9 de mar de 2012

Papos de sexta – Não julgue um livro pela capa, por Frini Georgakopoulos

Como o dia a dia no meu trabalho é insanamente corrido, procuro sempre carregar comigo o livro da vez para ler na hora do almoço. Sento no balcão de um restaurante perto do trabalho, almoço e leio ao mesmo tempo. Faço tanto isso que um dos rapazes que me atende pergunta sempre como está a leitura. Minhas respostas variam de “Ótima! Estou quase descobrindo quem é o assassino” até “Nossa, o casal principal TEM que ficar junto! Termino esse livro hoje, sem falta!”.  

Um dia, na semana passada, lá estava eu, comendo e lendo (uma obra jovem adulta escrita por um amigo meu, diga-se de passagem), quando uma pessoa conhecida sentou ao meu lado e se entortou toda para ver a capa do meu livro.


– Qué isso? – perguntou a “fofa”.

Confesso que minha vontade foi responder “Um livro. Para você, deve ser algo muito raro de se ver. Quer tocar?”. Mas fui fina e apenas virei a capa para que ela visse. Me arrependi.

–  Pô, tu num tá velha demais pra ler isso não?


– Qual livro você está lendo? – respondi diretamente, tentando controlar todas as outras respostas sarcásticas que me vieram à cabeça. Afinal, ela não entenderia e isso me deixaria ainda mais irritada.

Sabe qual foi a resposta da criatura? Um título de autoajuda! Quando soltei o nome da categoria do livro, ela ficou zangada e disse que não lia só autoajuda. Adorava livros psicografados também.

Quase explodi em fogos de artifício bem ali, no meio do restaurante! Eu sou velha demais para ler romances juvenis, mas não ter autoestima ou me amarrar em ouvir contos do além não tem problema, né? O ódio era muito, mas lembrei que sou fina (mesmo querendo esquecer) e apenas consenti. Em seguida, voltei ao que estava fazendo e continuei a leitura e o almoço, só que agora mais rápido para evitar que ela puxasse o assunto novamente.

Depois, em casa, enquanto terminava o livro, pensei sobre o que aconteceu e fiquei com mais raiva ainda. Ela não tinha o direito de me julgar pelo livro que eu estava lendo, mas eu também não tinha o direito de fazer o mesmo com ela. Lembrei de quando li “O Segredo” e “Violetas na Janela”. O primeiro veio em tempos que estava, sim, me sentindo para baixo. Já o segundo, li imediatamente após o falecimento da minha avó paterna. Em ambos os casos, esses livros me ajudaram demais e, por mais que não procure mais obras desses gêneros, me foram úteis quando precisei. O mesmo acontece com a literatura jovem adulta: pra mim, esses livros são como uma visita à minha adolescência, que eu amei (e que já comentei por aqui). Também amo romances sobrenaturais, porque juntm essa nostalgia com um toque sombrio que eu também adoro. E a lista continua ... 

Todo livro que leio é uma escolha consciente minha, feita para amparar o momento que estou vivendo. Às vezes quero sentir frio na barriga com um romance meloso entre um vampiro e uma menina mortal; em outro momento, quero voar nas costas de um hipogrifo e acreditar que a amizade e a lealdade salvam o mundo; em outros, ainda, quero esquecer dos apuros da vida real e pular de susto ao ler sobre criaturas que esperam o anoitecer para assombrar os vivos.

Leio um pouco de tudo não só por ser culta, porque está na moda, porque quero, porque preciso, porque é o certo a fazer, mas por todas essas razões juntas e muitas outras. E não quero ser julgada ou definida por nenhuma delas. Julgar o que eu leio é o mesmo do que julgar um livro pela capa: você não sabe o que tem dentro, o que o fará virar as páginas, ou não. Quem nunca comprou um livro – ou pensou em comprar – apenas pela capa? Se você está pensando “Eu fiz isso”, não está sozinha. Mas você já descartou um livro pelo mesmo motivo? E uma pessoa? Acho que temos que prestar mais atenção às sinopses e arriscar mais, mesmo quando o exterior não aparente ser tão convidativo. Nossa ... chega! Tô parecendo livro de autoajuda. J

17 comentários:

rscarone disse...

"Mas você já descartou um livro/pessoa pelo mesmo motivo?"

Várias vezes. E o livro as vezes tem um resumo na 4ª capa... a pessoa, not that lucky.

'Dorei a coluna!

Bjs

Elaine Maciel disse...

Nossa, gostei muito do seu desabafo, se é que podemos chamar assim...rs
Eu leio de tudo também, mas já tive muitos pré-conceitos sobre alguns gêneros como o auto-ajuda. Hoje tenho me livrar destas "ervas daninhas" e me preocupar mais em o que o livro tem pra me dizer, me contar, me convencer ou me entreter!
Um beijo...

Raffafust disse...

OI Frini

Super curti seu texto porque né...as pessoas são tão sem noção e estão sempre julgando! o que é péssimo, porque você tem que ser educada mas a pessoa não foi nem um pouco com você.
Quem mesmo disse que existe faixa etária para livros? A mesma pessoa que deve ter achado anos atrás que jamais seria possível criarem computadores e tantas outras tecnologias? ah sim, porque me parece coisa de gente sem cultura, de gente que nem sequer pensa...precisa de muita ajuda sim, em todos os terrenos, divinos e terrestres...tenho pena...e só! rs

Bjos

Tefinha disse...

Quando estava na 8ª série, tive de ler "A Droga da Obediência", do Pedro Bandeira, para fazer uma prova. Quando vi a capa (que é essa aqui: http://1.bp.blogspot.com/-slNNSL_UsWc/TpMK-k2ZERI/AAAAAAAABMY/r_Y-OnsUYQc/s1600/A+Droga+da+Obedi%25C3%25AAncia.jpg )pensei: Putz, não vou gostar. Leigo engano. A capa dele não é muito bonita ou chamativa, mas a história e a narrativa são excelentes.

Agora, já comprei o livro por achar a capa bonita e me decepcionei DEMAIS. O dito livro foi "O Guia Do Mochileiro Das Galáxias". Não gostei meeeeesmo.

Depois dessas duas situações, aprendi que nem sempre um bom livro vai ter uma boa capa, e que nem todo livro de capa bonita vai ser bom.

Tefinha - http://aminhadimensao.blogspot.com/

Janaina disse...

Com certeza todos já comprou um livro só pela capa bonita ou maneira (estou com um lá em casa com a capa linda mas ainda não li).
O que me irrita é as pessoas acharem que podem decidir o que a gente pode ou não ler. "Vc não é velha pra esse tipo de livro?" Desculpa, mas vc pode ser, mas o corpo pode envelhecer, mas nossa mente não precisa envelhecer junto. Cabeça pequena e velha dessa pessoa.
Sou que nem vc, leio o que quero sentir no momento e procuro nunca ter preconceitos pq já quebrei muito a cara achando que ia achar o livro um saco e acabei me apaixonado por ele! :P
Beijos
Jana

@gabsplace disse...

HAHAHAHAHAHHAHA, amei!Você é ótima.
Lendo, percebi que eu j comprei muito pela capa mas nunca fui de descartar conteúdo pelo mesmo motivo. :)
Um beijo.
Gabi

Regiane disse...

O mundo é todo assim, infelizmente. Te julgam porque vc tem tatuagem, porque você tem piercing, porque você é branquela, porque você prefere usar tênis e não usa salto, porque você ouve determinado tipo de música... E por aí vai. Meu trabalho já foi visto como fácil e julgado como sub-gênero de literatura, classificado como coisa temporária "até eu conseguir coisa melhor". Uma palhaçada. Todo mundo seria mais feliz se se permitisse curtir o que gosta sem medo do que os outros vão dizer. Não tem nada melhor do que se entregar aos seus prazeres de leitura, música, cinema e qualquer outra coisa que te faça feliz.
(Lembrei que na escola, quando eu tinha cabelo curtinho e arrepiado, o professor de biologia me encaminhou pra orientadora porque achou que eu estava passando por problemas. Por causa do meu corte de cabelo. Pois é.)
Bull's eye, de novo, Frini.
Bjs

Anônimo disse...

Bom, eu prefiro comprar livros por indicação, porque já sofri muito comprando só pela capa... Aliás, como confessei no meu face, só comprei a coleção da Stephenie Meyer porque você falou bem e confio na sua opinião. Adorei a coluna!

Bjs,

Thalita

Janaina disse...

Hehehehe consertanto: "... todo mundo já comprou..."

Vivi Maurey disse...

Pois é....
lembro na época que eu trabalhava na Harlequin e via muita gente falando mal de livros eróticos de banca. Sério. Existe gosto pra tudo, cada um tem o seu e essa coisa de ficar ditando o que é regra ler e o que não 'pode' é bem boboquice e infantil mesmo. :/ E já li livros maravilhosos de capas pra lá de duvidosas, rs.

Adorei a coluna de hoje! Bj!

Gabi disse...

Muito bom esse papo de sexta, porque isso já aconteceu com TODO MUNDO! Pena que eu, em minhas respostas, nunca fui tão delicada como você.

Abraço
www.livrosecitacoes.com

Verônica Sobreira disse...

É sempre assim, as pessoas também nos julgam pelas capas do livros que lemos. Sou professora de ensino médio e sou muito preocupada com quem não lê. Por isso , leio de tudo um pouco, até para saber o que estou falando. Leio muitos livros jovem-adulto, porque convivo com eles, porque gosto e também porque revisito minha adolescência, quando infelizmente não podia comprar livros e pegava emprestado em bibliotecas ou com amigas que podiam comprar. Hoje, eu posso compra, empresto para quem não pode. Vejo tudo que estão publicando e tento me manter atualizada.

VOLLZIN disse...

Acho que isso já aconteceu com todo mundo. A gente acaba julgando alguém que tá nos julgando sem sentir. Eu já fui mais de ficar fazendo conta com capa, mas fui me arrependendo com as escolhas que estava fazendo, refleti e mudei meu método.
Sempre tento ler a sinopse e o texto da orelha dos livros que vou comprar, já que às vezes eles são distintos. Claro que vai aparecer aquele livro que parece ser superbom - que talvez tenha até uma capa boa -, mas que te decepciona. Também deixei de ter preconceito com autoajuda, porque há uns livros mais voltados para a interpretação da mente e das suas ações que sempre trazem algo de novo e bom pro seu dia a dia. Nunca li livro espírita, mas se a pessoa é feliz lendo e o livro faz ela refletir sobre algo, pra mim é válido.
Adorei a coluna de hoje; adoro textos reflexivos que relatam algum fato do dia a dia do autor, que o levou a refletir aquilo. O seu texto já tá nos meus favoritos.

Abraços,
Maicon Z. Vollzin -- The Vollzin Post

Jane C. disse...

Adorei a coluna,Frini!
Realmente é muito chata essa patrulha feita em torno do que gostamos.As pessoas têm mania de rotular e criticar o que nem conhecem, e nessa perdem oportunidades de conhecer muitas coisas que poderiam enriquecer suas vidas com informação ou entretenimento. Acho que todos já cometeram esse erro de julgar o livro pela capa-para o bem ou para o mal. Mas é importante darmos a eles uma oportunidade, nem que ela seja apenas ler a orelha.Quanto a julgar as pessoas pela capa...Bem,aí já é um pouco mais complicado...

marcelgomprime disse...

Amei a coluna!

Acho que se todos pensarem igual a essa mocinha, então os livros infantis só poderão ser escritos por crianças e os juvenis por adolescentes.

Eu explico.

Acredito que, para que um autor possa escrever para o público jovem, ele precisa conhecê-lo, saber como pensam as crianças e os adolescentes, e ler muito material voltado para eles. Precisa, principalmente, GOSTAR do que lê, senão esse autor estará se enganando e fará um trabalho mal feito.

Agradeço todos os dias por ter conseguido manter até hoje uma criança dentro de mim, que gosta de colecionar bonequinhos, jogar videogame, ler quadrinhos e, sinceramente, o que outros pensam a respeito disse pouco me importa, pois quem paga as minhas contas sou eu.

Contudo, é fato que existe, sim, preconceito dentro de nós. O tema da coluna não é julgar um livro pela capa, mas julgar a pessoa pelo tipo de livro que está lendo. É uma babaquice, mas acontece.

Também já tive preconceito com livros de auto-ajuda, até ler um livro que me ajudou muito chamado O Monge e o Executivo. Terminada a leitura, tive que calar a boca. Um livro ser bom independe do estilo. Só depende de cumprir com sucesso o seu propósito. Pronto.

Nunca tive a oportunidade de ler um livro psicografado, mas confesso que tenho curiosidade. Se me recomendassem um eu o leria, sem problemas.

Ana disse...

adorei!!!
quantas e quantas vezes não fazemos isso... seja com livros ou pessoas...
eu mesma sou prova viva disso, qdo as pessoas não me conhecem me acham (julgam) metida, arrogante, mas quando me passam a me conhecer veem q não é nada disso....
e eu mesma, quantas vezes já não olhei para algum livro com a cara meio amarrada, mas depois me supreendi enquanto outros q a capa era super legal e o conteúde nem tanto...
e só pra finalizar... eu tb adoro livros que me remetem a adolescencia!!! é bom demais!!!!!

Carol Ardente disse...

Tem pessoas que julgam e sentem orgulho disso, o que é pésismo. Eu tento não julgar, mas há situações que são impossíveis de não fazer isso. Ano passado eu tive uma vontade de comprar livros só pela capa, mas me segurei nisso e voltei a ler as sinopses. Eu acho que se a sinope não foi muito chamativa, o leitor deve ler o primeiro capítulo e ver se gosta. Eu tenho orgulho de ler livros sobrenaturais, YA, suspense e terror, e o impprtante é que lemos! Fico muito feliz em ver pessoas que estão lendo e que essa situação está mudando. :)
Adorei a coluna, Frini!
Beijos ;*