30 de mai de 2013

GALERA ENTRE LETRAS: SEGUINDO O CAMINHO DOS LIVROS

Finalmente chegou o dia da minha estreia como colunista no Blog da Galera, e resolvi começar falando um pouco pra vocês sobre o caminho dos livros: do computador pessoal do tradutor até a prateleira das livrarias.

Vou começar falando sobre a tarefa de preparar os originais pra publicação (desde que me tornei colaboradora freelance da Galera, há um ano, preparei onze livros ao todo).
Essa etapa – que vem depois da tradução (vou falar dela da próxima vez) – recebe vários nomes: copidesque, preparação de originais ou mesmo revisão.

Eu costumo dizer que, no fundo, todo mundo no mercado editorial é um viciado em livros (enrustido ou assumido) e, sim, confesso que comecei a trabalhar como copidesque pra poder ler mais livros ainda – além dos que eu traduzo ou leio normalmente –, mas tradução e preparação não deixam de ser um trabalho como outro qualquer, portanto, profissionalismo é fundamental.

Bom, depois que o tradutor envia o texto finalizado pra editora, quem passa a cuidar do livro é o preparador de originais. O trabalho varia de profissional pra profissional, e vou descrever esse processo a partir da minha experiência.

Eu recebo o texto original (o livro que foi traduzido) e o material que o tradutor enviou, e tenho várias tarefas a cumprir nesse momento:
  • ·ver se todo o texto foi vertido pelo tradutor para o português (é normal ocorrerem saltos, e o papel do copidesque é encontrá-los e sugerir traduções para os trechos que faltam);
  • revisar o texto conforme o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (porque tradutor não costuma ter superpoderes pra pensar em dois idiomas e ainda se lembrar de todos os hífens existentes ou dos hífens que se foram J);
  • sugerir mudanças no texto pra que ele soe mais “natural” (ao ler um livro, vocês já se depararam com expressões esquisitas, tipo, “a boCA DELA”?). Pois é... o copidesque tem que ficar atento a isso, o que inclui prestar muita atenção em expressões idiomáticas e checar nomes ou palavras de difícil tradução, ou mesmo a tradução de termos “técnicos” (sabe quando o autor de um livro é entusiasta de lacrosse e resolve mencionar todas as regras deste esporte... e você nunca tinha ouvido falar nisso?! Ou quando o autor é ornitólogo de fim de semana e decide citar os nomes de aves silvestres que você nunca viu na vida?! Pois é, trabalhar com livros pode ser uma caixinha de surpresas!);
  • procurar “furos” no original (isso mesmo! Parece doideira, mas não é raro haver probleminhas no texto original ou mesmo na história, e quem traduz ou copidesca costuma avisar ao editor que, por sua vez, informa ao autor ou ao agente sobre eles. Às vezes, dá pra consertar; outras vezes, o que nos resta é respirar fundo e seguir adiante, porque é caso perdido L).


Mas o mais importante (ao menos, pra mim) é saber que, quando cada um faz a sua parte nesse processo (isto é, quando o tradutor traduz, o preparador prepara e o editor edita), as chances do leitor encontrar um livro lindo, bem traduzido, bem preparado e bem editado na prateleira da livraria aumentam muito!

Infelizmente, durante a preparação, não tenho chance (ou tempo) de trocar figurinhas com os profissionais cujas traduções eu preparo, mas gostaria que eles considerassem o trabalho posterior à tradução como uma colaboração pra tornar ainda mais lindo aquilo que já nasceu bonito J.
Costumo dizer que, se os tradutores e tradutoras são os pais e as mães dos livros, eu sou a tia (favorita =D) deles.

E é por isso, queridos tradutores e tradutoras, que eu queria terminar este primeiro texto, agradecendo a vocês pelas aventuras vividas e pela companhia no último ano, porque, sem vocês, eu não teria descoberto a matemática do AMOR À PRIMEIRA VISTA, nem enfrentado DEUSES GREGOS pra lá de maus ou filosofado sobre CÃES E HOMENS. Não teria visto o FUTURO em 1996, nem ajudado a invocar CONJUROS e reconstituir a ORDEM DIVIDIDA; não teria descoberto a relação entre um NOME e um DESTINO, nem feito poesia e seguido a MÉTRICA. Não ia imaginar que CORAÇÕES e ALCACHOFRAS tinham tudo a ver. Não teria me perdido dentro de uma CASA cheia de SEGREDOS, nem saberia hoje O QUE REALMENTE ACONTECEU NO PERU.

E também não teria pulado de corpo em corpo, não teria sido menino e menina, nem teria vivido seis dias antes e QUARENTA DIAS depois. TODO DIA (mas isso é papo pra outra coluna)

E por falar em viciados em livros, aqui tem um link legal: http://bit.ly/1agsxDD 
(Super me identifico com o 9, o 13 e o 15. E vocês?)


-------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

Ana Resende trabalha como preparadora de originais e tradutora, e é colaboradora da Galera Record, entre outras editoras. Workaholic assumida, não gosta de videogames e sua leitura favorita são os contos de fadas. Acredita que o príncipe encantado existe, só que se perdeu sem um GPS.


Twitter: @hoelterlein

14 comentários:

Pâm Gonçalves disse...

Adoreeeeei a coluna! Mas o que me fez pular da cadeira foi: "O que realmente aconteceu no Peru". AHHHHHHHHHHHHH!

Regiane disse...

Adorei a coluna, Ana! Concordo com você, no fundo quem trabalha com livros é mesmo apaixonado por eles. E parabéns por seu trabalho de primeira, sempre!
bJS

Patricia Fernandes disse...

Adorei a coluna, é muito bom saber o que acontece com os nossos queridos livros antes que eles cheguem a nós.E também ajuda com aquele momento que encontramos um erro no livro a entender que não responsabilidade unica do tradutor ou revisor, que esse erro pode vir do original também...

Núbia disse...

Adorei a coluna e o texto além de informativo ficou muito divertido (a rima não foi intencional). Vai ser interessante acompanhar com mais detalhes o processo de produção/publicação dos livros. Parabéns!

Marijleite disse...

Que legal saber mais um pouquinho sobre o trabalho até o livro ficar pronto.
petalasdeliberdade.blogspot.com

Irene Moreira disse...

Poxa me coloquei em seu lugar absorvendo cada momento que viveu e nos narrou com tanta paixão que fica difícil não sentir a beleza desse trabalho.

Não posso dizer que seja tão Workaholic ,mas não vivo sem um livro para ler, uma história para contar.
Poder unir o amor, a paixão ao trabalho é uma benção.

Parabéns pela coluna e agora que começou quero mais.

Beijos

Saleta de Leitura

Cachola Literária disse...

Simplesmente perfeito!
Adorei a coluna e me diverti muito!

Sucesso e boas leituras!
@ZildaPeixoto
Blog Cachola Literária

Daniela P. B. Dias disse...

Adorei a estreia, Ana! Lembrar dessa turma que "faz nascer" cada livro é um jeito bacana de contrabalançar a rotina solitária da tradução. E um viva às equipes afiadas e aos livros bem-nascidos! ;)

Mônica Bento disse...

Nova cluna ótima! Tb adorei (como todo mundo aqui hehe). Só não sei o que aconteceu no peru, agora vou ter que procurar a referência e descobrir de uma vez hehehe

Anônimo disse...

Eu entendi a indireta direta?! Vocês vão publicar EVERY DAY do David?! E O Que Aconteceu no Peru da Cassandra?! SENHORRRRR! *---------*

Aliniane disse...

Que encantooo!
Como é inexplicável ficar mais informada sobre os livros.

Parabénsss,querida!
Beijos!

@Alinianee

Anônimo disse...

Ana - Sonhei : Apareça um livro para falar do CRIAR um livro. APARECEU.
HOJE, surge esta maravilhosa aula das ALMAS de livros. Sebastião.

Anônimo disse...

Estou arrepiada. Que forma linda e leve de se falar sobre o nascimento de livros. Estamos aqui para aprender e ler. Diga mais, mestra. Angelica.

Anônimo disse...

Ana, sendo eu leitora assídua, compreendo a sua felicidade diante dos livros. Eles são preciosos amigos, ora nos ensinando, ora nos divertindo. Não nos faltam! Perpétua.