5 de dez de 2012

GALERA POP – AS AVENTURAS DE PI

A adaptação do livro A Vida de Pi pelas mãos de Ang Lee (Hulk, O Segredo de Brokeback Mountain) é um triunfo de lirismo visual, em uma das poucas oportunidades no cinema em que o 3D é mais uma ferramenta narrativa e menos um engana-trouxa para faturar na bilheteria. Batizado de As Aventuras de Pi pela distribuidora nacional, o longa-metragem é uma fábula — e, como tal, passeia por vários temas, da existência de Deus à sobrevivência, passando pela maturidade e amizade.

A história é simples, mas fascinante: um rapaz de 17 anos passa 227 dias em um bote salva-vidas com um tigre de bengala. Como ele chegou a esta situação? O indiano Pi — ou Piscine, nome que lhe rendeu apelidos cruéis no colégio — foi criado no zoológico dos pais, que decidem se mudar para o Canadá. A família embarca (com os animais) em um navio que afunda. Apenas Pi e alguns bichos sobrevivem em um bote, mas o tigre chamado Richard Parker dá cabo do resto da fauna. Agora, Pi e Richard Parker precisam conviver em um espaço confinado, menino e fera, em uma jornada com tempestades, racionamento de víveres, tensão entre os colegas de bote, e até uma inacreditável ilha canibal.

O filme já deixa claro que Pi sobreviveu: o filme é contado pelo próprio protagonista, mais velho, que narra a aventura para um escritor. Mas isto não mata a tensão das agruras vividas pelo menino, que se mostra tão engenhoso quanto na época em que se autoapelidou de Pi, o lendário número matemático, para se livrar da perseguição (recuso-me a escrever bullying) dos colegas. Talvez o recurso até ajude a tornar a jornada ainda mais envolvente, pois o espectador passa a torcer para Pi e Richard Parker enfrentarem mais perrengues, uma vez que a sobrevivência do herói está garantida.

Na narrativa do Pi adulto, tudo pode ser mentira ou verdade — como em uma fábula, são as alegorias e metáforas que importam, e neste quesito Ang Lee se vale de um visual impressionante e imersivo para colocar o espectador em um bote, ao lado de um tigre feroz e de um rapaz habilidoso. Mas o grande acerto do diretor é ser lúdico sem ser piegas, ser edificante sem ser chato, é falar de religiosidade e ser ecumênico, usar computação gráfica e 3D para ajudar a contar a história. É uma conquista tão grande — e tão difícil — quanto sobreviver em alto-mar dentro de um bote com um tigre.

O trailer e outras informações estão no site da distribuidora: http://www.foxfilm.com.br/
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André Gordirro, 39 anos, carioca, tricolor, escreve sobre cinema há 18 anos. Passou pelas redações da Revista MancheteVeja Rio, e foi colaborador da Revista SET por dez anos. Atualmente colabora com aRevista Preview e GQ Brasil. Leva a vida vendo filmes, viajando pelo mundo para entrevistar astros e diretores de cinema e, claro, traduzindo para a Galera Record. Nas horas vagas, consegue (tenta...) ler gibis da Marvel, jogar videogames e escrever o primeiro romance (que um dia sai!).

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