22 de mai de 2015

Papos de Sexta: Colorindo a vida

Vou ser muito sincera, quando os livros interativos surgiram, eu disse para mim mesma: não vou mesmo colorir, que perda de tempo! Comprei uns importados do tipo "listografia" e acabei deixando pela metade. Nunca preenchi tudo; paguei uma grana preta e estão lá, vazios, pedindo para serem preenchidos.

Mas então veio a febre dos livros de colorir, e era um tal de pessoas de todas as idades procurando por esses livros que até os lápis de cor, até então nunca tão procurados após o furor da "volta às aulas", esgotaram.

Muita gente aderiu, alguns torceram o nariz, e eu fiquei na turma do "deixa o povo colorir!". Que mal há nisso? Em juntar os amigos em uma livraria e trocar ideias de cores para eles? Que mal há se o seu lápis é aquarelável e eu gosto é de hidrocor?

Mas então, como tudo na vida, como se não bastasse a guerra política das últimas eleições e as amizades desfeitas por causa de um partido ou outro, tiveram os que decidiram postar em suas timelines que livro de colorir não é livro, que nem deve entrar na lista dos mais vendidos. E aí fica a pergunta: não é mesmo? Para mim é livro, mas não de história, e sim de arte, tipo aqueles de fotografias que compramos. E o cara que desenhou não é um artista? Não merece ele que seu livro, que demorou tanto para fazer, esteja na lista dos mais vendidos?

Na onda dos livros de listografia e de colorir, quem sai ganhando é o leitor, aquele que sempre quis ter um livro, mas nunca arrumou tempo para escrevê-lo. Agora ele pode fazer parte de um desses, afinal, o que está ali vem da sua cabeça, o que se pinta ali é sua arte. E isso, por favor, não se discute!

Sempre fui péssima em colorir. Era igual colar figurinhas; sabem aquela pessoa que sempre cola torto? Sou eu. Também sou rainha em pintar fora das linhas; quem nunca? E antes que perguntem: sim, uso óculos, mas colorir um pouco para fora já faz parte de mim.

Ainda não comprei o meu livro de colorir, mas tenho lápis e hidrocor — tenho mania de comprar quando entro nas papelarias, mesmo que não tenha muita utilidade...até agora! — e fiquei bem animada com os dois livros que vem por aí da Galera Record.




A Galera Record agora me deixou com muita vontade! Aguardem e me acompanhem nas redes sociais porque, com certeza, o fofo "Gatos - O Livro de Colorir", de Marjorie Sarnat, e o Ateliê Fashion, da Rafaella Machado, estarão comigo. Preciso dar uma corzinha a eles, né? Não tem jeito, daqui a pouco sou a mais nova viciada. Antes colorida e feliz que preto & branca estressada. ;) 


16 de mai de 2015

Galera entre letras: Contos de fadas... outra vez

Entre os dias 11 e 17 de maio, a Academia Britânica de Letras promove a semana de literatura, em Londres. É um evento que inclui várias manifestações culturais (exibição de filmes, exposições, apresentações diversas) e que sempre tem um tema diferente.

O tema deste ano muito me interessa. Já dá pra adivinhar qual é? Isso mesmo! Os contos de fadas! Na verdade, a mostra se chama OTHER WORLDS, mas no videozinho do evento eles já deixam claro do que se trata. Dá pra ver aqui.



A proposta deles é abordar os contos de fadas sob várias perspectivas: discussões de gênero, palestras sobre a tradução e a modernização dos contos de fadas, a questão das ilustrações e dos ilustradores etc. O que não falta é assunto e, aos poucos, eu vou contando pra vocês o que rolou nesses dias.

Mas hoje eu quero falar sobre a exposição que está acontecendo durante a semana (TODA a programação é gratuita; então, se alguém estiver em Londres por esses dias, corra! porque vale muito a pena).

Tem várias discussões que envolvem a relação entre o oral e o escrito nos contos de fadas (ou ainda a transformação da tradição oral folclórica em contos escritos), mas também a relação entre a palavra e a imagem. A imagem tem tanta importância que não foi casual que ilustradores como Arthur Rackham ou Kay Nielsen (que chegou a trabalhar na Disney!)tenham feito ilustrações para antologias ou contos de fadas.
A exposição é uma parceria entre a Academia Britânica de Letras e a Folio Society, uma editora que publica livros clássicos em edições ilustradas, de capa dura.

Nos contos de fadas, as imagens funcionam como um auxílio à história, reforçando aspectos dos personagens ou do ambiente em que eles se encontram; mostrando características que não foram descritas ou ainda como “testemunho” do contexto histórico e social em que aquele conto foi recolhido ou mesmo como “testemunho” da época em que ele foi ilustrado. E isso fica evidente em algumas das imagens selecionadas para a exposição, que vou mostrar pra vocês agora.



Esta imagem faz parte do livro O Gigante Egoísta e Outras Histórias, de Oscar Wilde. Pra quem não sabe, o autor de O Retrato de Dorian Gray também escreveu contos de fadas. Alguns são bem melancólicos e muita gente acredita que refletiam o sentimento do autor em relação à sociedade da época. Não é casual, portanto, que o ilustrador tenha usado o próprio rosto de Wilde para ilustrar seu conto.


Aqui o ilustrador Victo Ngai (um dos meus preferidos) utiliza o tradicional desenho chinês para ilustrar um volume sobre o folclore da China. Não sei se vocês percebem, mas mesmo usando características dos desenhos chineses, os desenhos de Ngai são mais fluidos e ele introduz movimento nas imagens (ao contrário das ilustrações estáticas tradicionais).


A Princesa e o Goblin, de George Macdonald, é um dos meus livros preferidos e, se vocês repararem nos traços, os desenhos lembram muito uma técnica de gravura chamada xilogravura. É interessante ver como a ilustradora incorporou essa técnica ao livro e o efeito do uso das cores fortes impressiona bastante.

E pra quem não sabe, a xilogravura é uma técnica bastante usada para ilustrar a nossa literatura de cordel, outro gênero literário que, assim como os contos de fadas, traz o imaginário do povo para o papel.
Nas próximas colunas, espero poder trazer mais novidades da semana literária promovida pela Academia Britânica de Letras e das discussões sobre a importância dos contos de fadas para a literatura.

Boas leituras e até a próxima!



15 de mai de 2015

Papos de sexta: Resgatando fadas

A arte é cíclica. Seja ela literária, cinematográfica, plástica, temos ciclos, e no momento podemos notar o resgate aos contos de fada. Geralmente temos filmes de fantasia em épocas turbulentas na economia. Como o mar não está para peixe, muito menos para uma pequena sereia, podemos notar uma gata borralheira voltando a aparecer no cinema e na literatura em várias releituras diferentes.

Essa “revisita” a clássicos contos de fadas como Cinderela, Branca de Neve, João e Maria e outros também ocorre quando Hollywood está sem ideias. Mas acho que o caso aqui é outro. Acho que está mais do que na hora de resgatarmos não as histórias de fadas, mas o que elas representam.

Fui ao cinema assistir a mais recente versão da Cinderela e me surpreendi positivamente. Vejam bem, quando o assunto é conto de fada, sou extremamente exigente. Sou aquela leitora que entendeu desde pequena a “moral da história” de cada conto sem que tivessem que me explicar demais e faço questão de que a alma desses contos seja preservada, não importa a época. E isso acontece com Cinderela. Os temas - como “ser sempre positiva e não rancorosa” e acreditar em magia - estão muito presentes, e não de uma maneira fantasiosa, mas real, no rancor de uma madrasta e na força de uma promessa. E é lindo ver que mesmo as heroínas acham que não vão conseguir suportar e suportam. E que a melhor vingança não é uma risada maléfica, mas o perdão.

E não são somente as princesas que transmitem poderosas lições. Por exemplo, um dos contos de fadas de que mais gosto é “O Patinho Feio”. Já até mencionei ele aqui no blog láaaaa no início. Quando fiz faculdade de teatro, até escrevi um monólogo sobre o conto. Sempre achei o máximo como o patinho sofreu bullying pelos outros patos por ser feio quando tudo que ele queria era ser aceito. E olha o que ele se tornou: um belo e majestoso cisne. E não se tornou arrogante por causa disso, mas teve seu desejo realizado. Não julgue pela aparência e não faça pouco caso dos outros!

Acho que contos de fadas formam a base de muitas lições, de muitos livros, de muitas histórias e conflitos. Eles são como o farol moral de todos nós, mas sofrem preconceito de pessoas que acham que são somente para crianças. Um carinho de mãe é somente para uma criança? O orgulho nos olhos de um pai é direcionado apenas às crianças? E desde quando apenas crianças passam por bullying e conquistam obstáculos? Pois é. Está mais do que na hora de resgatarmos as fadas das páginas e darmos a elas o verdadeiro e devido reconhecimento: inspiração de que tudo vai melhorar, desde que façamos a nossa parte com respeito e dignidade.

Acredite em contos de fadas, porque por trás de um chefe injusto está uma madrasta; por trás de uma fada madrinha está uma grande amiga; e nem todo príncipe precisa ser encantado para dar o seu recado com amor e carinho.
Os contos de fadas estão ao nosso redor, disfarçados nas entrelinhas de vários livros e em cada ação no nosso dia a dia. Basta reconhecê-los.

E aí? Você vai se transformar em cisne ou vai passar a vida de joelhos, como uma Gata Borralheira? A escolha é sua.


12 de mai de 2015

Tons da Galera: Mad Women

Chega ao final, semana que vem, a sétima e última temporada da série Mad Men, um marco na história da TV pela qualidade, pelo já mítico protagonista Don Draper, e muito, mas muito mesmo, pelos seus figurinos. A responsável por este feito é a americana Janie Bryant, que esteve aqui no Brasil no último Festival do Rio, justamente para falar sobre sua história e seu trabalho na série.


Começando no final da década de 50, Mad Men atravessa os anos 60 e termina no começo dos 70, o que deu a Janie uma ampla gama para trabalhar em cima de uma época em que padrões e conceitos mudaram tão radicalmente na América. Não apenas isso; a riqueza dos personagens e suas diferentes personalidades e estilos de vida a permitiram diversificar mesmo dentro de mesmos espaços de tempo, com a curvilínea Joan, a ambiciosa Peggy, a conservadora e mãe de família Betty, e a prafrentex Megan, essas últimas ex-esposas de Don. As personagens, junto com as inúmeras amantes de Don, viraram ícone de estilo, assim como as atrizes. Um verdadeiro fenômeno, os figurinos de Mad Men influenciaram a moda, em vez do contrário, como era comum até então. A febre do estilo anos 50 e 60 influenciou desde cores de esmaltes e maquiagens (com coleções como a da Estee Lauder, com o nome da série), a coleções de roupa como a da Banana Republic.


Megan, Rachel, Peggy e Betty. Personalidades diferentes, um homem em comum.

Jane conta que seu processo de inspiração vai desde revistas, filmes antigos e internet ao garimpo de fotos antigas (seu método favorito), brechós, feiras de antiguidade e até de seu próprio acervo familiar e de amigos. Para compor os looks ela teve carta branca do criador Matthew Weiner para comprar em lojas vintage de Los Angeles, alugar peças do acervo de outros estúdios e até criar e mandar fazer suas próprias roupas. O trabalho de Janie é tão meticuloso que até as roupas íntimas usadas pelos personagens foram feitas seguindo os padrões de modelagem da época, incluindo cintas para as mulheres e calças de cintura alta para os homens.


O perfeccionismo de Janie em ação nas lingeries e camisolas de Betty, Joan e Trudy.

Mad Men rendeu diversos prêmios e indicações à figurinista, que já tinha alguns em casa por seu trabalho na série Deadwood, e apesar da tristeza ser geral pelo fim do eye candy semanal que Janie proporciona, a morena de olhos azuis não pretende parar: está lançando uma linha de meias calças modeladoras e tem planos com sapatos e  acessórios, além de querer fazer trabalhos com estilo contemporâneo. Alguém duvida de que vá dar certo?


Janie no acervo do set e um de seus croquis transformados em realidade.