12 de fev de 2015

Galera entre letras: A Fantasia Gaiata


 “A taberna é o centro do universo da fantasia gaiata.”

Na fantasia com “f” minúsculo, a ação e seus protagonistas abandonam os salões e corredores suntuosos dos palácios e vão para os cantos escuros e nem sempre limpos da taberna — ou de lugares piores, até. Não é raro ver um personagem embrenhar-se na floresta e sair cheio de arranhões e hematomas, ou se sujar até o pescoço na lama de um chiqueiro.

Obviamente, a mudança de cenário reflete a mudança dos personagens: já não temos mais heróis em armaduras impecáveis, nem donzelas que, a despeito de todo sofrimento, não tem um único fio de cabelo fora do lugar. E por que essa mudança de cenário e personagens é importante para a ficção fantástica?

Se vocês se lembram da coluna passada, no artigo teórico fundamental para a fantasia, Tolkien estabelece um monte de regrinhas para a criação do texto fantástico, que incluem certo caráter utilitário da fantasia, o qual aparece no “final feliz” e na resolução dos conflitos. E ainda que Tolkien estabeleça uma distinção nítida (e, segundo ele, necessária para que não se julgue o mundo secundário pelas regras do mundo real) entre o mundo real e o mundo secundário, o mundo fantástico reproduz certas concepções moralizantes do mundo real: bem x mal; personagens com características definidas (tudo é preto OU branco; não há sombras nem tons de cinza); para não mencionar a religiosidade a que Tolkien remete em sua tentativa de encontrar “consolo” das agruras do mundo real na ficção.

Ao criticar Tolkien, no artigo Ursinho Pooh, Épico, o pai de Elric de Menilboné, Michael Moorcock, associa corretamente esses aspectos à infantilização da literatura fantástica. E dá pra ir ainda mais longe e criticar o caráter utilitário e apaziguador que Tolkien atribui à ficção fantástica. Quem foi que disse que finais felizes são obrigatórios?! E quem foi que disse que sempre tem que ter um plot twist na trama para nos consolar dos problemas do mundo real?!

A sisudez do discurso (e da ficção tolkeniana) também incomodam bastante; por isso, o riso gratuito de histórias como as das Crônicas de Lankhmar, de Fritz Leiber (pra mim, o inspirador da fantasia gaiata), são tão importantes. Primeiro, porque em suas aventuras, Fafhrd e Gray Mouser estão longe de serem os cavaleiros que estamos acostumados a ver, o que impede a “heroicização” dos protagonistas. Vê-los metidos em encrencas, bêbados ou simplesmente famintos, os torna “humanos, demasiado humanos”, e ninguém que leia o romance vai querer se identificar com dois bandidos metidos a valentões!



E essa é uma das qualidades do texto de Leiber: o texto é puramente literário! Ao contrário das histórias de fadas que Tolkien defende, com suas qualidades específicas (a fantasia, a recuperação, o escapismo e o consolo final), o texto de Leiber não tem pretensão alguma de “cura” da realidade. E justo não pretender nada além do mero caráter literário e fictício da obra é que faz de Leiber um dos grandes.

Na próxima coluna, vou falar de uma menininha que também se tornou grande e que está completando 150 anos! Já sabem quem é?

Até a próxima e boas leituras pra todos nós!

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