me omitir depois de ler essa coluna.

Pode parecer bobo e clichê, mas "não fique parado" era exatamente a mensagem que precisava nesse momento. As dúvidas estão rondando tanto a minha cabeça, frustração, falta de reconhecimento que às vezes a ideia de desistir de tudo parece imperdível. Obrigada por compartilhar isso com seus leitores. Obrigada por, sem nem imaginar, ter me ajudado tanto assim.

Ó, você é uma mulher incrível <3

Beijinhos,
da Musa do Verão.

Karen Ramos disse...

Nossa, texto maravilhoso, e me identifico muito com isso. Sou 'muito nova' pra pensar tanto no que eu quero, mas mesmo assim eu penso e tenho medo de estar seguindo o caminho errado, ou escolhido o caminho que parece fácil mas tem linhas tortas, enfim. Meu sonho (no momento e espero que siga comigo) é ser jornalista, mas eu nunca sei se estou certa porque quando falo: "Quero ser Jornalista" todos fazem questão de me imaginarem numa tela comentando de empresas endividadas, e isto é oque menos quero. Quem disse que não posso ser uma jornalista que vive na escrita? Mas eu mesma discuto comigo mesma sobre isso... Enfim, A-DO-REI o texto! bjs.

www.palavras-digitadas.blogspot.com

Ana disse...

pode parecer piegas, mas sempre sua coluna tem algo a ver com o que está acontecendo comigo...
estou em uma encruzilhada, e sua coluna fez dar um passo pra frente, ao invés de ir pra traz.
Obrigada!

Mariana Barbosa disse...

Frini, acho que esse foi o seu melhor post aqui.

Estou quase chorando, sério. É exatamente isso. Quer uma coisa? Corra atrás! Não fique parado esperando as coisas acontecerem, as faça acontecer!

Amei, amei, amei!

Beijos,

Mari.

Jane C. disse...

Obrigada,Frini!Você acaba de me dar um belo tapa na cara.Eu tava mesmo precisando.
;)

Kelly Lu disse...

Adorei seu texto! Deu coragem para seguir em frente e run this motha, hahahha

"Calcule o risco, se jogue, volte, se cure, tente mais vezes. Mas não pare. Faça o seu melhor todos os dias. Viva em voz alta e seja feliz. Ponto."

FUCK YEAH! \o/

Vivi Maurey disse...

É engraçado pensar em pequenas frases tão impactantes que a gente leva pra vida e tenta mantê-las bem juntinho da gente... Não são muitas, mas são tão especiais que valem por milhões.

Achei linda a coluna. Concordo. Acho que não devemos parar nunca! :D