12 de abr de 2013

PAPOS DE SEXTA – LÊ PRA MIM – POR FRINI GEORGAKOPOULOS



Experiência, carinho sem fim, cuidado, amor. Minhas avós foram grandes inspirações na minha vida, grandes presenças. Minha avó paterna me levava muito ao teatro quando eu era pequena, e um dos grandes momentos da minha vida foi poder tê-la na plateia quando me apresentei com a companhia de sapateado que integrava. Foi do palco do teatro Villa-Lobos, no Rio de Janeiro, que pude avistar sua cabeça branca nas primeiras fileiras, seus olhos escuros fixos em mim, orgulhosos. Embora ela não esteja mais por aqui, essa é uma das inúmeras lembranças dela que nunca vou esquecer.


Já minha avó materna mora comigo e vem dela meu interesse pelo cinema. Foi sentada ao lado dela, até de madrugada, que assisti aos musicais antigos como “Sete Noivas para Sete Irmãos” e a filmes clássicos como “E o Vento Levou”. Perdi a conta de quantos filmes assistimos juntas. Foi com ela que descobri a ferocidade e a paixão de Heathcliff, protagonista de “O morro dos ventos uivantes”, interpretado por Sir Lawrence Olivier, e a graça de Jerry Lewis. Ela me levou para ver o primeiro “Batman” no Teatro Chinês, em Los Angeles, e eu a levei para ver “Drácula de Bram Stoker” no Barra Shopping.

Atualmente, a visão da minha avó está muito debilitada, mas isso não a impede de ver filmes. “Coloca no SAP para eu identificar quem é o ator”, ela pede. Mas a visão a impede de voltar a ler. Fico triste com isso porque sei que era algo que ela também gostava muito de fazer. Mas vocês acham que isso desanimou a Dona Helena, nascida em Alexandria? Nada!
“Lê pra mim, Frini”, ela pediu quando contei para ela que havia terminado meu segundo conto. Eu já havia lido o primeiro, que era bem romântico, e ela tinha adorado. O segundo também é bem fofinho, mas com um final mais feliz do que o primeiro e com uma pegada mais gótica, elementos que expliquei para ela, e ela adorou a mistura (até porque foi ela que me apresentou a Vincent Price!). Então eu sentei e li, interpretando o texto com carinho, com cuidado.
A cada quebra de frase, olhava para ela, e seus olhos verdes acinzentados estavam fixos em mim. Conforme a história avançava, ela se aninhava no meio de almofadas e quase não piscava. Quando a narrativa entrou no romance, ela levou as mãos ao rosto, tão apaixonada pelo protagonista quanto eu. E quando terminou, ela sorriu e sussurrou um “que lindo”. E aí começamos a debater o conto, o que ela havia achado, o que eu poderia melhorar, e como ela imaginara os personagens. E ela descreveu o “gatinho” do meu conto exatamente como eu o tinha imaginado, sendo que não usei muitos detalhes na escrita. Quase chorei!

“E aquele do padre, quando você vai acabar? Quero saber o que acontece. E o seu livro?”, continua pedindo.

Depois de terminar essa coluna, li para ela também, e, mais uma vez, os olhos de um verde acinzentado único, brilharam. Ela me abraçou e falou “lindo, lindo, obrigada” ao pé do meu ouvido, com a voz embargada.

Minha avó despertou em mim a paixão por personagens, e essa é a maneira que encontrei para retribuir: escrevendo os meus e dividindo-os com ela. E tem maneira melhor?

OBS: Para quem se perguntou “que padre?”... Bem, vamos dizer que nem todos os contos que escrevo são ingênuos.

7 comentários:

Raffafust disse...

FRini

Como vc sabe perdi minha querida avó há pouquíssimo tempo!
É com os olhos cheios d'água amiga que li esse seu lindo texto!
Minha avó era fofa, me incentivava , me amava de um jeito que nunca vou conseguir explicar!E vendo o carinho pela sua digo: que lindo! que ela veja o quanto vc a ama e entende que com a senioridade algumas coisas ficam defasadas mas o carinho com elas é sempre tão grande que sentimos prazer em reverter os papéis, ontem era ela que lia para vc, hoje vc o faz!
CLAP, CLAP, CLAP! Sorte de vcs terem uma a outra!
Um beijo imenso em vc e nela :D

Pati disse...

...

<3

Mari disse...

Que lindo, Frini! Também sou muito apegada à minha vó. Inclusive, foi ela que me ensinou a ler, quando eu tinha uns 5 anos.
Li o seu conto do padre e achei sensacional. Quando poderemos ler os outros?

Beijinhos

Frini Georgakopoulos disse...

Obrigada pelos comentários, gente. Realmente, minhas avós são algo de incrível na minha vida e sei que as de vocês também. :)

Mari, o do padre eu vou expandir por pura pressão! HAAHAH! os outros ... bem, vamos ver se consigo publicar :)

beijos

Irene Moreira disse...

Impossível não se emocionar com seu texto.
Quantas recordações que passaram por mim quando fala sobre os musicais antigos. Minha saudosa avó e mãe adoravam. Assisti muitos e "Sete Noivas para Sete irmãos" foi inesquecível e ainda mais estando na adolescência cada irmão era um "pão" como se dizia na época. Claro que E o Vento levou foi marcante e tenho o DVD e volta e meia mato as saudades.

Linda e muito fofa a sua vovó e que Deus abençoe esse amor, esse carinho, essa troca que vai carregar para sempre consigo e dividir conosco essa sintonia tão sublime.

Agora vou correndo ler o seu conto do padre.

Beijinhos

Saleta de Leitura


Vivi Maurey disse...

Ai, Frinoca... chorei lendo sua coluna. Tô mega sensível...
que lindo!

Mandy Evans disse...

Que lindo, Frinê!

Só de falar em avós eu já fico #mimimi, não sei o que faria sem a minha <3