17 de jul de 2015

Papos de sexta: Gosto (literário) não se discute

Um antigo ditado sabiamente diz “gosto não se discute, lamenta-se”. Mas em tempos em que tudo é curtido e compartilhado, gosto se discute e muito! Embora, em minha opinião, acho que o termo que deveria ser utilizado é “debate” e não “discussão”. O primeiro implica em argumentos e troca de opiniões,enquanto o segundo é puro barraco.

E é o que tenho visto em redes sociais: muito barraco por causa de gostos literários.



- Você só lê livro jovem. Isso não é literatura!

- Você só lê autor que já morreu. Isso é antiquado!

- Você só lê livro internacional. Isso é um posicionamento contra a literatura nacional!

- Você só lê .... CHEGA!

Quando estava pensando no que escrever para o “Papos de Sexta”, pedi sugestões no meu Facebook e recebi várias, entre elas esse tema. E na própria sugestão, já começou um teteretê por razões de gostos literários diferentes.



Gente, gosto não se discute!Se debate, se questiona e até se lamenta. Mas Não. Se. Discute.

Minha experiência mostrou que, quando a gente ama muito alguma coisa, nos sentimos meio que donos dela, sabe? Por exemplo, quem nunca amou tanto um personagem que sente ciúmes quando outra leitora também confessa seu amor por ele? Quando somos fãs, amamos MESMO, com força e sem restrições, e isso às vezes nos inflama não de uma forma bacana.

Eu amo livros! Amo mesmo! Acho o máximo como eles me fazem sentir e chorar e questionar sem sair do lugar. Amo entender as entrelinhas, os elementos de estilo. Amo tanto que, quando alguém interpreta mal algum ponto de um livro ou se diz apaixonada por um personagem que não gosto por ser abusivo ou mau caráter, levo para o lado pessoal. E, na boa, onde já se viu isso? É muito errado! Já fui muito injusta com outros leitores por achar que a minha opinião era a única correta. O lado bom disso tudo é que entendi onde errei e passei a me policiar quando me sinto assim.

E foi a melhor coisa que já fiz! Quando você se esforça para respeitar o gosto, a escolha do outro, a sensação é tão plena! Recomendo muito! Um sentimento de amadurecimento e de justiça te invade e te cobre como um cobertor quentinho em uma noite fria. E é deliciosa essa sensação de harmonia completa entre o limite da sua opinião e do gosto alheio.

- Você só lê livro jovem. Isso não é literatura!

É sim. Se eu considero bem escrito e provoca algo bacana em mim, considero literatura, independentemente da protagonista.

- Você só lê autor que já morreu. Isso é antiquado!

Contemporâneos e clássicos precisam ser conhecidos para que os momentos sociais sejam sempre relembrados e questionados. Ler quem já passou dessa para melhor é honrar as palavras trabalhadas há tanto tempo e com tanto amor. Recomendo.

- Você só lê livro internacional. Isso é um posicionamento contra a literatura nacional!

Procuro ler o que é bom, independentemente da nacionalidade do autor. Se tem uma boa história para contar, por que não ler?


Uma amigona minha me disse uma vez “julgue o livro e não o leitor” e isso se tornou o meu mantra. Julgar o leitor é julgar a experiência e a vida de cada um. E ninguém é melhor do que ninguém para fazer isso. Já a obra .... bem, vamos seguir lendo porque é isso o que importa!


3 comentários:

Deia disse...

Oi, Frini !

Sabe aquele outro ditado - "Futebol, política e religião não se discutem"? Quem sabe se acrescentarmos o "o gosto literário", nesse ditado, os "barracos" diminuiriam. Sonhar não custa nada, né ??
Já tive algumas experiências, não muito agradáveis, e por conta disso aprendi a respeitar "o gosto" e escolhas literárias das pessoas. E sim, quando a gente se coloca no lugar da outra pessoa, quando se aprende a respeitar mais e a julgar menos, é algo libertador.
Lembrando que esse esclarecimento acontece com pessoas que querem aprender com os erros e evoluir como seres humanos.

Daniel Luis Pereira Ladislau disse...

Destaco esse trecho: "Quando você se esforça para respeitar o gosto, a escolha do outro, a sensação é tão plena! Recomendo muito! Um sentimento de amadurecimento e de justiça te invade e te cobre como um cobertor quentinho em uma noite fria. E é deliciosa essa sensação de harmonia completa entre o limite da sua opinião e do gosto alheio".

Muito bom. Discutir, não, debater, sim. Aprovado.

Raffafust disse...

Frini,
É exatamente o que penso! Ontem mesmo no evento que estivemos juntas lembrei que criticar quem lê Crepúsculo não é bacana, porque imaginam quantas pessoas começam a gostar de ler com algo que você não julgue ser bom, mas só de iniciar o lindo hábito da leitura já é maravilhoso!
Claro que como você citou não somos obrigadas a gostar de tudo, mas aí vem a pérola do tempo da vovó : o que seria do azul se todo mundo só gostasse do amarelo?
Criticar o que se lê é mesquinho, é bobo e nem merece as lágrimas de ninguém.
Adorei o tema o/

beijos