5 de nov de 2015

Galera entre letras: Sobre Calafrios e Gatos

Outro dia um leitor da coluna, Pedro, de 14 anos, que “devora os livros do Bernard Cornwell assim que eles saem”, me fez uma pergunta bem interessante, e eu resolvi respondê-la aqui no espaço.

O Pedro também gosta muito dos irmãos Grimm. Recentemente ele leu um conto chamado “O rapaz que não sentia calafrios” e ficou curioso com a quantidade de versões do título do conto — “O garoto destemido”, “O garoto corajoso”, “O rapaz que saiu de casa para saber o que era o medo”, “O garoto que não sabia o que era o medo”, e é provável que haja outras ainda.

Sempre que eu falo de traduções, eu chamo atenção para o fato de que a tradução é sempre UMA versão (entre muitas) de UM texto ORIGINAL. A tradução sempre é fruto do conhecimento do tradutor, além da época e do local onde ele vive. Por isso que a gente vê tantas traduções diferentes para um único texto original, o que não significa que uma seja melhor que a outra. Elas apenas são diferentes.

Mas voltando à pergunta do nosso amigo leitor, eu quis saber se a tradução que ele havia lido fora feita diretamente do alemão (a língua original dos contos dos irmãos Grimm) ou se tinha sido feita do inglês, ou seja, se era a tradução de uma tradução — ou tradução INDIRETA.

O Pedro ficou surpreso quando fiz a pergunta, porque ele achava que as traduções sempre eram do ORIGINAL. Aí eu expliquei que era comum que textos em idiomas considerados raros ou difíceis fossem traduzidos a partir de outro idioma. Isso costuma acontecer com línguas escandinavas, com o chinês etc., embora hoje a gente tenha ótimos tradutores nesses idiomas. Às vezes, acontece também de o próprio autor, seu agente ou editora sugerir a tradução INDIRETA.



No caso do conto dos Grimm, o texto tinha sido traduzido do inglês para o português, mas não fazia parte da versão mais famosa existente, as Household Stories, traduzidas por Lucy Crane e ilustradas por seu irmão, Walter Crane. [Aqui tem um link pra esta versão!]


Então eu resolvi procurar o texto ORIGINAL pra tirar a dúvida do Pedro em relação ao título da história. Mesmo que não haja versões certas ou erradas, talvez houvesse uma versão que se aproximava mais do sentido original do título da história.

Em alemão, o título diz o seguinte: “Märchen von Einem, der Auszog das Fürchten zu Lernen” ou (numa tradução literal): “Conto sobre Um Rapaz que Saiu de Casa para Aprender O Que Dá Medo”. Já deu pra perceber que “medo” aparece no título e que não tem muito a ver com coragem porque “corajoso” é quem sente medo e o supera. Na nossa história, o rapaz sequer conhece esse sentimento! E dá pra perceber também que, ao contrário da maioria dos títulos dos contos dos Grimm, esta história traz a palavra “conto” no próprio título, como se fosse um conto dentro de um conto!

Curiosamente, a palavra “medo” só vai aparecer mesmo no título. No restante do texto, a palavra usada é “Gruseln”, “aquilo que dá calafrios”.

Mas será que tudo que dá calafrios dá medo? Descobrir a resposta a essa pergunta é uma das graças da história!

E foi isso que eu expliquei ao Pedro, leitor curioso, e fã do Bernard Cornwell e dos irmãos Grimm.

[Infelizmente, eu não encontrei nenhuma edição em Domínio Público das obras dos irmãos Grimm em português, mas nas livrarias vocês encontram várias edições, inclusive das obras completas deles. Vale dar uma olhada neste conto pra entender o mistério dos calafrios!]

Mas… e os gatos do título do artigo?
Por ora, eu só posso dizer que o gato subiu no telhado… (risos)

Até a próxima e boas leituras!

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