16 de jan de 2013

GALERA POP – DJANGO LIVRE



Na cruzada para passar a limpo os gêneros que marcaram sua formação cinematográfica, Quentin Tarantino chega ao faroeste-espaguete com Django Livre, em que imprime toques da mesma blaxploitation que permeia o resto de sua obra. Como praticamente todos os filmes do cineasta, esta é mais uma história violenta de vingança. No Sul dos EUA, em 1858, três anos antes da Guerra Civil norteamericana, um escravo livre, Django (Jaime Foxx), torna-se caçador de recompensas e vai atrás da esposa, Brunhilda (Kerry Washington), que pertence ao cruel fazendeiro escravagista Calvin Candie (Leonardo DiCaprio). O diretor, porém, deixa claro que mais importante que o resgate é o ajuste de contas de Django — como manda um bom faroeste do subgênero italiano que Tarantino reescreve com a verborragia e o verniz pop de sempre.

Django Livre tem quase três horas de duração, sendo que uma delas deve ter sido gasta apenas nas excessivas câmeras lentas. O filme é longo demais e atira em muitos alvos, infelizmente sem a precisão do protagonista. É feito de partes desconexas e banais, até que se revela “um filme de Quentin Tarantino” na parte da trama dentro da mansão do vilão.

O longa-metragem acerta em alguns pontos, no deboche demolidor contra o ridículo da Ku Klux Klan (a cena dos sacos de pano na cabeça é impagável), à inclusão de Samuel L. Jackson como um escravo de 76 anos que é o responsável pela fazenda de Calvin Candie — e é tão feitor dos demais escravos quanto os patrões brancos. É um dos personagens mais complexos e interessantes de Django Livre, ao lado do caçador de recompensas abolicionista vivido por Christoph Waltz, que ganhou um Oscar de ator coadjuvante pelo nazista de Bastardos Inglórios (também de Tarantino).

O pé de barro do filme está justamente em Django. O papel foi pensado para Will Smith e acabou nas mãos de alguém que desaparece ao lado de Christopher Waltz. O nome do protagonista está lá no cartaz, mas Jaime Foxx não se impõe e perde o filme para o colega de elenco. Talvez pela motivação rasa, Django é a pessoa menos interessante na tela, por mais que o roteiro se esforce em dizer que o personagem se destaca e chama atenção. Mas a boa intenção morre nas (muitas) palavras do texto de Quentin Tarantino, e Foxx não segura o longa-metragem.

Como sátira/faroeste revisionista, Django Livre se equilibra em uma corda bamba perigosa: é ao mesmo tempo uma obra crítica e voyeur da escravidão. Mostra o cotidiano de sofrimento dos negros com requintes de crueldade, no limiar entre a denúncia e a apreciação sádica. Ao menos é um filme que não passa em branco (desculpem o trocadilho).
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André Gordirro, 39 anos, carioca, tricolor, escreve sobre cinema há 18 anos. Passou pelas redações da Revista MancheteVeja Rio, e foi colaborador da Revista SET por dez anos. Atualmente colabora com aRevista Preview e GQ Brasil. Leva a vida vendo filmes, viajando pelo mundo para entrevistar astros e diretores de cinema e, claro, traduzindo para a Galera Record. Nas horas vagas, consegue (tenta...) ler gibis da Marvel, jogar videogames e escrever o primeiro romance (que um dia sai!).

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