12 de dez de 2012

GALERA POP – O HOBBIT – UMA JORNADA INESPERADA


Grandes diretores se destacam pelo seu jeito de contar uma história. Não que sejam todas iguais, mas a narrativa imprime uma unidade de temas e ideias. Quando, então, um grande diretor como Peter Jackson se propõe a contar uma saga, a unidade fica mais clara entre as peças separadas. O Hobbit, escrito em 1932 (mas publicado em 1937) por J. R. R. Tolkien com a proposta de ser uma história infantil, e O Senhor dos Anéis (publicado em 1954), a sequência épica do mesmo autor, têm tons diferentes e nem sempre dialogam bem entre si. Com a vantagem de já ter concluído a obra mais difícil, Peter Jackson agora adapta O Hobbit para as telas à procura desta unidade, deste pé de igualdade entre as pontas distantes da saga. Seu O Hobbit é uma obra paralela ao seu O Senhor dos Anéis, que aponta para os eventos futuros da saga, amarra tramas soltas e enxerga temas comuns nos livros de Tolkien.


De novo há um príncipe exilado e sem trono (Thorin/Aragorn) cujo reino depende de uma criatura pequena, mas de grande estatura moral que ainda duvida da própria coragem (Bilbo/Frodo). De novo há um mal ancestral (Smaug/Sauron) a ser derrotado. Falta em O Hobbit, o livro infantil descompromissado, a ameaça urgente (o Anel) que lhe dê um tom épico (o dragão é tão mal utilizado pelo autor que não conta); inteligentemente, para tornar o “seu” O Hobbit um épico à altura dos que já dirigiu, o diretor justamente reforça a ideia de unidade com os três O Senhor dos Anéis e dá mais impacto narrativo ao dragão Smaug do que Tolkien. É neste momento que O Hobbit, o filme, assume um ar épico que não tem nas inocentes páginas de conto de fadas para crianças. Em cenas que provocam arrepio nos fãs, Jackson planta a semente do retorno de Sauron, da traição de Saruman, da animosidade entre elfos e anões, e até mesmo da tortura de Gollum para revelar a localização do Anel (ouçam bem os guinchos agoniados de “Baggins!”, exatamente os mesmos que repete em Minas Morgul ao ser torturado em A Sociedade do Anel). Como contador da mesma grande história, Peter Jackson se vale da vantagem dos anos à frente de Tolkien para amarrar a trama de uma forma que o escritor não conseguiu nas páginas, a não ser através de apêndices e de outras publicações paralelas.


É nestes momentos de diálogo entre as obras que O Hobbit – Uma Jornada Inesperada ganha força. O esplendor e glória do grande reino anão Erebor (não, não é tema de desfile de escola de samba), a guerra entre orcs e anões, a reunião dos mandachuvas da Terra Média são os mesmos artifícios de que Jackson se valeu na trilogia O Senhor dos Anéis para pintar o grande quadro histórico da Terra Média ao fundo enquanto narra, em primeiro plano, uma jornada perigosa de um grupo de aventureiros (a Sociedade rumo a Mordor/a companhia de anões a caminho da Montanha Solitária). Parece formulaico, e é: o diretor imprime o mesmo estilo narrativo e bate nas mesmas teclas para criar uma coesão, tornar todos os filmes capítulos da mesma saga. É o que jamais aconteceu com Guerra nas Estrelas por vários fatores, a começar pelas limitações de George Lucas como cineasta, passando pela troca de diretores ao longo dos anos, e principalmente por nunca ter havido uma história completa à disposição do narrador. Jackson, porém, teve a faca e o queijo na mão: ele era o único diretor contratado e a trama já estava completa, à espera na prateleira de quem quisesse contá-la. Apesar de haver a curiosidade de saber como seria O Hobbit – Uma Jornada Inesperada dirigido por Guillermo del Toro (que teria assinado o longa-metragem sob a produção de Jackson), não havia pessoa mais indicada para narrá-la do que o próprio Peter Jackson.


Dito tudo isso, O Hobbit – Uma Jornada Inesperada é um filme bom? O longa-metragem é uma aventura juvenil correta que tem cenas exageradamente falsas (mesmo dentro do contexto fantástico) para render na exibição em 3D. Há repetições em excesso de ideias, como a correria por plataformas instáveis (ecos das Minas de Moria e até do King Kong do mesmo Peter Jackson), e a existência de um super orc para ser antagonista do herói (aqui é o orc Azog versus Thorin, como foi o uruk-hai Lurtz versus Aragorn). Nestes momentos, o filme falha e é pobre, mas são ressalvas menores, são problemas de roteiro; quando Peter Jackson exerce a intenção de unir narrativamente os livros, aí sim O Hobbit – Uma Jornada Inesperada evolui de prólogo de O Senhor dos Anéis para um status de saga que jamais teve no papel. Se a impressão vai se sustentar por mais dois filmes, só as continuações de 2013 e 2014 dirão.


O trailer e outras informações estão no site da distribuidora: http://wwws.br.warnerbros.com/thehobbitpart1/index.html

___________________________________________________________________________


André Gordirro, 39 anos, carioca, tricolor, escreve sobre cinema há 18 anos. Passou pelas redações da Revista MancheteVeja Rio, e foi colaborador da Revista SET por dez anos. Atualmente colabora com aRevista Preview e GQ Brasil. Leva a vida vendo filmes, viajando pelo mundo para entrevistar astros e diretores de cinema e, claro, traduzindo para a Galera Record. Nas horas vagas, consegue (tenta...) ler gibis da Marvel, jogar videogames e escrever o primeiro romance (que um dia sai!).

3 comentários:

Aline T.K.M. disse...

O Senhor dos Anéis foi uma leitura bem marcante p/ mim, gostei demais e acho o universo da trilogia impecavelmente construído. Ainda não li O Hobbit (como assim? eu sei...) mas quero muito ver o filme. Na verdade minha curiosidade está mais forte por causa do tal formato diferenciado (o número de quadros por segundo). Quanto ao filme como um todo, não estou esperando tanto assim, porque apesar de ter amado o livro O Senhor dos Anéis, os filmes me fazem dormir.
Gostei bastante do post!

Bjs,
livrolab.blogspot.com

Vivi Maurey disse...

Tirando as partes que vc fala que o autor não soube usar isso e aquilo e não soube fazer isso e acolá (palavras ditas sob o efeito de café ou da própria loucura, estou certa disso), EXCELENTE, Gordirro! AMEI! =)
hihiihihhhihi

*abraço forte*

:*

Janda Montenegro disse...

Faltou amor nessa resenha aí hein!? Rs.
Pode até ser que você tenha razão em alguns pontos técnicos, mas pense que esse filme foi feito para uma nova geração de fãs e, mais ainda, para uma antiga geração que aguardou penosos 11 anos para ver esta película, desde o tempo de quando ainda era boato.
Bota amor nisso aí Gordirro!! Rsrsrs
beijos