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14 de abr. de 2016

Galera entre Letras: O Meu Autor Favorito, Esse Desconhecido

Não sei se essa situação já aconteceu com vocês: vocês adoram um livro que pouca gente — ou ninguém — conhece.

Bom, isso volta e meia acontece comigo e pelos mais variados motivos. Primeiro, porque eu leio em outros idiomas, além do inglês. Depois, porque eu gosto de vários gêneros literários e nem sempre quem convive comigo gosta ou conhece esses gêneros. Mas, em geral, isso acontece porque o mercado editorial em todos os idiomas é bastante grande e, como eu já comentei aqui com vocês, nem sempre os livros que saem no exterior são publicados aqui no Brasil.

E também já aconteceu, claro, de receber boas dicas de amigos sobre autores que eu não conhecia! Não dá pra saber de tudo o tempo todo! rs

Hoje eu quero falar de dois autores dos quais eu gosto muito, que foram premiados no exterior, mas que pouca gente conhece: Frances Hardinge e César Mallorquí. Uma autora inglesa e um autor espanhol que já receberam muitos prêmios por seus livros e que fogem um pouco ao tipo de livros com os quais estamos acostumados. Pra falar deles, escolhi o meu livro favorito de cada um. E, por coincidência, os dois foram publicados há alguns anos, em 2012!

Pra quem tem facilidade com idiomas, as primeiras páginas do livro do César Mallorquí estão disponíveis no site da editora que o publicou na Espanha (seu idioma original), aqui.

O livro do César se chama “La Isla de Bowen [A Ilha de Bowen]”. Eu adoro livros de aventura que se passam em alto-mar e “La Isla...” além de ser um livro de aventuras, também é um livro policial! A melhor maneira de descrevê-lo é como um mash-up entre “A Ilha do Tesouro” — um clássico dos livros de aventuras em alto-mar! —, “A Liga dos Cavalheiros Extraordinários” e as aventuras de Sherlock Holmes. E no livro tem um personagem que homenageia um autor famoso, que também é homenageado em “A Liga...”! A história se passa no início do século XX e traz vários detalhes interessantes sobre as expedições exploratórias aos círculos polares — a ilha de Bowen do título fica bem além do Círculo Polar Ártico —, além de um mistério de arrepiar os cabelos.


“A Face Like Glass [Rosto de Vidro, numa tradução bem livre]”, da Frances Hardinge, é um dos livros YA mais bonitos que já li! A história se passa numa cidade subterrânea conhecida como “Caverna” e a população de lá não sabe demonstrar emoções. Seus rostos não têm vida e qualquer emoção ou lembrança é apagada de suas mentes por meio de vários artifícios. Pra aprender a demonstrar as emoções, é preciso pagar caro (literalmente!). Até que Neverfell, uma garotinha sem memória, aparece na cidade e se torna uma ameaça à sua aparente ordem — Neverfell demonstra o tempo todo o que sente em seu rosto.

O livro questiona o fato de nos basearmos nas aparências e o quanto as nossas emoções são reprimidas em consequência disso.


Pra quem quer conhecer esses dois autores, acho que “La Isla...” e “A Face Like Glass” são uma bela introdução, e podem ser encomendados nas livrarias mais conhecidas.

E vocês? Têm alguma dica de livro que pouca gente conhece?

4 de fev. de 2016

Galera entre Letras: Sobre Maus Mocinhos

Acho que agora já deu tempo de todo mundo ver O Despertar da Força, né? E aí o que acharam?

Eu gostei bastante do filme --- mesmo vendo alguns problemas na segunda parte ---, curti muito os personagens jovens (tem como não se apaixonar pela Rey e pelo Finn?!) e senti a mesma emoção que tive ao ver a trilogia original (os episódios IV, V e VI).

Ah! E foi a primeira vez que eu fui ao cinema pra ver Star Wars!

Mas um dos meus personagens preferidos foi também um dos mais criticados e “polêmicos”.

Já sabem de quem eu estou falando? Exatamente! Do Kylo Ren!

Muita gente reclamou que Kylo é um vilão caricatural, mimado e que não faz jus a uma série como Star Wars, que nos legou, talvez, um dos vilões mais brilhantes do cinema: Darth Vader. Bom, eu concordo com o elogio ao Vader e, pra mim, O Retorno de Jedi é um dos melhores filmes que já vi na vida justamente pelo “embate” entre Luke e Vader. No filme é que conhecemos Vader realmente em toda a sua complexidade de vilão.

Mas nós já conhecemos Vader como vilão (posteriormente como Anakin, mas eu nunca assisti aos primeiros episódios! rs e não vou comentar sobre o que não sei) ao passo que conhecemos Kylo em processo de formação rumo à vilania.

Kylo é o filho de Leia e Han, que se rebela contra o tio, Luke Skywalker, e decide, à revelia da família, abraçar a mesma causa do avô, a quem, óbvio, ele nunca conheceu.

Fica evidente, nos gestos e nos ataques de raiva de Kylo, que ele está muito longe do autocontrole e do controle da Força – ele e Rey, que também tem a Força, mas não tem treinamento algum, estão no mesmo nível de formação, por assim dizer.

Nos próximos filmes, acho que veremos Kylo dominar a Força e se dominar, se ele quer mesmo seguir os passos de seu avô. Mas o vilão Vader tinha motivos concretos para se juntar ao lado negro da Força (a vontade de Poder nele era grande…). Ao contrário de Kylo.

Essa, talvez, seja a grande sacada do filme.

Os motivos de Kylo parecem ser os mais pueris: além de idealizar um parente que nunca conheceu, quais seriam as motivações reais de Ren, o filho (único?) de Han e Leia?

Na última conversa com Han Solo, ele diz que se envergonha do pai… Mas isso não é motivo pra vilania, certo?

Kylo é um vilão humano, demasiado humano, por assim dizer, mesmo tentando imitar o avô “mecanizado” (se Vader deixou de ser humano ao introduzir em seu corpo dispositivos mecânicos que o ajudavam a sobreviver, Kylo imita a voz mecanizada e o gestual rígido sem sucesso; é evidente o desconforto do garoto ao caminhar, e a máscara --- bem como seu sabre --- são bem toscos). De certa forma, Kylo é, sim, um vilão ridículo… porque, talvez, não seja um vilão.

Muito já se falou e especulou. A verdade é que ninguém sabe muito bem qual vai ser o futuro de Kylo. Mas eu aposto que, um pouco à maneira do que aconteceu com Darth Vader, a gente acabe torcendo um pouquinho pro lado negro da Força.


28 de jan. de 2016

Galera entre letras: O que você gosta de ler?

Para a coluna de hoje, eu resolvi fazer algo diferente (e torço pra que logo, logo vire uma tradição da Galera entre Letras). Pedi ao Pedro, que tem 14 anos e sempre lê a coluna  além de ser um leitor voraz de livros de terror e de ficção histórica do Bernard Cornwell , que falasse um pouco das leituras dele nas férias e do que ele gosta de ler.

O Pedro então me mandou um pequeno texto falando sobre dois livros (e dois autores) muito importantes no gênero do terror e, em particular, do terror “cósmico” e universal: O Caso de Charles Dexter Ward e o Rei de Amarelo, escritos, respectivamente, em 1927 e 1895! (Ambos os autores estão traduzidos em várias edições diferentes.)

Vamos ver o que o Pedro tem a dizer sobre os livros?




Em 1926, ocorreu um surto no qual poetas e artistas tiveram devaneios muito similares, entre os dias 26 de março e 2 de abril.
***
Massachusetts, ano de 1928: duas famílias e um grupo de policiais desaparecem do vilarejo de Dunwich.
***
Esses são os cenários de alguns dos contos de Lovecraft. Bem-vindos ao terror moderno.

O que assombra na obra de escritores como Lovecraft ou Robert W. Chambers não é apenas a forma como flertam com o desconhecido e evocam o nosso medo por ele, mas também é a utilização de um realismo inteligente e sardônico que nos faz duvidar do que poderia ou não ser ficção.

Em O Caso de Charles Dexter Ward, podemos destacar uma citação de Borellus: “Os saes essenciais das Bestas podem ser preparados e preservados de Maneyra que seja facultado a hum Homem de Engenho conter toda a Arca de Noe […].” E, no Rei de Amarelo, o contexto decadente da época, junto com a alusão que a própria cor fazia a este dão um realismo assombroso à obra.

Quanto à engenhosidade do terror criado por esses autores, é um terror que não necessita de sanguinolência ou morte para gelar os ossos. Trata-se de um confronto com o proibido e uma reflexão do quão pequenos e frágeis somos, num universo criado bilhões de anos antes de nós, e do que poderia nos espreitar na escuridão, dentro e fora dele.

Assim, o legado deixado por esses e outros autores é a recordação de nossos temores mais humanos e instintivos. Eis aqui o verdadeiro medo.

E está lançando o desafio!

Se você tem por volta de 15 anos, está na escola, gosta de ler, que tal mandar pra mim um texto pequeno, falando dos seus autores ou das leituras preferidas?

A cada dois meses, eu vou publicar o SEU texto aqui. Pra mandar, é só me adicionar no Facebook ou eu vou dar um jeito de achar você (incluam aqui a risada maléfica).

Até e boas leituras!

7 de jan. de 2016

Galera entre letras: Desafios Literários!



A primeira coluna de 2016 não poderia vir num dia mais propício, afinal, hoje é o dia do leitor!

FELIZ DIA DO LEITOR PRA TODOS NÓS!

Eu fiquei pensando durante a semana sobre o que gostaria de escrever num dia tão especial (e assunto é o que não falta pra gente na Galera entre Letras! rs) e resolvi que a melhor maneira de comemorar o dia de hoje é… lendo mais ainda em 2016! rs

E que tal se essa leitura for feita com outras pessoas e você puder discutir, trocar ideias ou mesmo reler com outros olhos as histórias que já leu?

Mas calma que eu já conto como tudo começou…

Uma amiga me chamou pra participar de um desafio literário bem legal — 12 meses de Poe. A proposta é ler todo mês um conto de Edgar Allan Poe e trocar ideias sobre os contos lidos. Eu adorei a ideia e estou acompanhando o desafio, que tem até página no Facebook.

Claro que o desafio não precisa se limitar aos contos do Poe, e também não precisa ser coletivo nem precisa de página nas redes sociais. Você pode convidar um colega, vizinho, irmão, pai, mãe ou pode seguir o desafio sozinho mesmo. E também não precisa seguir à risca a lista de textos (quem nunca mudou de ideia, não é?!). O importante é tirar um tempinho pra você reler algo de que gosta ou, quem sabe, um autor ou texto que nunca tenha lido.

E tudo bem se a sua biblioteca pessoal não é assim tão grande ou se você não tem uma biblioteca pública por perto (tem muitas espalhadas pelo Brasil e todas elas costumam ter salas de leitura ou emprestam os livros pra você levar pra casa por um prazo determinado — só não esqueça de devolver!). Tem algumas bibliotecas virtuais que permitem que você faça downloads LEGAIS de livros (porque livro pirateado não vale, né?).

Em geral, costumam ser obras clássicas, de autores em domínio público. Se você não lembra ou ainda não sabe o que são “obras em domínio público”, dá uma lida na matemática dos autores aqui.

Uma boa biblioteca de obras em domínio público (em português, inglês e espanhol) é o Portal Domínio Público. Dá pra baixar várias obras, inclusive, as de Edgar Allan Poe (infelizmente não tem nada em português, mas tem os textos originais em inglês e traduções para o espanhol). E aqui vocês encontram a tradução do Machado de Assis para um dos poemas mais conhecidos do Poe — O Corvo.

E no Project Gutenberg também tem uma “prateleira” com livros em português.

Uma biblioteca pouco conhecida de textos em língua inglesa, mas que eu adoro, é a eBooks@Adelaide.

E já que eu falava de “obras em domínio público”... na Austrália as obras caem em domínio público 50 anos após a morte do autor (ao contrário da maioria dos países, inclusive do Brasil, onde esse período é de 70 anos), então, dá pra ler muita coisa nas bibliotecas virtuais australianas que ainda não estão disponíveis nas outras — dá pra baixar também, mas você não pode publicar porque aí estaria infringindo o copyright (o direito autoral). Eu sei que é complicadinho, então, melhor só ler mesmo rs

Aqui tem o link do Project Gutenberg Australia.

Ufa! Leitura é que não vai faltar em 2016!

O meu desafio literário pessoal vai ser reler alguns contos do Conan Doyle (já deu pra perceber que um dos meus personagens favoritos é Sherlock Holmes, né? Já até falei da série nova aqui.

O conto do mês de janeiro é um dos meus preferidos, nem sei quantas vezes já li: A Scandal in Bohemia [Um Escândalo na Boêmia]. Depois falo mais sobre o desafio sherlockiano!

Espero que vocês se divirtam com o desafio literário. E quem quiser pode postar como será o seu desafio pra 2016!

Boas leituras e até!






17 de dez. de 2015

Galera entre letras: O presente dos Magos

Na coluna de Natal do ano passado [aqui], eu já tinha citado “O Presente dos Magos” como um dos contos mais importantes que têm como tema o Natal. Hoje resolvi arriscar uma tradução e postá-la aqui, junto com meus votos de boas festas e um 2016 com muitas leituras pra todos nós! A.R.

O Presente dos Magos, de O. Henry*

Um dólar e 87 centavos. Era tudo. Sessenta moedinhas de um centavo. Moedinhas economizadas de duas em duas, às vezes, ao intimidar o dono da mercearia, o verdureiro e o açougueiro até as bochechas de um deles arderem com a acusação de parcimônia que tal negócio íntimo implicava. Três vezes Della contou. Um dólar e 87 centavos. E o Natal era no dia seguinte.

Era evidente que nada se podia fazer, além de desabar no pequeno sofá velho e chorar. E foi o que Della fez. O que provoca a reflexão moral de que a vida é feita de soluços, fungadas e sorrisos, com o predomínio de fungadas.

Enquanto a dona da casa está, aos poucos, passando do primeiro para o segundo estágio, deem uma olhada na casa. Um apartamento mobiliado a oito dólares por semana. Não é que faltassem palavras para descrevê-lo, mas certamente a palavra falta se destacava na observação para o esquadrão da pobreza.

No vestíbulo abaixo, havia uma caixa de correio na qual carta alguma entrava, e um botão elétrico, do qual nenhum dedo mortal poderia obter um som. Além disso, próximo a ela via-se um cartão com o nome “Sr. James Dilingham Young”.

O “Dilingham” fora lançado à brisa durante uma época anterior de prosperidade, quando o nomeado recebia trinta dólares semanais. Agora que a receita encolhera para vinte dólares, eles pensavam seriamente em abreviá-lo para um modesto e despretensioso D. Mas sempre que o Sr. James Dillingham Young voltava para casa e pisava em seu apartamento no andar de cima, era chamado “Jim”, e recebia um grande abraço da sra. James Dillingham Young, já apresentada a vocês como Della. O que é muito bom.

Della parou de chorar e cobriu suas bochechas com o pó facial. Ela estava parada perto da janela e fitava, indiferente, um gato cinzento que caminhava sobre uma cerca cinzenta num quintal cinzento. Amanhã era dia de Natal, e ela tinha apenas um dólar e 87 centavos para comprar um presente para Jim. Andara economizando cada centavo que podia durante meses, e este era o resultado. Vinte dólares por semana não davam para muita coisa. As despesas foram maiores do que ela havia calculado. Sempre são. Somente um dólar e 87 centavos para comprar um presente para Jim. Ela havia passado muitas horas felizes planejando comprar alguma coisa bonita. Algo belo, raro e de boa qualidade ― alguma coisa só um pouquinho digna da honra de pertencer a Jim.

Havia um imenso espelho decorado entre as janelas do cômodo. Talvez você tivesse visto um espelho desses num apartamento de oito dólares. Uma pessoa muito magra e ágil, ao observar o reflexo numa rápida sequência de faixas longitudinais, obtinha uma visão bastante precisa de sua aparência. Della, por ser esguia, tinha dominado a arte.

Subitamente ela girou e se afastou da janela, postando-se diante do espelho. Seus olhos brilhavam, mas o rosto perdeu a cor vinte segundos depois. Rapidamente ela soltou o cabelo e o deixou cair em todo seu comprimento.

Dois eram os bens do casal James Dillingham Young dos quais ambos se orgulhavam tremendamente. Um era o relógio de ouro de Jim, que havia pertencido ao pai e ao avô. O outro eram os cabelos de Della. Se a rainha de Sabá vivesse no apartamento do outro lado do duto de ventilação, Della botaria cabelos para fora da janela para secar apenas para humilhar as joias e presentes de Sua Majestade. Se o rei Salomão fosse o zelador, com todos os seus tesouros empilhados no sótão, sempre que Jim passasse por ele sacaria o relógio, apenas para ver o outro cofiar a barba com inveja.

Então agora os lindos cabelos de Della desciam como cascatas, onduladas e reluzentes, de águas castanhas. O cabelo alcançava até debaixo de seu joelho e quase se tornava uma peça de roupa para ela. Em seguida, ela o prendeu de novo, rápida e nervosamente. Ela hesitou por um instante e ficou parada enquanto uma lágrima e outra pingavam no tapete vermelho surrado.

Ela vestiu o velho casaco marrom; botou na cabeça o velho chapéu marrom. Com um giro das saias e a centelha brilhante nos olhos, passou rapidamente pela porta e desceu os degraus que davam para a rua.

Parou onde a placa dizia: “Mme. Sofronie. Cabelos de Todos os Tipos”. Della subiu correndo um degrau e se recompôs enquanto arfava. Madame, gorda, muito branca, antipática, nem parecia a “Sofronie”**.

― A senhora quer comprar o meu cabelo? ― perguntou Della.

― Eu compro cabelo ― respondeu Madame. ― Tire seu chapéu e vamos dar uma olhada nele.

A cascata castanha desceu em ondas.

― Vinte dólares ― falou Madame, erguendo a massa com mão treinada.

― Me dê rápido então ― retrucou Della.

Ah, e as duas horas seguintes voaram em asas cor-de-rosa. Esqueçam a metáfora confusa. Della estava revirando as lojas atrás do presente de Jim.

E finalmente ela encontrou. Sem dúvida, tinha sido feito para Jim e mais ninguém. Não havia outro presente como este em loja alguma, e ela tinha revirado todas. Era uma corrente de platina para relógio de bolso com um desenho simples e austero, que de modo adequado somente proclamava seu valor pela substância e não pela ornamentação vulgar ― como todas as coisas boas deveriam fazer. Era digna até do Relógio. Assim que a viu, soube que deveria pertencer a Jim. Era como ele. Austeridade e valor ― a descrição se aplicava aos dois. Tiraram dela 21 dólares, e ela se apressou para casa com 87 centavos. Com aquela corrente no relógio Jim poderia parecer adequadamente preocupado com as horas junto a qualquer companhia. Por mais grandioso que o relógio fosse, algumas vezes Jim olhava para ele disfarçadamente por causa da tira de couro velha que usava no lugar de uma corrente.

Quando Della chegou em casa, a agitação deu lugar à prudência e à razão. Ela pegou o ferro de cachear, acendeu o gás e se pôs a trabalhar para reparar a destruição feita pela generosidade somada ao amor. O que sempre é uma tarefa tremenda, caros amigos ― uma tarefa gigantesca. 

Quarenta minutos depois, sua cabeça estava coberta com cachos minúsculos, bem rentes à cabeça, que faziam com que ela se parecesse graciosamente com um garotinho preguiçoso. Ela fitou longa, cuidadosa e criticamente o reflexo no espelho.

― Se Jim não me matar ― falou para si mesma ― antes que olhe para mim uma segunda vez, ele vai dizer que pareço com uma corista de Coney Island. Mas o que eu poderia ― Oh! O que eu poderia fazer com um dólar e 87 centavos?

Às sete horas, o café fora passado e a caçarola estava no fundo do fogão quente, pronta para preparar os bifes.

Jim nunca se atrasava. Della dobrou a corrente na mão e se sentou no canto da mesa perto da porta pela qual ele sempre entrava. Então ela ouviu seus passos no degrau do primeiro lance, e empalideceu por apenas um momento. Ela tinha o hábito de rezar uma oração curta e silenciosa sobre as coisas simples do dia a dia e agora murmurou:

― Por favor, meu Deus, fazei com que ele ainda me ache bonita.

A porta se abriu e Jim entrou e a fechou. Ele aparentava magreza e muita seriedade. Coitado, apenas 22 anos e o fardo de uma família! Precisava de um sobretudo novo e não calçava luvas. 
Jim parou no lado de dentro da porta, tão imóvel quanto um cão de caça ao sentir o cheiro da codorna. Seus olhos se fixaram em Della; neles via-se uma expressão que ela não podia interpretar, e isso a apavorou. Não era raiva, não era surpresa nem desaprovação, também não era horror ou qualquer sentimento para o qual ela estivesse preparada. Ele simplesmente a encarou com aquela expressão peculiar no rosto. 

Della circundou a mesa e foi até o marido.

― Jim, querido ― gritou ela ―, não me olhe assim! Eu cortei e vendi meu cabelo porque não podia passar o Natal sem lhe dar um presente. Vai crescer de novo... Você não vai se importar, não é? Eu simplesmente tinha que fazer isso. Meu cabelo cresce ridiculamente rápido. Diga “Feliz Natal!”, Jim, e vamos ficar contentes. Você não sabe que adorável… que belo e adorável presente eu comprei para você.

― Você cortou seu cabelo? ― indagou Jim, com dificuldade, como se não ainda tivesse assimilado o fato evidente apesar do tremendo esforço mental.

― Cortei e vendi ― falou Della. ― Mas você gosta de mim do mesmo jeito, não é? Ainda sou eu sem o cabelo, não sou?

Jim olhou ao redor do cômodo com curiosidade.

― Você está dizendo que seu cabelo se foi? ― falou, com um ar de idiotia.

― Você não precisa procurar ― falou Della. ― Eu vendi, já disse… vendi e ele se foi também. É véspera de Natal, homem. Seja bonzinho comigo porque ele se foi por sua causa. Talvez os fios na minha cabeça tenham sido contados ― emendou ela com uma doçura subitamente séria ―, mas ninguém já contou meu amor por você. Será que eu devo servir os bifes, Jim?

Saindo do transe, Jim pareceu acordar rapidamente. E abraçou Della. Durante dez segundos, vamos examinar com discreta observação algum objeto sem importância em outra direção. Oito dólares por semana ou um milhão por ano… Qual é a diferença? Um matemático ou um sábio responderiam incorretamente. Os magos trouxeram presentes valiosos, mas isso não estava entre eles. Essa observação sombria será iluminada adiante.

Jim tirou um pacote do bolso do sobretudo e jogou-o sobre a mesa.

― Não se engane, Dell ― falou ele ― a meu respeito. Não acho que haja alguma coisa, seja um corte de cabelo, raspar a cabeça ou um xampu, que pudessem me fazer gostar menos de você. Mas se você abrir o pacote pode ver, para começo de conversa, por que fiquei fora algum tempo. 

Dedos brancos e ágeis rasgaram o cordão e o papel. Ouviu-se um grito extasiado de alegria; e então, que infelicidade! uma rápida mudança para lágrimas e gemidos histéricos, que necessitavam imediatamente de todos os poderes do homem da casa para acalmá-los.

Pois lá estavam Os Pentes ― o conjunto de pentes para a lateral e a parte de trás, que Della havia adorado muito tempo numa vitrine da Broadway. Belos pentes de puro casco de tartaruga, com beiradas de joia ― da exata cor para usar no belo cabelo que se foi.

Mas ela os abraçou junto ao peito, e finalmente foi capaz de erguer o olhar com olhos sombrios e um sorriso, e falou:

― Meu cabelo cresce muito rápido, Jim! 

E então Della deu um pulo feito um gatinho escaldado e gritou:

― Oh, oh!

Jim não tinha visto ainda seu belo presente. Ela o estendeu ansiosamente para o marido na palma da mão aberta.

― Não é elegante, Jim? Eu revirei toda a cidade para encontrar. Você vai ter que ver as horas cem vezes por dia agora. Me dê seu relógio. Quero ver como fica.

Em vez de obedecer, Jim desabou no sofá e pôs as mãos embaixo da nuca, sorrindo.

― Dell ― falou ele ― vamos guardar os presentes por algum tempo. Eles são bonitos demais para usarmos no momento. Eu vendi o relógio para ter dinheiro para comprar os pentes. E agora que tal você servir os bifes?

Os magos, como vocês sabem, eram homens sábios ― homens maravilhosamente sábios ― que trouxeram presentes para o bebê na manjedoura. Eles inventaram a arte de dar presentes de Natal. Por serem sábios, sem dúvida, seus presentes eram sábios, e provavelmente tinham o privilégio de serem trocados caso fossem duplicados. E aqui eu contei com certo tédio a vocês a crônica sem graça de duas crianças bobas num apartamento, que de modo nada prudente sacrificaram uma pela outra os maiores tesouros da casa. Mas numa última palavra aos sábios desses dias, que seja dito que de todos que dão presentes esses dois foram os mais sábios. De todos os que dão e recebem presentes, tais são os mais sábios. Em toda parte, eles são os mais sábios. Eles são os magos.

* Publicado em 1905, o conto é um dos mais famosos do escritor O. Henry, que não poucas vezes foi comparado a Charles Dickens
**O nome da mulher remete, em grego, à ideia de prudência e virtude.


Versão cinematográfica do conto (1952)

3 de dez. de 2015

Galera entre Letras: O que vem por aí… ou: O que esperar da literatura juvenil, YA e NA em 2016

Dezembro é mês de Natal, retrospectivas e expectativas, né? E como não poderia deixar de ser, vou falar das minhas expectativas para 2016 em relação à literatura juvenil, Young Adult e New Adult. E também falar um pouquinho dos livros que li e gostei.

Como em 2015, “diversidade” e “representatividade” são as palavras de ordem aqui. Mais personagens de gênero, cor, religião etc. diversos e mais autores de gênero, cor, religião etc. diversos também. E nisso a Galera Record sai na frente: não só tem livros com personagens gays, lésbicas, trans, pretos, brancos, orientais, vampiros, licantropes etc. como tem até um personagem como A, de Todo Dia, que pula de corpo em corpo todos os dias! E vocês já sabem que A volta por aqui, né? Mal posso esperar!

Mais que uma tendência, “diversidade” e “representatividade” são uma necessidade. Se a literatura reflete, de alguma forma, o mundo, então, tem que dar conta das nossas diferenças também. E não importa se a história é de fantasia ou se tem uma pegada mais “realista”; o importante é a gente poder se reconhecer e identificar com os personagens ou com as situações narradas.

E por isso é tão bom ter autores como Alex Gino, David Levithan e tantos outros por aqui, que contam histórias para todos… sem rótulos.

Além disso, eu espero ver mais autoras publicando histórias em todos os subgêneros, até em livros inspirados por jogos eletrônicos e jogos tipo D&D. Aliás, vocês sabiam que já na década de 1980, o RPG era superinclusivo? Olha que legal a propaganda deles com duas meninas jogando!


Um dos livros mais legais que eu li neste ano foi justamente um livro baseado em RPG, escrito pelo tradutor e autor-amigo-da-Galera André Gordirro. O livro tem ótimos personagens femininos, e o André já anunciou que os próximos volumes da trilogia vão trazer outros personagens femininos e mais guerreiras também. Pra quem não lembra, ele falou sobre o livro aqui na entrevista com autores da Bienal.

Outra tendência muito legal são os thrillers sci-fi jovem adulto ou novo adulto. O meu livro preferido em 2015 foi Brilhantes, do Marcus Sakey. Pra quem gosta de ficção científica e aventura, é um prato cheio. Brilhantes também tem personagens femininas muito bem elaboradas, sabe? E — que isso fique só entre nós — o segundo livro consegue ser melhor ainda! As protagonistas são bem diferentes entre si, e o Marcus deu bastante destaque às duas no segundo livro, aprofundando, inclusive, a relação delas com o protagonista. Sem mencionar que o livro trata de um tema que, infelizmente, continua a ser notícia: o terrorismo. O terceiro e último volume da trilogia sai em janeiro nos EUA.



Além disso, eu acho que a gente vai continuar lendo livros baseados em contos de fadas e contos de fadas mais sombrios, não tão parecidos com os contos clássicos da Disney. Aliás, em sua origem, os contos de fadas não eram pra historinhas pra crianças. Ao contrário! Acho que essa volta às origens é bem interessante, sobretudo, para o público juvenil e YA conhecer os contos como eles realmente foram escritos, mas eu também gosto muito das adaptações. Queria muito ver meus contos favoritos — A Bela e a Fera, e O Barba Azul — ganhando uma nova roupagem, sobretudo, porque são contos que também discutem a questão dos gêneros, o preconceito e a violência contra a mulher.

Essas são as minhas apostas e as minhas expectativas pra 2016. Quais são as de vocês?

Boas leituras e até a próxima!

19 de nov. de 2015

Galera entre letras: O Gato no Telhado e a Vaca no Brejo



Pois é. Eu falei pra vocês que esta semana o assunto ia ser o gato no telhado, mas pra fazer companhia ao bichano acabei chamando uma vaca!

Eu sei. A essa altura vocês devem achar que eu enlouqueci! Nada disso. O assunto é sério –- porque tradução SEMPRE é coisa séria, gente!

Eu acho que vocês nunca pararam pra pensar em quantas expressões no nosso idioma têm animais como seus protagonistas. Vejam só: deu zebra, cada macaco no seu galho, tirar o cavalo da chuva etc.
E cada expressão dessas tem um sentido bem definido. Quando dizemos, por exemplo, que “o gato subiu no telhado”, é pra avisar que vem notícia ruim pela frente ou mesmo que uma situação desagradável é inevitável, e se “a vaca foi pro brejo”, a coisa ficou feia mesmo e tempos difíceis vêm pela frente.

Mas nem sempre é fácil adaptar essas expressões para outros idiomas (e o inverso também é verdade). Imaginem, por exemplo, se a gente traduzir “a vaca foi pro brejo” literalmente — e um importante autor e tradutor brasileiro, Millôr Fernandes, fez isso por brincadeira; ficaria “the cow went to the swamp” e, para os falantes de língua inglesa, significaria apenas isso: uma vaca indo pro brejo — provavelmente, o animal ficaria atolado e precisaria de resgate. O sentido original da frase se perderia.

A melhor maneira de dizer que algo não está bem, que uma situação ruim é prevista, em inglês — e, ao mesmo tempo, manter ainda a referência a algum bichinho — é dizer que a situação “is going to the dogs”.

Se alguma coisa “vai ficar com os cachorros”, em inglês, já é considerada caso perdido. Aqui tem a explicação pra essa curiosa frase (que se originou na China antiga, vejam só!).

Outro dia eu me vi às voltas com a expressão “X has put Y out to pasture” num contexto mais ou menos negativo (alguém falava que não sabia se o produto Y tinha sido abandonado pela empresa X) e aí eu fiquei pensando como poderia passar essa ideia negativa contida na expressão que, literalmente, quer dizer: “X mandou Y pastar.”

E havia outro problema: em português, a gente usa a expressão “vai pastar!” quando chama outra pessoa de “burra” (justamente porque o que ruminantes fazem é pastar), portanto, a tradução literal estava fora de questão.

Eu tentei usar várias opções antes de “o gato subiu no telhado”, mas nenhuma se encaixou e a frase final ficou assim: “o gato de Y subiu no telhado de X”.

Nem sempre a gente encontra a maneira perfeita de transpor a ideia original para o nosso idioma, mas o importante é dar a chance ao leitor de tentar formar o sentido do que está escrito ali.

Por hoje é só. Leiam bastante e até!

Aviso importante: nenhum animal foi ferido durante a elaboração da coluna de hoje.

5 de nov. de 2015

Galera entre letras: Sobre Calafrios e Gatos

Outro dia um leitor da coluna, Pedro, de 14 anos, que “devora os livros do Bernard Cornwell assim que eles saem”, me fez uma pergunta bem interessante, e eu resolvi respondê-la aqui no espaço.

O Pedro também gosta muito dos irmãos Grimm. Recentemente ele leu um conto chamado “O rapaz que não sentia calafrios” e ficou curioso com a quantidade de versões do título do conto — “O garoto destemido”, “O garoto corajoso”, “O rapaz que saiu de casa para saber o que era o medo”, “O garoto que não sabia o que era o medo”, e é provável que haja outras ainda.

Sempre que eu falo de traduções, eu chamo atenção para o fato de que a tradução é sempre UMA versão (entre muitas) de UM texto ORIGINAL. A tradução sempre é fruto do conhecimento do tradutor, além da época e do local onde ele vive. Por isso que a gente vê tantas traduções diferentes para um único texto original, o que não significa que uma seja melhor que a outra. Elas apenas são diferentes.

Mas voltando à pergunta do nosso amigo leitor, eu quis saber se a tradução que ele havia lido fora feita diretamente do alemão (a língua original dos contos dos irmãos Grimm) ou se tinha sido feita do inglês, ou seja, se era a tradução de uma tradução — ou tradução INDIRETA.

O Pedro ficou surpreso quando fiz a pergunta, porque ele achava que as traduções sempre eram do ORIGINAL. Aí eu expliquei que era comum que textos em idiomas considerados raros ou difíceis fossem traduzidos a partir de outro idioma. Isso costuma acontecer com línguas escandinavas, com o chinês etc., embora hoje a gente tenha ótimos tradutores nesses idiomas. Às vezes, acontece também de o próprio autor, seu agente ou editora sugerir a tradução INDIRETA.



No caso do conto dos Grimm, o texto tinha sido traduzido do inglês para o português, mas não fazia parte da versão mais famosa existente, as Household Stories, traduzidas por Lucy Crane e ilustradas por seu irmão, Walter Crane. [Aqui tem um link pra esta versão!]


Então eu resolvi procurar o texto ORIGINAL pra tirar a dúvida do Pedro em relação ao título da história. Mesmo que não haja versões certas ou erradas, talvez houvesse uma versão que se aproximava mais do sentido original do título da história.

Em alemão, o título diz o seguinte: “Märchen von Einem, der Auszog das Fürchten zu Lernen” ou (numa tradução literal): “Conto sobre Um Rapaz que Saiu de Casa para Aprender O Que Dá Medo”. Já deu pra perceber que “medo” aparece no título e que não tem muito a ver com coragem porque “corajoso” é quem sente medo e o supera. Na nossa história, o rapaz sequer conhece esse sentimento! E dá pra perceber também que, ao contrário da maioria dos títulos dos contos dos Grimm, esta história traz a palavra “conto” no próprio título, como se fosse um conto dentro de um conto!

Curiosamente, a palavra “medo” só vai aparecer mesmo no título. No restante do texto, a palavra usada é “Gruseln”, “aquilo que dá calafrios”.

Mas será que tudo que dá calafrios dá medo? Descobrir a resposta a essa pergunta é uma das graças da história!

E foi isso que eu expliquei ao Pedro, leitor curioso, e fã do Bernard Cornwell e dos irmãos Grimm.

[Infelizmente, eu não encontrei nenhuma edição em Domínio Público das obras dos irmãos Grimm em português, mas nas livrarias vocês encontram várias edições, inclusive das obras completas deles. Vale dar uma olhada neste conto pra entender o mistério dos calafrios!]

Mas… e os gatos do título do artigo?
Por ora, eu só posso dizer que o gato subiu no telhado… (risos)

Até a próxima e boas leituras!

29 de out. de 2015

Galera entre letras: O monstro conhecido

Ainda estamos no clima do Halloween e hoje, como eu tinha prometido, vou continuar falando do medo e de coisas que dão medo. E como terminei com o medo gótico em Poe, hoje começo com Poe também (deu pra perceber o quanto eu gosto dele, né?).

Se Poe foi um dos mais importantes autores do medo gótico, ele também serviu de inspiração para um tipo de medo que, a meu ver, é muito contemporâneo: o medo do que nos é conhecido e familiar.
É muito fácil quando aquilo que nos ameaça e dá medo é um zumbi de pele cinzenta, uma serpente de dois metros ou mesmo um ser qualquer com quatro patas e duas cabeças! É fácil identificar a ameaça e, com sorte, evitá-la. Mas quando aquilo que nos ameaça tem uma aparência normal é que são elas! E este é um medo real e muito atual. E é tão importante que até um pensador como Freud gastou tinta e papel para escrever sobre isso.

Eu acho que é o fato de que isso possa realmente acontecer com a gente que torna esse tipo de história (sobre coisas familiares que, por algum motivo, passam a nos ameaçar) tão interessante. Confesso que tenho mais medo dessas histórias do que de qualquer criatura gigante e com duas cabeças!

E, como eu disse antes, Poe também foi pioneiro desse tema. Ele escreveu um pequeno conto chamado “O homem da multidão” que trata justamente de como uma pessoa em uma metrópole como Londres (e já no século XIX Londres era uma das mais importantes capitais do mundo!) pode se sentir ameaçada por seus habitantes e pelas atitudes mais triviais. Eu não vou contar a história pra vocês porque tem várias traduções disponíveis, além do conto original, na Internet. Leiam!

Imagino que vocês estejam pensando que numa cidade grande ou numa metrópole as pessoas ou as coisas podem parecer ameaçadoras até para os espíritos mais fortes!

Mas… e se fosse uma cidadezinha pequena? Daquelas em que todos se conhecem? Será que dá pra sentir medo num lugar assim?

A resposta é: dá pra sentir medo. Muito medo.

Uma das minhas autoras preferidas de histórias de medo é Shirley Jackson (numa semana em que se falou tanto sobre as mulheres eu não podia deixar de mencionar uma, né?), mas ela não é do tipo que fala de metrópoles ou gigantes vingativos. Suas histórias sempre se passam em locais pequenos: uma aldeia, uma casa, que, sobretudo por serem pequenos, do tipo onde todos se conhecem, se torna claustrofóbica e muito assustadora.

E tanto pelo tema como pela maneira de envolver o leitor, a Shirley Jackson é uma legítima herdeira de Poe e dos contos góticos, a tal ponto que chamam o tipo de histórias que ela escreve de “gótico do sul dos Estados Unidos”.

O conto do qual eu quero falar pra vocês hoje se chama “A loteria” e até hoje é considerado um dos contos mais polêmicos já publicados nos Estados Unidos! Teve até protesto por causa da publicação. (Imaginem uma época pre-Facebook em que, para protestar, as pessoas escreviam cartas ou telefonavam!)

E o conto é tão marcante pra literatura norte-americana que inspirou autores e autoras nas décadas seguintes, incluindo a Suzanne Collins, autora de “Hunger Games”, que lá nos Estados Unidos é editada por ninguém menos que o David Levithan!

Mas o que é que o conto tinha de tão polêmico para gerar toda essa comoção? Bom, um dos motivos era justamente o fato de começar de maneira trivial. Os leitores se assustaram ao perceber — lá pelo meio do conto — o que realmente significava a loteria.

Para eles, um conto que começava falando de uma manhã límpida e ensolarada não poderia terminar da maneira que termina. Pra aguçar a curiosidade de vocês, eis o primeiro parágrafo:

“A manhã de 27 de junho estava límpida e ensolarada, com o calor refrescante de um dia em pleno verão; as flores desabrochavam em profusão, e a grama era de um verde vivo. Os habitantes do vilarejo começaram a se reunir na praça, entre os correios e o banco, por volta de dez da manhã; em algumas cidades, havia tantas pessoas que a loteria durava dois dias e tinha que começar em 26 de junho. Neste vilarejo, porém, no qual havia apenas cerca de 300 pessoas, a loteria inteira durava menos de duas horas, por isso, podia começar às dez da manhã e ainda acabar a tempo de permitir que seus habitantes voltassem a casa para fazer a refeição do meio-dia.”

E pra quem ficou curioso… Ano passado eu traduzi “A loteria” para a “(n.t.) revista de tradução”. A revista completa está neste link. É só baixar, ler e tirar suas próprias conclusões: será que o que nos é mais próximo pode ser o mais ameaçador, e que sob um céu ensolarado se escondem as verdades mais obscuras do ser humano?

Espero que vocês gostem da leitura!


Por trás da aparência professoral, se escondia uma grande conhecedora da alma humana.

8 de out. de 2015

Galera entre Letras: Você tem medo de quê?

O mês de outubro é o meu preferido (e nem é pelo dia das crianças, que eu não comemoro mais rs). Eu gosto dele por causa do Halloween e do aniversário de morte de um dos meus autores favoritos: Edgar Allan Poe.

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(Eu tinha que compartilhar este gif com vocês.)

Dificilmente alguém que gosta de ler já não cruzou com um texto dele ou um filme baseado em sua obra. E dificilmente alguém abriu uma antologia de contos norte-americanos sem se deparar com um de seus contos mais famosos: “O coração denunciador”, “O gato preto”, “A carta roubada” ou “Os assassinatos na rua Morgue”.

Por isso, pensando em Poe e no Halloween, resolvi dedicar as duas colunas do mês ao medo. Sim. A esse sentimento ao mesmo tempo estranho e prazeroso.

Bom, eu não vou dar uma aula sobre o medo aqui, mas vamos tentar entender o que é o medo e por que tanta gente gosta de ler (ou ver) algo e sentir medo?

Em primeiro lugar, é bom lembrar que a gente SENTE o medo. Quer dizer, quando a gente tem medo, nosso corpo sofre alterações físicas, sabem? O coração dispara, nós começamos a suar, a respiração encurta. Dá até pra medir os impulsos cerebrais ligados ao medo! O que significa, claro, que ele é REAL. Quem já sentiu medo uma vez na vida, sempre reconhece a sensação.

E o medo também tem uma função importante: a de (auto)preservação. Se você tem medo, se arrisca menos e consequentemente tem mais chance de sobreviver. Engraçado, né?, que o medo possa ser importante pra sobrevivência da espécie. Mas é fato que ele também serve pra isso.

E também é fato que essa função de preservação dos indivíduos foi logo percebida. E sabem o que aconteceu? Passou-se a contar histórias que, de alguma forma, despertassem medo ou um sentimento parecido com o medo. Essas histórias tinham a função de educar e assumiam formas que a gente conhece muito bem. Já pensaram nos contos de fadas? Muitos deles tinham como tarefa evitar que as pessoas cometessem atos considerados errados na época em que viviam (por isso, os garotinhos desobedientes se deparavam com feiticeiras malvadas no meio da floresta; se alguém mentisse, o nariz crescia e por aí vai…). Claro que essa função “controladora” do medo não se limitou aos contos de fadas nem se restringiu a mostrar que a mentira é uma coisa feia.

Mas vamos em frente na nossa brevíssima história do medo.

Uma das curiosidades a respeito do medo é que ele pode ser provocado por algo externo ou por nós mesmos. Explico: eu tenho medo de barata. Sempre que vejo uma barata, eu tenho todos aqueles sintomas que descrevi antes. MAS: eu posso estar num lugar no qual eu ache provável uma barata aparecer e, mesmo sem ter visto uma delas, vou ter medo. Isso prova que nós conseguimos criar o medo apenas com nossa mente. Algumas vezes, essa sensação é chamada de angústia, isto é, a antecipação de algo ou de um acontecimento que causa medo.

Pra mim essa é a característica mais importante do medo: o fato de que ele não precisa de algo externo pra ser acionado. E por isso mesmo ele é uma sensação tão importante para a literatura e foi um tema tão constante, afinal, nós temos uma literatura de terror, né?

Quem mais explorou o medo como tema e como um meio de despertar o interesse do leitor foram os escritores e escritoras góticos. Se você já leu um livro que tem uma mocinha ou um mocinho frágil e debilitada(o), que desmaia à toa, mas que gosta de perambular por corredores escuros e lugares ermos tarde da noite, e no qual é normal que portas batam sem que esteja ventando, e que pratos ou outros utensílios se quebrem sem motivo aparente, então, você já leu um romance gótico. E provavelmente seu coração disparou enquanto você passava páginas e mais páginas que descreviam meticulosamente um determinado lugar. Quase como se você estivesse dentro do livro e pudesse sentir aquela “atmosfera”.

A “atmosfera” gótica tem tudo a ver com o medo. É praticamente impossível a gente não se identificar com a fragilidade dos personagens!

O gênero gótico fez tanto sucesso na literatura que até hoje nós temos autores que exploram essas sensações — são os chamados neogóticos. E alguns criaram essa ”atmosfera” inspirados pelo próprio local em que moravam: os góticos sulistas, por exemplo, que são os autores que moravam no sul dos Estados Unidos.

Mas… e o Poe? Bem, Edgar Allan Poe, pra mim, é um dos mais importantes representantes da ficção gótica nos Estados Unidos, embora não tenha se limitado a escrever histórias góticas. Vocês sabiam que ele foi o inventor do romance policial, tal como a gente conhece hoje?

Ele sabia como ninguém criar essa “atmosfera de medo” e soube como ninguém explorar a angústia e o medo em suas histórias. E também criou histórias em que o medo era causado por coisas bobas e rotineiras. Ou mesmo por pessoas conhecidas.

E nisso ele inspirou um bocado de autores depois dele.

Na próxima coluna, eu vou falar do medo causado por coisas (ou pessoas) conhecidas e desconhecidas, e por que a gente insiste em ler histórias que nos dão medo. Preparem-se! Vai ser de arrepiar!

10 de set. de 2015

Galera entre Letras: A Bienal da Galera (Parte 1)

Hoje é a primeira parte da minha entrevista com autores brasileiros que estão participando da Bienal. E hoje quatro autores falam um pouquinho sobre o mercado editorial e sobre seus livros preferidos, em meio a sessões de autógrafos e bate-papos na Bienal.

Apesar de serem autores de gêneros literários diferentes, com temas muito diversos entre si, todos foram unânimes em dizer que encaram com otimismo o futuro do mercado editorial. Vamos conferir as perguntas e respostas?

A CARINA RISSI é autora de vários livros: a série Perdida, Procura-se um Marido e No Mundo da Luna (uma das capas mais lindas que eu vi nos último tempos!), todos publicados pela Editora Verus, do Grupo Editorial Record. Na Bienal do Rio, a Carina participou de palestras e deu muitos autógrafos no lançamento do livro novo, Destinado, da série Perdida. Além disso, ela participou de uma verdadeira maratona na sede da editora Record, autografando DOIS MIL exemplares de Destinado. As Memórias Secretas do Sr. Clarke.


Ana Resende: Como é ser uma escritora brasileira em 2015?
Carina Rissi: As redes sociais aproximaram os escritores de seus leitores, e muitos hoje ganharam status de pop-star, algo inimaginável vinte anos atrás. O cenário nunca esteve tão favorável quanto hoje em dia, por isso, acredito que temos a responsabilidade de manter o leitor interessado, apresentando bons trabalhos.
A.R.: Algum livro que você leu te levou a querer escrever? Qual foi? E por quê?
C.R.: Todos os livros da Jane Austen me inspiram demais, não importa que eu já os tenha lido dezenas de vezes. Amo a maneira como ela constrói as personagens, o jeito que costura a trama — aos pouquinhos sem que o leitor perceba até que tudo explode —, as reviravoltas. Ela faz parecer tão fácil (e, obviamente, não é!).


O LUIZ ANTONIO AGUIAR, além de pesquisador dos clássicos da literatura brasileira e estrangeira, é tradutor e escritor, com mais de cem títulos publicados. Em sua carreira, Luiz ganhou prêmios literários importantes no Brasil e no exterior. Homero: Aventura Mitológica, que reconta a história do poeta grego, e foi publicado pela Galera Record, além de receber o título “Altamente Recomendável FNLIJ 2015”, está no Catálogo de Bolonha 2015, como representante da literatura brasileira.

Ana Resende: Como é ser um escritor brasileiro em 2015?
Luiz Antonio Aguiar: Ser um escritor no Brasil é muitas coisas. Entre outras, tentar acompanhar esses rolos de ser um país à beira do mundo mais moderno, mais rico, onde direitos são mais respeitados. A criança e o jovem vivem de maneira muito especial esse dilema entre o entre o ser brasileiro e ser cidadão do século XXI, num mundo hiperconectado.
A.R.: Algum livro que você leu te levou a querer escrever? Qual foi? E por quê?
L.A.G.: Não foi um livro em particular, mas foi o mundo dos livros, com Monteiro Lobato, Mark Twain, Machado de Assis, Charles Dickens, Alexandre Dumas, Bram Stoker, Stephen King, Agatha Christie, Conan Doyle. . . Gabriel Garcia Márquez, José Saramago. . . e por aí vai.





A PATRICIA BARBOZA é uma das autoras mais queridas (e sorridentes!) da Editora Verus, do Grupo Editorial Record, e desde 2002 (quando publicou o primeiro livro) vem conquistando cada vez mais leitores. Além de autora da série As Mais, publicado pela Verus, a Patricia foi uma das autoras que participou de O Livro das Princesas, que saiu em 2013 pela Galera Record. No Livro, ela reconta a história de Rapunzel, dos irmãos Grimm.



Ana Resende: Como é ser uma escritora brasileira em 2015?
Patricia Barboza: Felizmente é ver crescer o reconhecimento da qualidade da nossa escrita. Produzimos livros tão bons quanto os estrangeiros. É uma alegria imensa ver filas de horas para conhecer e ter o livro autografado por um autor brasileiro. A internet e as redes sociais colaboram muito com essa divulgação e contato direto com o autor. Cada vez mais me sinto motivada a trabalhar e produzir livros com a melhor qualidade possível, pois o leitor merece esse carinho.
A.R.: Algum livro que você leu te levou a querer escrever? Qual foi? E por quê?
P.R.: Meus ídolos da infância foram Maurício de Sousa e Monteiro Lobato. As aventuras da Turma da Mônica e as maluquices da Emília, do Sítio do Pica-Pau Amarelo, me inspiraram muito a me tornar uma autora, especialmente da área infantojuvenil.


O ANDRE GORDIRRO — nosso autor-amigo-da-Galera — é o autor estreante na Bienal do Livro no Rio de Janeiro, com seu Portões do Inferno. Lendas de Baldúria. E se você está achando o nome dele familiar é porque o André traduziu aqui pra Galera Record algumas das séries mais importantes do catálogo (e das minhas séries preferidas também!), incluindo o incrível Brilhantes, do Marcus Sakey, publicado em 2015.

Ana Resende: Como é ser um escritor brasileiro em 2015?
André Gordirro: Com certeza, bem mais fácil do que seria em 2005, que dirá 1995. Hoje percebe-se que existe um fandom ao redor da literatura nacional fantástica, sem preconceito pelo fato de o autor ter nascido aqui. Dá gosto saber que existe público consumidor da sua obra, que não vai torcer o nariz pela pessoa não ter nome gringo. E ainda que seja um meio cheio de egos, o que é natural em cultura, sinto uma camaradagem um pouco maior do que imaginava.
A.R.: Algum livro que você leu te levou a querer escrever? Qual foi? E por quê?
A.G.: O Rei do Inverno, do Bernard Cornwell [publicado pela Editora Record]. Quando li aquelas descrições de combate brutal, falei: “é agora. Estou em casa. Finalmente alguém pensa combate como eu. Quero fazer que nem ele.” Já admito que não fiz como ele em Os Portões do Inferno, até porque creio que tempero minhas cenas de ação com um exagero mais cinematográfico, mas foi ele que me deixou seguro para ir em frente.
A.R.: Como autor-amigo-da-Galera, qual é o seu livro preferido da Galera Record? E por quê?
Leviatã, do Scott Westerfeld. O revisionismo histórico da Primeira Guerra Mundial pelo viés steampunk é muito bacana, e o estilo dele é sempre saboroso de ler. Um voo de imaginação de ponta a ponta, ainda que ele conte basicamente a mesma história de Mulan.




27 de ago. de 2015

Galera entre letras:A Bienal do Brasil!




Época de Bienal do Livro sempre é uma época de grande correria (e muito cansaço!) pra leitores, autores e editores --- afinal dez dias de feira não é pra qualquer um! E a Bienal do Livro no Rio não poderia ser diferente.

Quem acompanha o Grupo Editorial Record nas redes sociais e, em particular, a Galera Record, sabe o quanto nossos supereditores estão se esforçando pra fazer a melhor Bienal ever, trazendo vários autores estrangeiros e nacionais para conversar com o público.

É que a Bienal, além de ser uma feira de vendas e de negócios para os profissionais do livro (muitos livros que vão ser publicados nos próximos anos surgem das conversas entre autores, editores, tradutores etc.), é um momento especial em que leitores e autores têm a oportunidade de se encontrar e trocar ideias.

Mas a Bienal do Rio, na minha opinião, vai ser um momento muito especial porque os autores brasileiros vão comparecer em peso, basta ver os autores que estarão no estande do Grupo Editorial Record!

Aqui tem o link do site oficial da Bienal pra vocês acompanharem a programação!

Quem sempre lê o blog da Galera sabe o quanto a gente valoriza os autores nacionais (e nós temos algumas autoras entre as queridas colunistas!); por isso, resolvi homenagear os nossos colegas autores publicando, nas próximas semanas, as respostas às perguntas que enviei pra alguns deles.

Convidei também alguns autores-amigos-da-Galera, que vão lançar livros na Bienal, pra responder as perguntas.

Eu queria fazer muitas perguntas, mas, óbvio, nossos autores têm que se preparar pra maratona de sessões de autógrafo e apresentações nas próximas semanas.

Então, resolvi concentrar a minha curiosidade em três perguntas, que têm a ver com a boa fase da literatura brasileira voltada para o público infantil, juvenil e jovem adulto. Basta ver as listas de mais vendidos para constatar a importância desses autores para os três gêneros. Ainda assim, nós sabemos que nem sempre é fácil publicar um livro e, sobretudo, divulgá-lo num país do tamanho do nosso.

As duas primeiras perguntas vão ser respondidas por todos e a última é para os autores-amigos-da-Galera. Espero que vocês gostem.


Até a Bienal!

13 de ago. de 2015

Galera entre letras: Bob, o Gato

Hoje eu ainda vou falar sobre a relação entre gatos e autores. E escolhi uma história muito curiosa pra contar pra vocês. A história é tão curiosa que quase me levou a escrever um conto infantil meio macabro (rs). Eu adoro contos góticos e achei que dava um bom texto!

Acho que vocês já sabem da minha paixão por Charles Dickens, né? Volta e meia eu arrumo uma desculpa pra falar dele. Aqui e aqui, por exemplo.

E hoje não vai ser diferente. Pois o gato e o autor em questão são Bob e Dickens, respectivamente. Bob recebeu este nome por causa de um personagem do conto mais famoso de seu dono, O Conto de Natal. Dickens sempre foi afeiçoado a animais e não são poucas as menções a gatos e cães em sua obra.

Mas Bob, de acordo com Mamie, tal como a filha de Dickens comenta em seu livro de memórias, era um gato especial. Surdo, era a companhia preferida de Dickens em seus passeios ao jardim e se comportava como um cãozinho pequeno, chamando constantemente a atenção do dono e pedindo seu carinho.

Eu costumo imaginar os passeios de Bob com seu dono. Dickens, muito curioso, enumerava cada planta que avistava em seu jardim, e Bob, embora surdo, acompanhava tudo com seus olhos grandes e não perdia um único gesto do dono, que ora apontava para uma flor de coloração exótica, ora apontava para uma erva-daninha. Quando Dickens arrancava a erva-daninha, lá ia Bob cheirar a planta e esfregava a testa na mão do dono, como se estivesse enciumado da atenção dedicada ao jardim. E quando Dickens saía em suas famosas caminhadas noturnas, Bob o acompanhava em silêncio até a porta e não arredava pé até que o dono retornasse.

Em suas caminhadas, Dickens costumava ver os tipos humanos que o inspiravam em suas obras e não era raro que ele voltasse cansado e entristecido. Às vezes, ainda se via em seu rosto o rastro de alguma lágrima fugidia iluminado pela luz da lua. Mas ele sempre era recebido por Bob da mesma maneira. Assim que abriam a porta, Bob ia até o dono e se esfregava em suas pernas, como se dissesse a Dickens que sabia muito bem o que ele tinha visto lá fora. E quando o autor se sentava para registrar algum fato ou anedota para a próxima história, lá estava Bob a seu lado.

Mas, apesar das vidas extras, um dia Bob não saiu mais para passear com seu dono pelo jardim. E Dickens, muito triste, resolveu eternizar aquele amigo e companheiro de tantos anos. E essa é a parte “bizarra” da história da amizade entre Bob e Dickens. Certo de que queria ter Bob a seu lado pelo resto da vida, Dickens resolveu empalhar a pata do gato e transformá-la num abridor de cartas, assim, seu amigo felino continuaria a lhe fazer companhia.

Eu confesso que acho essa história emocionante não só pelo amor de Dickens ao Bob, mas, sobretudo, porque é o retrato de uma época extremamente curiosa em relação à ciência e aos inventos científicos e não por acaso é considerada a época de ouro da taxidermia, isto é, da técnica de empalhar animais!

Espero que vocês tenham gostado da curiosa história da amizade de Bob e Dickens! Até a próxima!


No abridor de cartas tem a seguinte inscrição: “C.D. [Charles Dickens] Em memória de Bob 1862." 

9 de jul. de 2015

Galera entre letras: A Eterna Alice

O último dia 4 de julho foi uma data bem importante para leitores e leitoras de todo o mundo. Um dos livros mais traduzidos da literatura universal --- e uma das personagens mais queridas! --- completou 150 anos.
Já sabem de qual livro estou falando?! Óbvio que é de Alice no País das Maravilhas!

Muito se tem falado e escrito sobre Alice desde a sua publicação, e uma das coisas que mais chama a atenção são as ilustrações do livro. Porque Alice e seus seres fantásticos --- lagartas falantes, rainhas de Copas, bebês esquisitos --- precisavam ganhar corpo e, para isso, vários ilustradores usaram lápis, papel e emprestaram técnicas diversas.

Hoje vou mostrar algumas dessas ilustrações, que não apenas refletem a técnica dos artistas, como também, muitas vezes, refletem sua própria época.

Alice teve muitos rostos e cores nesses 150 anos!

John Tenniel foi o ilustrador da primeira edição de Alice. As ilustrações são em preto e branco e Alice é uma menina de cabelos cacheados e volumosos, e vestido de saia rodada.


Um ilustrador do qual eu gosto muito, mas que pouca gente conhece é o Edwin Prittie, conhecido por ilustrar muitos contos de fadas. A Alice do Prittie vem cheia de cores e é bem parecida com a Alice que nós conhecemos do filme da Disney.


A Maria Kirk foi uma das primeiras ilustradoras de Alice. Seus desenhos datam de uma edição de 1907. E Alice é uma garotinha morena, de vestido amarelo. Curioso é que os tons do fundo de suas imagens sempre são os mesmos, puxando para o verde e o ocre.


Eu não tenho muitas informações sobre a Marie Barrera, mas, convenhamos, uma Alice em quadrinhos merece destaque! Até onde eu sei, o gibi da Alice foi publicado originalmente em espanhol, nos anos de 1950.

  
Uriel Birnbaum foi um ilustrador austríaco muito importante de fins do século XIX e início do XX. As ilustrações que ele fez pra Alice são carregadas nos tons azuis e têm um quê de assustador (eu acho!), embora sejam muito bonitas também.



E eu não podia deixar de comentar sobre a linda capa de A Pequena Alice no País das Maravilhas, publicado pela Galerinha, com ilustrações de Emmanuel Polanco e tradução da Marina Colasanti, né? Olhem que linda a Alice ruiva!



Por hoje, fico aqui com a Alice eternizada por Lewis Carroll e seus ilustradores.


Até a próxima!