30 de out de 2015

Papos de sexta: O Sorriso que a Meg Trouxe


Eu me lembro de quando só eu sabia quem era ela. No grupo de amigas, ninguém havia lido nada dela ainda. Quis dividir o que tinha achado, por anos não consegui. Aí um belo dia, eu entrei no Fórum da Galera Record e descobri um mundo de gente que a amava tanto quanto eu. Isso foi em 2007, fiz muitas amizades, muitas das quais revelei aqui em outras colunas, assim como já falei do meu amor por essa autora. Mas o que senti necessidade de contar agora foi como, após tantos anos, ela ainda mexe comigo. Em 2009, quando vi Meg Cabot pela primeira vez, eu tinha outra vida. Quero dizer, nem conhecia meu noivo e muito menos trabalhava onde hoje estou.
Há exatamente 1 semana, eu fui pro trabalho pensando que, mesmo 6 anos depois, uma coisa não mudou: minha paixão por Meg. Eu fiquei acompanhando as postagens na página do evento e vendo as pessoas chegando desde 5 da manhã. Se por um lado eu queria estar lá curtindo, por outro sabia que não tinha como faltar ao trabalho para vê-la. Meu dia estava cheio, um milhão de coisas do casamento para resolver, mas Meg era minha alegria do dia.
Saída do trabalho, não aguentei e peguei um táxi. No caminho, me comunicava com amigas que estavam na fila já com a senha no pulso, e, no nervosismo, nunca Botafogo ficou tão distante do centro da cidade. Ao chegar na livraria, caiu a ficha de que a veria mais uma vez, de que havia conseguido, e quase dei uma volta olímpica. Uma longa fila, já formada, ia sendo atendida, todas de tiara na cabeça, umas com roupa de princesa... Ao pegar a senha-pulseira, também recebi uma tiara. E eu, que tinha saído de casa dizendo que não repetiria o mico de colocar tiara na cabeça como na foto da Bienal em que ela participou, me vi colocando a tiara e me sentindo a Mia — quem nunca? Encontrei tantas amigas, relembramos tantas histórias, me emocionei com o choro das meninas que a viam pela primeira vez, torci com as que vibravam saindo com o troféu em mãos após atendidas por Meg — leia-se livros autografados — e esperei ansiosamente a minha vez.

Me maquiei, segurei meus livros e segui em direção dela. Escolhi "A Noiva é Tamanho 42" e "O casamento da Princesa", obviamente porque no ano do meu casamento queria que ela autografasse livros com o tema — e porque amo as duas personagens desses livros! Foi rápido, mas um " Great" dela me fez sorrir de orelha a orelha. Falei o trivial, sorri para foto e pronto. Meu ano tinha sido salvo. Ver Meg me fez lembrar o como a vida melhora em certos aspectos quando só focamos nos ruins. Não sou a mesma de 2009, mas Meg continua maravilhosa e eu serei sua fã até os 100 anos. Meg é única! Tragam ela todo ano, Galera Record ;) 

29 de out de 2015

Galera entre letras: O monstro conhecido

Ainda estamos no clima do Halloween e hoje, como eu tinha prometido, vou continuar falando do medo e de coisas que dão medo. E como terminei com o medo gótico em Poe, hoje começo com Poe também (deu pra perceber o quanto eu gosto dele, né?).

Se Poe foi um dos mais importantes autores do medo gótico, ele também serviu de inspiração para um tipo de medo que, a meu ver, é muito contemporâneo: o medo do que nos é conhecido e familiar.
É muito fácil quando aquilo que nos ameaça e dá medo é um zumbi de pele cinzenta, uma serpente de dois metros ou mesmo um ser qualquer com quatro patas e duas cabeças! É fácil identificar a ameaça e, com sorte, evitá-la. Mas quando aquilo que nos ameaça tem uma aparência normal é que são elas! E este é um medo real e muito atual. E é tão importante que até um pensador como Freud gastou tinta e papel para escrever sobre isso.

Eu acho que é o fato de que isso possa realmente acontecer com a gente que torna esse tipo de história (sobre coisas familiares que, por algum motivo, passam a nos ameaçar) tão interessante. Confesso que tenho mais medo dessas histórias do que de qualquer criatura gigante e com duas cabeças!

E, como eu disse antes, Poe também foi pioneiro desse tema. Ele escreveu um pequeno conto chamado “O homem da multidão” que trata justamente de como uma pessoa em uma metrópole como Londres (e já no século XIX Londres era uma das mais importantes capitais do mundo!) pode se sentir ameaçada por seus habitantes e pelas atitudes mais triviais. Eu não vou contar a história pra vocês porque tem várias traduções disponíveis, além do conto original, na Internet. Leiam!

Imagino que vocês estejam pensando que numa cidade grande ou numa metrópole as pessoas ou as coisas podem parecer ameaçadoras até para os espíritos mais fortes!

Mas… e se fosse uma cidadezinha pequena? Daquelas em que todos se conhecem? Será que dá pra sentir medo num lugar assim?

A resposta é: dá pra sentir medo. Muito medo.

Uma das minhas autoras preferidas de histórias de medo é Shirley Jackson (numa semana em que se falou tanto sobre as mulheres eu não podia deixar de mencionar uma, né?), mas ela não é do tipo que fala de metrópoles ou gigantes vingativos. Suas histórias sempre se passam em locais pequenos: uma aldeia, uma casa, que, sobretudo por serem pequenos, do tipo onde todos se conhecem, se torna claustrofóbica e muito assustadora.

E tanto pelo tema como pela maneira de envolver o leitor, a Shirley Jackson é uma legítima herdeira de Poe e dos contos góticos, a tal ponto que chamam o tipo de histórias que ela escreve de “gótico do sul dos Estados Unidos”.

O conto do qual eu quero falar pra vocês hoje se chama “A loteria” e até hoje é considerado um dos contos mais polêmicos já publicados nos Estados Unidos! Teve até protesto por causa da publicação. (Imaginem uma época pre-Facebook em que, para protestar, as pessoas escreviam cartas ou telefonavam!)

E o conto é tão marcante pra literatura norte-americana que inspirou autores e autoras nas décadas seguintes, incluindo a Suzanne Collins, autora de “Hunger Games”, que lá nos Estados Unidos é editada por ninguém menos que o David Levithan!

Mas o que é que o conto tinha de tão polêmico para gerar toda essa comoção? Bom, um dos motivos era justamente o fato de começar de maneira trivial. Os leitores se assustaram ao perceber — lá pelo meio do conto — o que realmente significava a loteria.

Para eles, um conto que começava falando de uma manhã límpida e ensolarada não poderia terminar da maneira que termina. Pra aguçar a curiosidade de vocês, eis o primeiro parágrafo:

“A manhã de 27 de junho estava límpida e ensolarada, com o calor refrescante de um dia em pleno verão; as flores desabrochavam em profusão, e a grama era de um verde vivo. Os habitantes do vilarejo começaram a se reunir na praça, entre os correios e o banco, por volta de dez da manhã; em algumas cidades, havia tantas pessoas que a loteria durava dois dias e tinha que começar em 26 de junho. Neste vilarejo, porém, no qual havia apenas cerca de 300 pessoas, a loteria inteira durava menos de duas horas, por isso, podia começar às dez da manhã e ainda acabar a tempo de permitir que seus habitantes voltassem a casa para fazer a refeição do meio-dia.”

E pra quem ficou curioso… Ano passado eu traduzi “A loteria” para a “(n.t.) revista de tradução”. A revista completa está neste link. É só baixar, ler e tirar suas próprias conclusões: será que o que nos é mais próximo pode ser o mais ameaçador, e que sob um céu ensolarado se escondem as verdades mais obscuras do ser humano?

Espero que vocês gostem da leitura!


Por trás da aparência professoral, se escondia uma grande conhecedora da alma humana.

26 de out de 2015

Tons da galera: SPFW e algumas das próximas tendências

Enquanto nas últimas semanas falamos aqui sobre o que esperar do verão 2016/17, o São Paulo Fashion Week, ou SPFW para os íntimos, fez 20 anos nos últimos dias, mostrando antes pra gente o que chega no inverno 2016.

Sem Gisele (aposentada das passarelas), o evento não foi o bafafá de algumas edições anteriores, mas seguiu a linha das semanas de moda do exterior: um evento mais low-profile, com a qualidade do que se viu nas passarelas sendo muito elogiada.

E o que se viu? Listras, saltos de acrílico coloridos, maxi casacos, moletons e coletes, recortes, patchwork e uma sensualidade mais assertiva. A Animale teve botas de cano longo de cobra misturadas a vestidos leves estilo camisola (slip dresses) e casacos estruturados. Helô Rocha também usou textura de cobra em patchworks que a misturavam à renda e ao veludo. Já Herchcovitch apostou no “poder e luxúria”, segundo ele mesmo, em looks com um toque até levemente sadomasô, remetendo aos seus primeiros dias como estilista.

Samuel Cirnansck trouxe flores aplicadas em seus vestidos, bordados, cristais, tule e vestido de uma só manga, destacando um dos ombros (como já postado por aqui, a evolução disso lá fora para o verão já são os dois ombrinhos de fora). Lily Sarti não quis arriscar e apostou no boêmio anos 1970, que já são febre há algumas temporadas. Reinaldo Lourenço, por fim, apostou na androginia e fez um dos desfiles mais elogiados.


Alexandre Herchcovitch, Animale, Lily Sarti, Helô Rocha e Vitorino Campos.

A WGSN (“O” bureau de pesquisa de tendências) fez uma matéria destacando também o estilo das ruas de quem foi ao SPFW. O que mais chamou a atenção do time foram looks mais simples com pitadas de cor e ousadia.

Lizzy Boering, especialista do site, deu um resumo do que realmente vai se confirmar depois de todas essas semanas de moda: o romantismo (bordados, florais e tecidos leve como a seda, de Alexander McQueen), o maximalismo (looks excêntricos e de cores vibrantes, maxibrincos, óculos grandes como os da Gucci), o sportluxe (esporte + luxo, peças tipo camisola e pijama com tênis cultuado por Alexander Wang e Vitorino Campos, agorinha mesmo no SPFW) e o simples + complexo (vestidos simples com recortes, mistura de texturas, visto na passarela de Gloria Coelho).

A conclusão é de que está tudo junto e misturado: as previsões de Liz juntam o que temos visto para o próximo inverno & para o verão depois dele, ou seja, estilos mais duradouros, que farão bem a transição entre as estações. Nossas carteiras agradecem!

Os destaques de quem esteve por lá segundo o WGSN: esporte+luxo, maxibrincos e toques de cores fortes.


23 de out de 2015

Papos de Sexta: Espelho, espelho meu...



“Objetos refletidos no espelho estão mais próximos do que aparentam”. Essa frase – às vezes em inglês – aparece estampada no espelho retrovisor de carros, mas sempre soou mais profunda do que isso pra mim. Faz mais de um ano que eu estou pensando em abordá-la por aqui, mas não me sentia pronta para fazer isso. Até agora.

Usamos espelhos para ver se não estamos saindo na rua com a maquiagem borrada, ou com aquela espinha alienígena na curvinha do nariz, ou com roupa que marca o que deveria esconder, ou... mas será que é só o espelho que mostra para nós o que somos? E será que somos resumidos a somente o que ele mostra?

“Espelho, espelho meu. Existe alguém mais bela do que eu?”, perguntava a Rainha Má para o espelho no conto de fadas. Quando cresci é que entendi o simbolismo dela questionar o espelho. Minha mãe sempre me disse para não perder muito tempo olhando para o espelho, quando o que está além dele é muito mais importante. Aí vi Harry Potter e pensei “Meu Deus! Minha mãe é o Dumbledore!”(Potterheads entenderão!).

Já a minha avó tinha a mania de cobrir os espelhos quando alguém próximo falecia. Ela dizia que a alma poderia ficar presa neles e não conseguir seguir seu caminho. Mas será que isso só acontece quando a gente morre? Porque eu já vi muitas almas presas ao próprio reflexo e a galera ainda esbanjava saúde!

Incrível como o espelho pode aparentar ser um instrumento tão simples e esconder um significado tão profundo.

Ao meu ver, hoje em dia, o espelho não é somente o objeto preso na parede. Ele é o nosso perfil nas redes sociais. E, assim como o objeto físico na parede, ele não é o reflexo perfeito de quem somos.

Hoje em dia, a Rainha Má perguntaria para o Espelho quem tem o perfil mais acessado no YouTube ou o maior número de curtidas no Facebook. E, assim como no conto de fadas, ele faria a intriga que a leva a cometer atos terríveis. O Espelho adora uma intriga, minha gente!



Hoje em dia, queremos personalizar nossos perfis nas redes sociais em busca de seguidores, de admiradores. Postamos fotos dos pratos que comemos quando deveríamos estar saboreando a refeição e aproveitando a companhia. Olhamos o mundo pela tela do celular para compartilhar cada momento, pois, ao postar no snapchat, no instagram, provamos que estivemos lá, que fizemos isso ou que compramos aquilo. E juntando tudo é como se criássemos o reflexo de quem somos.

Mas não compartilhamos nossos momentos de dúvida, de desespero, de fragilidade. Não. Só nos interessa mostrar o palco e não os bastidores e é exatamente isso que quebra esse reflexo. Não somos só o que o espelho mostra, nem o que os perfis nas redes mostram. Isso é só uma casca.  

Disse no início da coluna que fazia tempo que estava me preparando para escrever esse post e agora explico a razão. Fiz aniversário recentemente e recebi muitos parabéns e fiquei muito feliz! Mas algumas mensagens vieram com “você tem muita sorte” e “quero que a minha vida seja igual a sua”. E por mais que tivesse me sentido extremamente lisonjeada pelo carinho demonstrado, me assustou o fato de pessoas acharem que tenho a vida perfeita. Aí, quando falo no Clube do Livro Saraiva que já tive surto de Burn Out por causa de trabalho e que estou sempre me questionando, procurando ir além e a me aprimorar, sou recebida com olhares arregalados e “nossa, nem parece”.

Sorte? Sorte sim para quem está preparada e trabalhando quando ela chega, queridinha!!

Eu não sou apenas o que está nas redes sociais. Eu não leio só o que posto no blog. Eu sou eu assim como você é você. E isso tem facetas e nuances e níveis diferentes e agradeço muito não poder ser definida por um perfil no Facebook!

Nos dias de hoje, virou esporte olímpico julgar o outro e falar pelas costas sobre pessoas que nem conhecemos. É como se, ao passar no perfil de alguém, já pudéssemos formar opinião sobre seu caráter. Pelo amor de Deus! Sem nunca ter trocado uma palavra? Como assim? Mas pior do que isso é que, ao postar algumas coisas, nós acabamos incentivando isso! Ou vai dizer que você nunca postou uma foto pensando “Toma! Agora diz que é melhor do que eu!”? Todo mundo já fez isso e tudo bem. Mas continuar com isso é tomar veneno e esperar que o outro morra. Frustra, envenena e machuca a gente!

Não deixar que a alma seja aprisionada no espelho que é a rede social é uma luta constante e diária. Mas é muito válida! Estamos juntos nessa, certo?

Espelho, espelho meu, tem alguém mais... ah, quem liga! Vou comer sorvete! #PartiuSerFeliz


13 de out de 2015

Tons da Galera: Paris Fashion Week

A semana de moda de Paris Primavera/Verão 2016 trouxe algumas confirmações da semana de NY (que mostramos aqui) e algumas novidades.

Algumas confirmações: ombros à mostra, metalizados com efeito papel alumínio, sombra de olho azul e acessórios inusitados (depois da bolsinha Kate Spade em NY imitando as embalagens da lendária Magnolia Bakery, e da Moschino em Milão com sua capinha de celular imitando desengordurante, que já virou febre, em Paris Charlotte Olympia veio com uma charmosíssima bolsa com luvas).

Entre as novidades, muito tangerina, babados (estamos falando de Paris, afinal!), vestidos tubinho de tricô, calças de cintura baixa (sim! Os early-00’s estão ameaçando voltar, e convenhamos que até hoje tem muita gente que nunca conseguiu abdicar de seu jeans skinny de cintura baixa por aqui, mas ela agora vem larguinha e com muito mais classe). Já a musa de Louis Vuitton para essa temporada é uma cyberpunk de cabelos rosa pastel.




Saint Laurent trouxe outra modinha do final do milênio passado e começo desse, que foram os tops e vestidos slip, aqueles imitando camisolinhas de cetim com alças finas, que Kate Moss adorava em seus tempos com Johnny Depp. Ainda inspirada em Kate, a mesma marca trouxe galochas para as passarelas — quem não lembra que foi Moss quem tornou as feiosas botas de borracha em objeto de desejo ao usá-las para se proteger da lama no festival de Glastonbury?




Pra finalizar, mais uma moda anos 1990/2000: a Chanel levou muito pastel (olha ele de novo) metálico com efeito frosty (pense em Frozen, inclusive na make) para refrescar o próximo verão, em um desfile passado num cenário de aeroporto. Para não perder o costume, confira um resumo do desfile aqui!

8 de out de 2015

Galera entre Letras: Você tem medo de quê?

O mês de outubro é o meu preferido (e nem é pelo dia das crianças, que eu não comemoro mais rs). Eu gosto dele por causa do Halloween e do aniversário de morte de um dos meus autores favoritos: Edgar Allan Poe.

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(Eu tinha que compartilhar este gif com vocês.)

Dificilmente alguém que gosta de ler já não cruzou com um texto dele ou um filme baseado em sua obra. E dificilmente alguém abriu uma antologia de contos norte-americanos sem se deparar com um de seus contos mais famosos: “O coração denunciador”, “O gato preto”, “A carta roubada” ou “Os assassinatos na rua Morgue”.

Por isso, pensando em Poe e no Halloween, resolvi dedicar as duas colunas do mês ao medo. Sim. A esse sentimento ao mesmo tempo estranho e prazeroso.

Bom, eu não vou dar uma aula sobre o medo aqui, mas vamos tentar entender o que é o medo e por que tanta gente gosta de ler (ou ver) algo e sentir medo?

Em primeiro lugar, é bom lembrar que a gente SENTE o medo. Quer dizer, quando a gente tem medo, nosso corpo sofre alterações físicas, sabem? O coração dispara, nós começamos a suar, a respiração encurta. Dá até pra medir os impulsos cerebrais ligados ao medo! O que significa, claro, que ele é REAL. Quem já sentiu medo uma vez na vida, sempre reconhece a sensação.

E o medo também tem uma função importante: a de (auto)preservação. Se você tem medo, se arrisca menos e consequentemente tem mais chance de sobreviver. Engraçado, né?, que o medo possa ser importante pra sobrevivência da espécie. Mas é fato que ele também serve pra isso.

E também é fato que essa função de preservação dos indivíduos foi logo percebida. E sabem o que aconteceu? Passou-se a contar histórias que, de alguma forma, despertassem medo ou um sentimento parecido com o medo. Essas histórias tinham a função de educar e assumiam formas que a gente conhece muito bem. Já pensaram nos contos de fadas? Muitos deles tinham como tarefa evitar que as pessoas cometessem atos considerados errados na época em que viviam (por isso, os garotinhos desobedientes se deparavam com feiticeiras malvadas no meio da floresta; se alguém mentisse, o nariz crescia e por aí vai…). Claro que essa função “controladora” do medo não se limitou aos contos de fadas nem se restringiu a mostrar que a mentira é uma coisa feia.

Mas vamos em frente na nossa brevíssima história do medo.

Uma das curiosidades a respeito do medo é que ele pode ser provocado por algo externo ou por nós mesmos. Explico: eu tenho medo de barata. Sempre que vejo uma barata, eu tenho todos aqueles sintomas que descrevi antes. MAS: eu posso estar num lugar no qual eu ache provável uma barata aparecer e, mesmo sem ter visto uma delas, vou ter medo. Isso prova que nós conseguimos criar o medo apenas com nossa mente. Algumas vezes, essa sensação é chamada de angústia, isto é, a antecipação de algo ou de um acontecimento que causa medo.

Pra mim essa é a característica mais importante do medo: o fato de que ele não precisa de algo externo pra ser acionado. E por isso mesmo ele é uma sensação tão importante para a literatura e foi um tema tão constante, afinal, nós temos uma literatura de terror, né?

Quem mais explorou o medo como tema e como um meio de despertar o interesse do leitor foram os escritores e escritoras góticos. Se você já leu um livro que tem uma mocinha ou um mocinho frágil e debilitada(o), que desmaia à toa, mas que gosta de perambular por corredores escuros e lugares ermos tarde da noite, e no qual é normal que portas batam sem que esteja ventando, e que pratos ou outros utensílios se quebrem sem motivo aparente, então, você já leu um romance gótico. E provavelmente seu coração disparou enquanto você passava páginas e mais páginas que descreviam meticulosamente um determinado lugar. Quase como se você estivesse dentro do livro e pudesse sentir aquela “atmosfera”.

A “atmosfera” gótica tem tudo a ver com o medo. É praticamente impossível a gente não se identificar com a fragilidade dos personagens!

O gênero gótico fez tanto sucesso na literatura que até hoje nós temos autores que exploram essas sensações — são os chamados neogóticos. E alguns criaram essa ”atmosfera” inspirados pelo próprio local em que moravam: os góticos sulistas, por exemplo, que são os autores que moravam no sul dos Estados Unidos.

Mas… e o Poe? Bem, Edgar Allan Poe, pra mim, é um dos mais importantes representantes da ficção gótica nos Estados Unidos, embora não tenha se limitado a escrever histórias góticas. Vocês sabiam que ele foi o inventor do romance policial, tal como a gente conhece hoje?

Ele sabia como ninguém criar essa “atmosfera de medo” e soube como ninguém explorar a angústia e o medo em suas histórias. E também criou histórias em que o medo era causado por coisas bobas e rotineiras. Ou mesmo por pessoas conhecidas.

E nisso ele inspirou um bocado de autores depois dele.

Na próxima coluna, eu vou falar do medo causado por coisas (ou pessoas) conhecidas e desconhecidas, e por que a gente insiste em ler histórias que nos dão medo. Preparem-se! Vai ser de arrepiar!

5 de out de 2015

Design et cetera: BRANCO X AMARELO

Temos recebido MUITOS e-mails e comentários de leitores se queixando sobre alguns dos nossos livros serem impressos em papel branco. Muita gente associa o papel branco às edições econômicas e começam os comentários nas redes sociais:

“Por que estragaram o livro usando página branca?”

“Chama de edição de luxo, mas não tem página amarela!”

“Vamos assassinar vocês editores da Galera que imprimem em papel branco”

Depois de responder algumas ameaças de morte mensagens desse tipo, resolvemos esclarecer aqui a diferença entre papel branco e papel econômico. Ao contrário do que muita gente pensa, o papel branco não é mais barato do que o papel amarelo. O que determina o valor do papel não é a cor, é a gramatura, que significa gramas por metro quadrado e determina o peso do papel e sua capacidade de absorver a tinta.

*De 35g a 55g: são os papéis de menor gramatura, portanto, econômicos. São mais finos e sua aplicação mais comum é em jornais e edições de banca ou econômicas.

*De 75g de 115g: o papel que você utiliza na sua casa ou no escritório tem essa média de peso / gramatura. As edições comerciais também.

*150g – 300g: utilizado em capas de livros, são mais pesados, toleram mais tinta e acabamentos como hot stamping, relevo, brilho holográfico etc

Portanto, um livro com hot na capa, com pantone, relevo e impresso em papel branco de 75g NÃO é uma edição econômica.

Um livro de capa dura, impresso em tecido, com miolo ilustrado de duas cores impresso em papel branco também NÃO é uma edição econômica.

Outra coisa que muita gente alega é que o papel amarelo cansa menos a vista na hora de ler. Isso pode ser verdade em alguns casos, mas é preciso lembrar que a visibilidade está ligada a outras questões também, como a tipografia usada, o espaçamento entre letras, o espaçamento entre linhas e a diagramação em si.

Existem vários motivos que pautam a escolha do papel em uma edição, e nenhum deles é torturar o leitor. Geralmente, os livros que fazemos na editora costumam ter orelhas e papel amarelado, mas dependendo do projeto, o papel branco faz mais sentido.

Às vezes a capa tem tons mais frios e não combina com o papel amarelado. Às vezes a gráfica não tem o papel amarelo na gramatura necessária para a qualidade da impressão. E quando  o miolo é ilustrado, principalmente em duas cores, o branco funciona melhor pois não interfere na pigmentação da ilustração. Por exemplo, a edição gringa da série Garota Gotic:
Tem as páginas brancas em alta gramatura, é ilustrado e o canto das páginas é pintado de azul metálico. Ou seja, uma edição caríssima, de altíssimo luxo e papel branco!

 







Outro exemplo de edição americana em papel branco é a série Emily, a estranha. Os livros também são capa dura, o miolo é impresso em Pantone  e o papel é um couché branco, ou seja, brilhoso e de alta qualidade.






Outro exemplo é a edição da Intrínseca: 365 dias extraordinários, também ilustrado em duas cores e capa dura, também impresso em papel branco.






Ou seja, existem mil questões que influenciam a qualidade de uma edição, e a cor do papel não é uma delas. Como editores, nosso trabalho é sempre pensar em quais materiais se adequam melhor ao produto final e tomar a decisão de acordo.

E, no fim das contas, os livros são como as pessoas: a cor não determina o valor, né?