19 de set de 2012

Galera Pop - Ted

Esta é uma das fábulas recorrentes da comédia moderna: o conto do crianção, aquele homem imaturo na faixa dos 30 e 40 anos que não quer largar o osso da pré-adolescência e assumir as responsabilidades que a sociedade careta impinge (relacionamento, carreira, filhos). Dentro desta vertente, surge uma comédia que realmente tem um aspecto fabuloso, pois envolve a amizade entre um homem (Mark Wahlberg) e seu ursinho de estimação falante, Ted (voz de Seth MacFarlane). MacFarlane é o pai do desenho Uma Família da Pesada e concebeu Ted inicialmente como uma série animada; não por acaso, sua estreia como diretor em cinema live action parece um desenho filmado, com o mesmo ritmo de piadas e clima de absurdo geral. O ursinho Ted é uma cornucópia de tiradas grosseiras, preconceituosas e politicamente incorretas; ou seja, é aquele melhor amigo que enche a cara e fala besteira com você enquanto os dois assistem a qualquer porcaria que passa na TV. No caso, a porcaria predileta da dupla é a versão de Flash Gordon dos anos 80 — a década, aliás, é tipicamente reverenciada e satirizada neste subgênero atual de comédia.
Como não é possível fazer um longo esquete de humor com a mesma piada, MacFarlane usa a base de uma comédia romântica tradicional (casal tem crise/briga/se separa/volta) para rechear Ted com uma história banal: o personagem de Mark Wahlberg não evolui no emprego e nem no relacionamento com a namorada (vivida por Mila Kunis, dubladora de Uma Família da Pesada) pois passa os dias bebendo, zoando e fumando maconha com Ted. Quando ela coloca o namorado na parede, no estilo “ou o ursinho ou eu”, ocorre o conflito nos relacionamentos que desemboca em um final de ação um pouco forçado e fora de tom. Mas tudo isso é mero suporte para o que Seth MacFarlane realmente pretende: despejar várias piadas por segundo e fazer comentários ácidos e cínicos sobre qualquer assunto, agindo sob o disfarce do ursinho fofo, uma espécie de desculpa para dizer qualquer coisa impunemente. Se os mesmos diálogos saíssem de um personagem de carne e osso, Ted provocaria aquele constrangimento das criações de Sacha Baron Cohen; aqui, eles se tornam ainda mais engraçados pelo aspecto surreal do brinquedo falante. MacFarlane é como um humorista e seu fantoche.
Ted é engraçado, divertido e inteligente dentro da grosseria, e genuinamente grosso quando deixa a inteligência de lado. Só podia ter uma história menos moralista para um personagem tão amoral.

O trailer e outras informações estão no site oficial.
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André Gordirro, 39 anos, carioca, tricolor, escreve sobre cinema há 18 anos. Passou pelas redações da Revista MancheteVeja Rio, e foi colaborador da Revista SET por dez anos. Atualmente colabora com aRevista Preview e GQ Brasil. Leva a vida vendo filmes, viajando pelo mundo para entrevistar astros e diretores de cinema e, claro, traduzindo para a Galera Record. Nas horas vagas, consegue (tenta...) ler gibis daMarvel, jogar videogames e escrever o primeiro romance (que um dia sai!).

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