15 de jan de 2015

Galera entre letras: Quem é o Pai dessa Criança?

No fim de 2014/início de 2015, li vários textos interessantes sobre literatura fantástica e resolvi que, aos poucos, vou tratar deles por aqui. Mas, pra começar essa conversa, resolvi falar da “paternidade” da fantasia, porque tem muita gente (influenciada pelos filmes do Peter Jackson, provavelmente) que acredita que tudo começou com Tolkien. Mas não foi bem assim...

Provavelmente você já ouviu alguém dizer que J.R.R. Tolkien é o pai da Fantasia com “F” maiúsculo ou ainda, da fantasia épica (ou da “alta fantasia”), aquela cheia de valores arraigados, objetivos nobres, heróis valorosos e mulheres etéreas, certo? Certo, mas a afirmação está errada. Tolkien não foi o primeiro a escrever sobre isso, nem foi o primeiro a enviar o protagonista numa missão perigosa em terras longínquas. Se a fantasia com “F” maiúsculo tem um pai, o nome dele é William Morris.

Em 1894, Morris o equivalente a um designer dos nossos dias (que criava papéis de parede e estampas para tecidos, além de fontes e ilustrações de livros), e que também escrevia textos em verso e prosa publicou The Wood Beyond the World [O Bosque do Além-Mundo], romance no qual vemos alguns dos elementos que vão caracterizar a fantasia épica: donzelas em perigo, um herói obcecado em cumprir sua missão, uma longa jornada e... um final feliz.

No livro de Morris, o choroso herói, Golden Walter, é traído pela esposa e decide partir de navio para conhecer novas e distantes terras. Ao aportar numa região inóspita, ele se apaixona por uma donzela e precisa escapar de se tornar amante da mulher que a escraviza. Os jovens apaixonados fogem, mas são interceptados pelo povo urso, um povo primitivo que passa a acreditar que a donzela é a nova encarnação da deusa que eles adoravam. Walter e a jovem separam-se do povo urso e finalmente chegam ao seu destino: o rapaz se torna rei e desposa a donzela, que, após se tornar rainha, perde seus poderes mágicos junto à virgindade. Mesmo sem poder recorrer à magia, a rainha volta à terra dos ursos e os ensina a cultivar, bem como a manter a paz com seus vizinhos. Walter e a rainha são governantes sábios e gentis, e, ao fim do livro, ficamos sabendo que a longa prole dos dois governou a cidade após sua morte.

Como se vê, além da missão da qual o protagonista se encarrega, o que caracteriza a narrativa de Morris é a criação de um mundo secundário, permeado de seres fantásticos (o povo urso, por exemplo) e de magia. (A gente já falou sobre isso aqui. Basta dar uma olhada nos arquivos, que vocês vão encontrar os textos.) Além disso, é evidente que este mundo secundário tem suas próprias regras: no livro, é justamente a virgindade que garante os poderes mágicos à mocinha (e acrescentar “mais freudiano que isso, é impossível” é uma tentação).

A expressão “mundo secundário” foi usada pela primeira vez por Tolkien, num ensaio famoso, Sobre Histórias de Fadas [On Fairy-Stories], um tipo de carta de intenções do gênero fantástico. Para Tolkien, o mundo secundário seria um mundo autônomo, sem conexão com o nosso, e a comparação com o mundo real poderia até ser prejudicial. Para que tal não acontecesse em sua obra literária, Tolkien encarregou-se de criar um mundo novo em seus mínimos detalhes: em O Senhor dos Anéis, por exemplo, cada folha de árvore é descrita à exaustão. Mas esta obsessão com os detalhes teve seu preço — sabemos altura e compleição de seus personagens e algo de suas motivações, mas eles são apresentados de forma superficial, e as nuances de caráter estão praticamente ausentes.

De todo modo, a carta de intenções de Tolkien determinou tanto a sua literatura quanto a forma como nós lemos e interpretamos a literatura fantástica. Daí, às vezes, confundirmos a paternidade da Fantasia. Se Morris foi o primeiro a abordar a heroica jornada de um indivíduo, Tolkien foi o primeiro a estabelecê-la, de um ponto de vista teórico, o que não deixa de ser um feito importantíssimo!

No próximo artigo, vou falar um pouquinho de Sobre Histórias de Fadas e das questões éticas e estéticas que Tolkien tentou delinear no texto.

Até lá e boas leituras!

Um comentário:

Ana disse...

Ótimo artigo. Tenho esse livro, em outra edição, que procura reproduzir a original embora não seja um facsímile. É um autor que não se pode ignorar quando se trata de fantasia.