4 de jul de 2012

GALERA POP – O ESPETACULAR HOMEM-ARANHA

Os produtores desta (dispensável) reinvenção cinematográfica do Homem-Aranha tiraram dos gibis um dos famosos adjetivos do aracnídeo e tascaram no título para diferenciar este longa-metragem da trilogia de Sam Raimi. Infelizmente, de “espetacular” esse novo Aranha não tem nada: falta aquilo que a expressão em inglês “sense of wonder” traduz muito bem (“sensação de deslumbramento” em bom português). Tudo já tinha sido visto antes e, mesmo que haja um pouco menos de computação gráfica, não justifica passar a borracha no que foi feito antes (e muitíssimo bem feito nos dois primeiros Homem-Aranha de Sam Raimi) para entregar um produto que é morno em emoção.

Seria culpa do vilão que não empolga e não sustenta a trama, muito menos seu plano chinfrim e estapafúrdio (com cenas que remetem ao final de Os Vingadores, aliás)? Seria culpa do diretor Marc Webb, de (500) Dias com Ela, bom nas cenas melodramáticas, mas peixe fora d'água em ação e narrativa super-heroica? Seria culpa dos produtores em querer emular o Batman de Christopher Nolan e passar um verniz dark/adulto/realista em um personagem que justamente é o oposto disso? Voltamos aqui ao problema que permeia O Espetacular Homem-Aranha: não há sensação de diversão, o queixo não cai, o herói está irreconhecível. Não é um mau trabalho de Andrew Garfield, que se saiu bem como Peter Parker, mas sim de tom — que aliás não é totalmente cumprido pelos roteiristas.  

Se queriam um Peter Parker mais pé no chão, como disseram em entrevista a este colunista quando vieram ao Rio para divulgar o filme, por que então, quando ele chega em casa durante a madrugada por noites seguidas, sempre surrado e ensanguentado, os tios não consideram que Peter Parker esteja envolvido com drogas ou prostituição masculina? Se era para ter tom sério, por que parar no meio do caminho? Cria-se então uma distorção, um filme cuja intenção, roteiro e tom não conversam entre si, enquanto as cenas de super-heroísmo do recheio são sem graça e envolvem um vilão que, no terceiro ato, deixou de fazer sentido ou de representar alguma ameaça mais séria.

Para piorar, como bem comentou o colega crítico Lucas Salgado em seu twitter, houve tanta exposição do novo filme na internet que o melhor de O Espetacular Homem-Aranha já foi mostrado em trailers, teasers, comercias e etc. Na intenção de convencer o público que valia a pena dar chance para esse novo Homem-Aranha, eles esvaziaram o próprio filme do pouco de espetacular que a obra tinha. Deixaram o aracnídeo sem fluido de teia na hora do vamos ver.

O trailer e outras informações estão no site oficial.
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André Gordirro, 39 anos, carioca, tricolor, escreve sobre cinema há 18 anos. Passou pelas redações da Revista MancheteVeja Rio, e foi colaborador da Revista SET por dez anos. Atualmente colabora com aRevista Preview e GQ Brasil. Leva a vida vendo filmes, viajando pelo mundo para entrevistar astros e diretores de cinema e, claro, traduzindo para a Galera Record. Nas horas vagas, consegue (tenta...) ler gibis daMarvel, jogar videogames e escrever o primeiro romance (que um dia sai!).

3 comentários:

Pedro Paulo disse...

Particularmente eu acho o antigo Homem-Aranha muito chato, e não gosto dos atores que fazem o Peter e nem a Mary. Eu estou com uma expectativa muito grande para esse novo Homem-Aranha, porque gosto do ator que esta fazendo o Peter e principalmente por ter mudado a atriz que faz a Mary Jane, que no caso agora é a belíssima Emma Stone. Mas cada um tem um ponto de vista e não pretendo criticar ninguém.

espinafrando disse...

Juro que não enxergo essa conexão com Batman Begins. Não vi nada de dark no filme, achei até bem leve. Outra coisa que discordo: não dá pra afirmar categoricamente que o Homem-Aranha é o oposto de dark/adulto/realista: há tantas abordagens diferentes em 50 anos de histórias por dezenas de roteiristas diferentes que quase tudo já foi feito com ele mais de uma vez.

(quer dark? Peter foi assim por uns 3 anos ou mais na década de 90)

Por outro lado, achei brilhante teu comentário sobre o roteiro parar no meio do caminho. Tive a mesma sensação sobre Tia May e Tio Ben não cogitarem o caminho das drogas.

Se quiser, dá uma passada no meu blog, fiz uma longa desconstrução do filme e gostaria de saber sua opinião.

Felipe Manigold disse...

Eu não ia comentar...mas
Bom o trabalho foi bem mais próximo dos Hqs do que a trilogia anterior. O Peter Parker atual tem carisma e convence ao contrario do Toby que tinha aquela cara de chorão em quase todas as cenas. Nesta versão vemos o humor de Peter que acontece nas Hqs, as cenas com a visão do aranha pulando dos prédios e fantástica, que nunca quis ver o mundo pelos olhos do aranha? Não entendi isso “O Espetacular Homem-Aranha: não há sensação de diversão, o queixo não cai, o herói está irreconhecível.”
O vilão é um dos mais famosos na HQ, Games e animações. O casal é o casal que deveria ser utilizado antes, alem do clima que foi criado em torno das dificuldades em ser namorada do cabeça de teia. Não vi nada de Dark como foi dito, alem disso não vi referencia ao modo de filmar ou sombrio de Batman, ainda não consegui entender sua “critica”.